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Um dia de juiz na Copa Lily Parr

Maurício Rodrigues Pinto

Foi por meio de uma mensagem em um grupo de Whatsapp: “Procura-se por pessoas que se interessem em ser juízes em um torneio de futebol feminino”. Apesar de estudar futebol, acompanhar noticiários e ver jogos, fazia muito tempo que não estava dentro das quatro linhas. A pouca qualidade técnica somada à falta de condicionamento físico fizeram com que jogar bola, seja em competições informais ou mesmo nas “peladas” ocasionais, se tornasse uma experiência cada vez menos prazerosa e divertida. Mas o anúncio em questão me animou a querer viver uma experiência inédita e, mais ainda, a refletir e escrever sobre os desafios e dificuldades de ser um juiz de futebol, esse personagem que, mesmo sem precisar saber chutar e defender uma bola, pode ter participação direta no resultado de um jogo e de um campeonato.

À exceção dos comentaristas de arbitragens, que são ex-juízes de futebol, raramente o juiz tem a possibilidade de falar publicamente sobre a sua atuação e as dificuldades do ofício. Muitas vezes, são orientados por chefes de arbitragem a não darem entrevistas pós-jogo e a não explicarem suas impressões sobre o jogo e análises sobre lances que são amplamente repercutidos durante e depois das partidas[1]. Meu objetivo com esse texto é justamente compartilhar algumas das inquietações que passam pela mente de alguém que assume a função de juiz de futebol. Apesar de ser um torneio amador e ter características mais lúdicas, procurei levar com a maior seriedade a incumbência de ser juiz de futebol. E assim o fiz.

Conversa do juiz com as capitãs dos times Au Gás e Shakira Donetsk. Foto: Vini Lima

Conversa do juiz com as capitãs dos times Au Gás e Shakira Donetsk. Foto: Vini Lima.

No dia 06/05/2017, em um complexo de quadras de futebol soçaite no bairro da Lapa, São Paulo, foi realizada a sétima edição da Copa Lily Parr. O torneio foi criado em fevereiro de 2014 e é disputado duas vezes ao ano, simultaneamente com o torneio de futebol masculino, a Copa Trifon Ivanov, que homenageia o voluntarioso zagueiro que fez parte do selecionado búlgaro que fez história ao conquistar o quarto lugar na Copa do Mundo de 1994, sob a liderança do craque Hristo Stoichkov.

Inicialmente, o torneio das mulheres teve o nome de Troféu Kátia Cilene, em homenagem à atacante que defendeu a seleção brasileira de futebol feminino entre 1993 e 2007, sendo até hoje uma das maiores artilheiras da seleção com 25 gols marcados. “A Kátia Cilene era uma baita jogadora, multitarefa em campo, mas a galera lembrava mais da Sissi e da Formiga. Então decidimos homenageá-la”, conta Nayara Perone, uma das criadoras do torneio.

Na sexta edição, o torneio passou a se chamar “Copa Lily Parr”, fazendo referência a uma das pioneiras do futebol feminino no mundo. “Decidi trocar o nome para Lily Parr, cuja história inspirou muita gente na Inglaterra. Ela começou a jogar em 1919, marcou mais de 900 gols, peitou todos que eram contra a prática do futebol feminino e fez história nos primórdios. Achei que era uma homenagem à altura”, diz Nayara. Apesar do nome ainda pouco conhecido, Lily Parr pode ser considerada uma das maiores jogadoras da história do futebol mundial e a sua história merece um destaque especial nesse texto.

A inglesa Lily Parr iniciou a sua carreira em 1919, aos 14 anos de idade. O futebol feminino cresceu na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial, quando muitos homens tiveram que servir o exército, abrindo postos em fábricas e indústrias para mulheres. Times de futebol feminino ligados às fábricas e indústrias inglesas foram constituídos, o que fez com que a modalidade se popularizasse e os jogos, na sua maioria beneficentes, atraíssem grandes multidões. Lily se destacou atuando pelo Dick Kerr’s Ladies, da cidade de Preston, formado por funcionárias da Dick, Kerr & Co. Em 1921, a Football Association (FA), a mais antiga federação de futebol do mundo e entidade que controla o futebol na Inglaterra, proibiu o futebol feminino sob a alegação de que era “inadequado às mulheres e a sua prática não deveria ser encorajada”.[2] Mesmo com a proibição, o time pelo qual Lily atuava continuou realizando jogos e excursões para fora da Inglaterra, que passaram pela França e pelos Estados Unidos.

Lily Parr é considerada uma das maiores artilheiras da história do futebol, tendo marcado cerca de 900 gols ao longo da sua carreira, encerrada em 1950, aos 45 anos de idade. Além do enorme talento para o futebol e do chute potente, Lily tornou-se também um importante símbolo LGBT no esporte, uma vez que assumiu publicamente ser lésbica, tendo vivido muito tempo ao lado de sua companheira Mary.

Voltando ao torneio, a VII Copa Lily Parr reuniu 10 times, cada um com 10 jogadoras. Além de reunir mulheres que já têm vivência com a prática do esporte, a Copa é também um espaço para que novas mulheres se interessem pelo jogo e pela sua prática: “Sempre falamos que todas são bem-vindas. Quem sabe, quem não sabe jogar, a gente tira essa pressão da galera de querer brilhar e isso ajuda muito a todas terem coragem de iniciar no futebol. Há também as que são supercraques, mas jogam tranquilas porque não tem a pressão de vencer, de provar nada. Formamos os times com base em sorteio. Cada jogadora se cadastra individualmente e sorteamos ao vivo. A formação dos times fica na base da sorte. Já rolaram times que quase todas eram zagueiras. Outro só de laterais. No fim, fica tudo bem equilibrado porque sempre tem uma que joga melhor, acaba carregando o time com ela. E as outras que não jogam tanto, acompanham o ritmo. No fim, a Copa Lily Parr acaba virando um caminho pras minas se aproximarem do futebol”, conta Nayara, também capitã de um dos times participantes dessa edição, o Bayern de Favela [3].

Apesar da grande influência nos referenciais do futebol profissional – também presentes no uso de uniformes, na presença de juiz e mesário, nas regras e no uso de cartões, além do próprio formato do campeonato –, o torneio carrega forte influência do “futebol bricolado” (DAMO: 2005, p.37)[4] de conotação mais lúdica. Jogos de 10 minutos de duração (à exceção da final, disputada em dois tempos de 10 minutos) e flexibilidade nas regras mediante acordo entre as capitãs dos times participantes. Em muitos momentos, as próprias jogadoras que participavam de um determinado lance já decidiam as marcações, sem necessidade de intervenção do juiz, como, por exemplo, nas marcações de lateral, escanteio e acusações de faltas, assim como é comum no futebol jogado na rua. Além disso, o churrasco, as bebidas e as discotecagem que acontecem durante os jogos também dão um ar de “pelada entre amigxs” aos torneios. Porém, dentro de campo, depois do apito inicial a descontração é colocada de lado e a competitividade fala mais alto. E é aí que a responsabilidade do juiz, no caso, este que vos escreve, aumenta…

O time do Au Gás, campeão da VII Copa Lily Parr, posando para foto ao lado do seu mascote. Foto: Vini Lima

O time do Au Gás, campeão da VII Copa Lily Parr, posando para foto ao lado do seu mascote. Foto: Vini Lima.

No início, a grande dificuldade foi a coordenação entre sinalização e o apito, o que fazia as jogadoras ficarem em dúvida com algumas marcações. Outra dificuldade foi a movimentação, de forma a acompanhar o mais perto possível as jogadas, mas sem comprometer a dinâmica do jogo. Na quadra de soçaite e com seis jogadoras de linha para cada lado, a minha movimentação ficava mais limitada à intermediária do campo de jogo. Ainda assim, tentar acompanhar as jogadas mais perto do lance foi uma boa estratégia para dar maior respaldo, junto às jogadoras, às minhas decisões de campo.

De fato, ser juiz não é uma função na qual o indivíduo tem pode ter 100% de certeza de suas decisões. Mas percebi que é preciso demonstrar convicção do que está sendo marcado e que isso transmite maior segurança aos dois times – característica que destoa bastante da minha personalidade, normalmente, mais circunspecto, que pensa e analisa possíveis variáveis antes de tomar uma decisão. Possíveis hesitações na análise e interpretação de um lance podem dar margem para que as jogadoras tentem ações que visam desestabilizar a arbitragem, como reclamações, desafios e “catimbas” que reverberam entre o público que acompanha o jogo e podem tornar o clima da partida bem menos tranquilo. A discrição do árbitro durante o jogo também se mostra um componente muito importante, para evitar suspeitas de eventual benefício ou condescendência a um dos times.

Recordo-me de um lance, em uma das partidas, em que estava com a visão encoberta. Uma das jogadoras desferiu um forte chute diagonal, de longe, que foi em direção ao gol. Na minha interpretação havia batido na trave, mas algumas jogadoras pediram gol, alegando que havia batido no ferro de dentro do gol. Mesmo sem ter visto o lance, fiz a sinalização que era para “seguir o jogo”, com base no som seco da bola batendo na trave e na quase nenhuma reação das pessoas que estavam vendo o jogo no alambrado atrás do gol. Caso percebesse protestos vindos das pessoas que estavam atrás do gol, é possível que eu viesse a reconsiderar a minha interpretação inicial, o que revela o quanto a pressão feita por quem está fora de campo também afeta a atuação e as decisões tomadas pelo juiz.

O nível de tensão e concentração na arbitragem foi tão alto que mal consigo me recordar os placares das partidas que apitei ou, ao mesmo, de ter desfrutado das jogadas bonitas e plásticas que aconteceram durante os jogos. A única partida que me recordo o resultado envolveu os dois piores times da fase de grupos, Shakira Donetsk e Hipster Plate. Os dois times, já eliminados da fase de mata-mata, disputaram o “Troféu Socorror”, entregue ao time perdedor. Mesmo com um clima mais leve o jogo foi bastante disputado, com várias oportunidades desperdiçadas, mas terminou com o placar de 0 a 0 – talvez um indício do desempenho apresentado pelos dois times durante a Copa. Nos pênaltis, o Hipster Plate foi derrotado e conquistou o troféu.

A arbitragem cuidando dos preparativos finais antes do início de partida da Copa Lily Parr. Foto: Aline Ribeiro

A arbitragem cuidando dos preparativos finais antes do início de partida da Copa Lily Parr. Foto: Aline Ribeiro.

Após seis jogos apitados, por sorte, não tive de lidar com nenhuma grande polêmica nem fui questionado por algum erro que teve influência direta num resultado de partida. Pude perceber que o melhor sinal de que a arbitragem foi considerada bem-sucedida e justa é a quase que total indiferença à sua presença ao final das partidas.

A experiência de ser juiz, no geral, foi muito interessante. Apesar da competitividade e dos jogos disputados, vale ressaltar que o meu trabalho foi facilitado pela lealdade das jogadoras durante as partidas. Também foi possível identificar algumas características na minha arbitragem, uma delas a de que sou um juiz que gosta de deixar o jogo fluir, marcando poucas faltas e que para marcar um pênalti é preciso que este seja “muito pênalti” – fazendo jus ao nome “penalidade máxima”. Também percebi que responder aos questionamentos e explicar a minha interpretação dos lances, tinha muito mais a ver com a minha personalidade do que assumir a posição de juiz dono da verdade, que não aceita ser interpelado pelas jogadoras – postura que também destoaria com a atmosfera do próprio torneio. Ser chamado de “professor” durante as partidas por algumas jogadoras, inicialmente causou estranheza, mas depois percebi que fazia parte da minha inserção no universo e na linguagem “boleira”.

Ao final da minha participação, sentia o desgaste mental e físico, dada a tensão e a concentração investidas durante as partidas, mas também tinha o sentimento de missão cumprida (concluída, de fato, com a redação desse texto). Um sinal de que a minha arbitragem pode ter sido considerada boa foi o convite para ser juiz na próxima edição da Copa Lily Parr, a ser realizada no segundo semestre deste ano. Honrado, agradeci o convite, mas fiquei de pensar. Neste caso, não há a necessidade de dar uma resposta imediata e convicta. Afinal, ainda há muito tempo para avaliar se repito essa experiência dentro das quatro linhas.

[1] Recomendo a leitura da resenha feita por Marcos Alvito para o livro “O outro lado do futebol”, escrito pelo ex-árbitro Teodoro Castro Lino. Disponível em: https://www.ludopedio.com.br/arquibancada/ei-juiz/ . Acesso em 10/05/2017.
[2] Extraído da reportagem “Lily Parr, the pioneering star”, in: http://www.fifa.com/news/y=2015/m=4/news=lily-parr-the-pioneering-star-2593969.html . Acesso em 09/05/2017.
[3] O clima de descontração e irreverência também está presente nos nomes dados aos times, que fazem alusão a times populares. Além do Bayern de Favela, também fizeram parte da Copa o Hipster Plate, Shakira Donetsk, Racing Negra, Beyoncé Caldas, entre outros.
[4] “Por futebol bricolado são compreendidas as configurações nas quais se admite as mais diversas variações a partir da unidade futebolística. Como não há agências para controlá-lo, não há limites para a invenção e/ou adequação de códigos situacionais, destacando-se, sobretudo, as distorções em relação ao football association. Poder-se-ia denominá-lo de futebol de improviso ou informal, mas o termo bricolagem é mais apropriado, pois não supõe a idéia de déficit. Um jogo bricolado não é incompleto porque só há, por exemplo, três jogadores para cada equipe ou porque jogam descalços. Pelo contrário, é essa bricolagem que caracteriza as peladas: joga-se com o que se dispõe, adequando-se as regras e os recursos materiais”. (DAMO: 2005, p.37)

Referências
ALVITO, Marcos. Ei, Juiz… Ludopédio. Coluna Futebol é bom pra se pensar.

DAMO, Arlei Sander. Do dom à profissão: Uma etnografia do futebol de espetáculo a partir da formação de jogadores no Brasil e na França. Tese (Doutorado em Antropologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.

Lily Parr, the pioneering star

Copa Trifon Ivanov