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Um, dois, três…aprender outra vez – Istambul

Tiago Carrasco, João Henriques, João Fontes

Foi mantida a grafia original, de português de Portugal.

Há coisas que nunca mudam. Há dois anos, na nossa viagem rumo à África do Sul, saímos de Lisboa sem câmara de filmar e tivemos de esperar por ela em Tarifa, no sul de Espanha, antes de atravessarmos o Estreito de Gibraltar. Desta vez, quando pensávamos que tínhamos tudo em ordem para o embarque para Istambul, uma senhora do controlo de bagagens disse-nos que não podíamos passar com o monopé e com o suporte de ombro para a câmara. Parece que com aquilo podíamos cometer um atentado…O Fontes ainda correu para colocar o equipamento no tapete da bagagem fora de formato, mas não foi a tempo – o check-in já tinha fechado. Mais uma vez, arrancáramos em falsa partida. Não nos restava outra hipótese senão partir primeiro e ficar à espera dos malfadados ferros em Istambul.

Ainda não sabíamos que as semelhanças entre as duas viagens ficariam por aí. O primeiro choque foi a ausência do jipe. O aeroporto Kemal Ataturk e a praça Taksim distam uns 50 quilómetros e tivemos de percorrê-los de mala às costas em vários transportes: primeiro, de metro, depois, em dois autocarros diferentes, até que, por fim, desembocámos num táxi que nos levou a Osmanbey, um bairro moderno próximo da principal praça de Istambul. Pelo meio, assistimos incrédulos ao desfilar de uma cidade de tamanho incomensurável, casa de mais de 15 milhões de habitantes, onde prédios altos com letras luminosas contrastam com minaretes de outros tempos. À excepção da África do Sul, não encontrámos na nossa viagem anterior nada de similar.

Tiago Carrasco , Burçu Baydemir e João Fontes na estação de metro de Osmanbey. Foto: João Henriques.

Instalámo-nos no apartamento de Burçu Baydemir, uma amiga turca que já viveu em Portugal. Apesar do cansaço, acompanhámo-la numa saída nocturna, numa zona chique da cidade. Nas galerias de um centro comercial, três bares com clientela aprumada competiam pela supremacia do volume da música. O resultado era uma enorme diarreia sonora, e até um cão sentado à mesa com os donos parecia procurar desesperadamente tampões para os ouvidos. O ambiente contrariava tudo aquilo que um estrangeiro pensa encontrar num país islâmico: mulheres de cabelo corrido e mini-saia, beijos, carícias, danças sensuais e cerveja aos molhos. Claro que isto não está ao alcançe de muitos turcos (nem de nós): cada cerveja custa seis euros. O ordenado mínimo na Turquia ronda os 400 euros.

Restaurante Datli Maya. Foto: João Henriques.

Pela manhã, Burçu convidou-nos para tomar o pequeno-almoço no seu sítio favorito. “O pequeno-almoço de domingo na Turquia é um evento. Por vezes, ficamos umas duas horas a comer”. Aquilo que incialmente figurei como um exagero, rapidamente se tornou bastante compreensível quando entrámos no “Datli Maya”, um tradicional e acolhedor snack-bar turco. O primeiro piso era dominado por um enorme forno a lenha que aquecia várias rodelas de simit – o saboroso pão turco com sementes de sésamo. Para se chegar à minúscula sala de refeições, passámos pela cozinha, onde fomos presenteados com uma agradável mistura de aromas de diferentes queijos, pão, azeitonas e mel. Qualquer refeição, tal como qualquer actividade de um turco, não se inicia antes de um copo de chá preto, tirado directamente de uma pipa arabesca. Depois, cada um serve-se do que quiser: beyaz peynir (um maravilhoso queijo de cabra), gozleme, (crepes finos que vão bem com uma deliciosa pasta de tomate), lor (requeijão), mel, azeitonas, ovos estrelados e sumo de romã. No que ao estômago diz respeito, ficámos com a certeza de que o vamos tratar melhor do que em África. A cozinha turca é considerada uma das melhores do Mundo. Há quem defenda mesmo que só a francesa e a chinesa conseguem ser tão variadas.

Dilara Erbay , dona do restaurante Datli Maya. Foto: João Henriques.

A dona do restaurante, Dilara Erbay, era de origem grega. Os gregos e os turcos disputam a patente de muitos produtos gastronómicos – desde queijos até bebidas alcoólicas. A mais polémica é a da típica aguardente super-alcoólica com sabor a anis, que se chama raki na Turquia e ouzo na Grécia. “Como a Grécia viveu séculos sob ocupação do Império Otomano, tem vários elementos culturais influenciados pela Turquia. A comida é um deles”, diz Burçu. Em 1923, com a implementação da República da Turquia por Mustafa Kemal Ataturk, mais de um milhão de gregos ortodoxos foram recambiados da Turquia para a Grécia, acontecendo o contrário a meio milhão de turcos muçulmanos a residir na Grécia. Não foi, nem por sombras, a única alteração introduzida por Ataturk: ele secularizou o Estado, introduziu o alfabeto romano na Turquia, legislou a igualdade de género e incentivou o uso de vestuário ocidental.

Escadaria do restaurante Datli Maya. Foto: João Henriques.

Ao final da tarde, fomos ao estádio Besiktas Inonu, para vermos aquilo que, a par da comida, é a grande paixão dos turcos – o futebol. O desafio opunha o Besiktas dos portugueses Carlos Carvalhal, Manuel Fernandes e Hugo Almeida, ao Bursaspor. Como eu e o Fontes chegámos tarde, o Johnny, o Eduardo, um amigo português a estudar na Turquia, e uma amiga dele, Irem, uma turca baixa e divertida, já tinham comprado os bilhetes a um homem que os vendia à porta do estádio. Cada um custara 30 liras turcas (12 euros).

Dirigimo-nos para a porta de entrada, aturdidos com o som infernal da claque do Besiktas. Mas mais aturdidos ficámos quando os bilhetes não accionaram os torniquetes. Tínhamos comprado bilhetes falsos. Irem desesperava: “Sou fã do Besiktas e é a minha primeira vez no estádiio porque o meu pai nunca me tinha deixado vir. Isto não me pode estar a acontecer”.

A rapariga começou a correr de porta em porta, debitando a polícias e seguranças mil e um argumentos em turco para nos deixarem entrar. Ora porque éramos amigos pessoais do Carlos Carvalhal, ora porque éramos jornalistas, ou porque tínhamos sido barbaramente enganados e deviam ter pena de nós. Senti-me um personagem do filme “Offside”, do iraniano Jafar Panahi, em que uma rapariga, interdita de entrar num estádio de futebol reservado a homens, tenta de tudo para furar a segurança.

A um dado momento, olhei para trás e já tínhamos um pelotão de pessoas com entradas falsas atrás de nós, tentando aproveitar o caminho que tentávamos abrir. Um deles perguntou-me se podia juntar-se ao nosso grupo: sabia que tínha mais hipóteses com estrangeiros. Havia um jogo paralelo a decorrer nas imediações do estádio. Dezenas de rapazes forçavam a entrada, a polícia de intervenção agredia alguns adeptos, os seguranças reuniam-se em redor de fogueiras para enganar o frio. Em cima de um viaduto, mais de uma centena de pessoas espreitavam o jogo por cima das bancadas, vendo apenas uma pequena porção do campo. Aquela era a bancada dos vigarizados, de todos aqueles que tinham comprado bilhetes falsos. Depois de termos tentado entrar por todas as portas do Inonu, juntamo-nos a eles. Constatava outra diferença para África: lá, teríamos conseguido arranjar forma de entrar com os bilhetes da “candonga”, na Turquia revelara-se impossível. De dentro do estádio continuava a ecoar um som furioso, entoado pelos Çarsi, a claque organizada do Besiktas.

Adeptos do Besiktas vêm o jogo em cima dum viaduto por trás do estádio. Foto: João Henriques.

Os Çarsi são um grupo politizado, mais devoto a Che Guevara do que ao nacionalismo de Kemal Ataturk, conhecidos em toda a Turquia por protestarem contra tudo: “Çarsi contra tudo”, é o seu slogan. Manifestam-se tanto contra a subida do preço do gás como a favor do prémio Nobel da Literatura Orhan Pamuk, apoiando as suas posições sobre o genocídio arménio. Aliás, o chefe da claque é de ascendência arménia, algo impensável em qualquer outra claque. Uma das suas maiores lutas é contra o racismo. Aquando da morte de Michael Jackson, fizeram uma faixa enorme com a imagem do rei da pop e a mensagem: “Ele também era branco e preto”, em referência às cores do Besiktas e à cor de pele da população turca.

À mesa de um café, conhecemos ainda Ergan (nome fictício), um amigo de Burçu, empresário judeu num país de muçulmanos. Ergan pediu-nos para lhe chamarmos Jose, o seu nome espanhol, legado do tempo em que a sua família teve de fugir da Península Ibérica nos tempos da Inquisição. Aproveitando uma abertura burocrática na Turquia, Eytan conseguiu em 1992 obter o passaporte espanhol, que lhe facilitou a fixação em Amesterdão e Dubai nos últimos sete anos. Falávamos animadamente há já algum tempo sobre a comunidade judaíca em Istambul, quando lhe perguntei como eram as relações entre a Turquia e Israel. Ele respondeu-me que eram boas mas que, infelizmente, após o assassinato de nove activistas palestinianos que tentavam entrar em Israel num barco turco, em Maio de 2010, a Turquia retirou os seus embaixadores de Tel-Aviv e exigiu um pedido de desculpas por parte das autoridades israelitas. Instintivamente, pensei que estava a falar com um turco que defendia a causa do seu país. Esqueci-me que Ertan era turco, mas também era judeu. “Não entendo porque não pedem desculpa se mataram nove pessoas”, disse-lhe eu, inocentemente. Eytan mudou logo de voz e de postura. Ficou desconfortável. “Pois, eu não sou dessa opinião”, respondeu. “Se pedissem desculpa, iam ter mais barcos cheios de activistas palestinianos a tentar entrar em Israel”. No Médio Oriente, quando a discussão é política ou religiosa, qualquer palavra tem de ser pensada ao pormenor. O emaranhado de ódios e tensões é tão grande que qualquer intenção de disparar uma palavra apaziguadora pode, por lapso, transformar-se em fogo hostil para o interlocutor.

É uma nova viagem, uma realidade diferente. Tanto a comer, como a conversar, estamos a aprender outra vez. E essa é a essência de viajar.