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Um “Estrangeiro” na Seleção

Mateus Alexandre Silva, Guilherme Silva Pires de Freitas

Depois de assistirmos da janela algumas manifestações xenofóbicas na Copa do Mundo, onde a intolerância cobrava o preço (principalmente nos maus resultados) e o ódio era dissipado em todas as mídias possíveis. Esse discurso até foi endossado por parte da população brasileira, que em alguns momentos se via indignada pela França (que terminou campeã), a Bélgica ou a Inglaterra, terem em suas equipes jogadores que não são de famílias originárias desses países.

O Brasil, país miscigenado e pluricultural, produziu alguns discursos relacionados a quem é ou não deve ser de algum lugar – principalmente apontar vantagens esportivas – soa muito estranho. Independente de como nossos antepassados aqui chegaram (ou se já estavam aqui) não nos diferimos de Romelu Lukaku, Kylian Mbappé, Raheem Sterling ou Jimmy Durmaz, entre outros. Esses são filhos mais recentes de uma globalização que se apresentam ao mundo, talvez como prova de uma nova realidade.

Por aqui o nosso processo de miscigenação é mais antigo, data do início da exploração e/ou ocupação europeia. Mesmo sabendo dos preconceitos raciais que vivemos diariamente, somos todos brasileiros, nossa população é multiétnica. O nosso caso, especialmente, pode ter se iniciado por João Ramalho[1], que chegou ao Brasil em 1514, iniciando uma considerável estirpe de mamelucos já nos primórdios da chegada dos portugueses à nossa amada pátria. Depois esse processo foi se alastrando com a chegada dos africanos escravizados no século XVI, posteriormente com a vinda de imigrantes italianos, japoneses, alemães, poloneses, etc., enfim, cada um por seus motivos aqui vieram viver.

Na Copa de 2018, a Seleção Brasileira se apresentou com alguns nomes curiosos: Allison Becker, Filipe Luís Kasmirski, Pedro Tonon Geromel faziam parte da lista junto com alguns “de Souza”, “dos Santos” e “da Silva”, o que poderíamos chamar de BEM BRASILEIROS. Do mesmo modo, não tivemos nenhum Caiapó, Xacriabá, ou referência alguma aos povos indígenas. A presença ou ausência de alguns sobrenomes não descredencia uma verdade, eram todos brasileiros. Nasceram no Brasil, diferente do que era dito sobre os exemplos citados anteriormente, uns chamados de imigrantes ou filhos de imigrantes.

No dia 17 de agosto de 2018, vivemos algo diferente quando o técnico Tite disse o nome de Andreas Pereira, do Manchester United. A primeira questão que, provavelmente, surgiu na cabeça de muitos foi quem é esse jogador. Dúvida sanada com uma simples busca na internet. Andreas Hugo Hoelgebaum Pereira é um jogador brasileiro!

Andreas Pereira nasceu em Duffel, pequena cidade belga de pouco mais de 15 mil habitantes. Filho do ex-jogador brasileiro Marcos Pereira, que atuava pelo KV Mechelen quando Andreas nasceu. O jovem meio-campista iniciou sua trajetória no futebol nas categorias de base do PSV Eindhoven. Após se destacar com a camisa do clube holandês foi contratado pelo Manchester United aos 16 anos para integrar as categorias de base do clube inglês.

O atleta defendeu a seleção belga nas categorias sub-15 e sub-17. Porém, esteve sempre no radar da CBF devido a sua dupla nacionalidade. Mesmo tendo nascido e sido criado na Europa, ele sempre disse sentir-se brasileiro e que sonhava em representar o país quando profissional. Em entrevista ao repórter João Castelo-Branco da ESPN Brasil em 2014, revelou que “sem dúvidas optaria por jogar pela seleção brasileira” e que vestir a camisa do Brasil lhe trazia uma “sensação especial que não era a mesma que sentia com a Bélgica” [2].

Em 2014, recebeu sua primeira convocação para a equipe brasileira, no caso o time sub-20. Após destacar-se em amistosos, o jogador se firmou na equipe comandada pelo técnico Rogério Micale e integrou o time que seria vice-campeão mundial da categoria em 2015. No Mundial, Andreas disputou seis partidas anotando dois gols, um deles na final perdida para a Sérvia por 2 a 1.

Nesta mesma época, o jovem meio-campista recebeu as primeiras chances na equipe principal do Manchester United, mas não teve sequências e foi emprestado por duas temporadas consecutivas para clubes espanhóis. Em 2016-17, atuou pelo Granada e, em 2017-18, defendeu o Valência. Após retornar dos empréstimos, começou a ter mais chances de jogar sob o comando de José Mourinho. Depois de uma boa pré-temporada, Andreas foi titular do clube inglês nas primeiras partidas da Premier League, recebendo sua primeira convocação para a seleção brasileira principal.

Entre as muitas surpresas possíveis ao se obter essa informação, uma das mais prováveis era a não escolha dele pela seleção belga, nasceu lá, poderia fazer parte da “ótima geração belga”, enfim, por que não?! O que se provou é que o brasileiro – filho de pais brasileiros – optou por jogar pelo Brasil. Na verdade, ele optou pela possibilidade de jogar, já que tomou essa decisão em 2015 em carta para a FIFA, antes do mundial sub-20, sem ter sido convocado para a seleção adulta Andreas já havia jogado nas categorias de base da seleção belga.

A convocação de Andreas o coloca em uma seleta lista – que há 100 anos não havia acrescentado nenhum novo membro -, a lista dos jogadores não nascidos no Brasil e que jogaram pela seleção brasileira (Andreas entrará de fato quando jogar). Esse fato motivou discussões Brasil afora e, partindo de opiniões expressadas em fóruns da internet, muito se viu. Das várias manifestações, muitas felicitavam o garoto pela convocação, principalmente em sua página pessoal do Twitter[3], muitas mensagens escritas em inglês vindas de pessoas de várias partes do mundo.

Em fóruns de sites esportivos brasileiros, duas situações chamaram mais atenção: a primeira se referia a qualidade do jogador, que esteve a serviço do Granada (ESP), Valência (ESP) e agora está de volta ao Manchester United (ING), que é o dono do seu passe. Esses questionamentos também giravam em torno da possibilidade de “queimar” o direito de o jogador representar a seleção belga no futuro, e “garantir” para que no futuro não se repitam casos como o de Diego Costa, Jorginho, Deco, Pepe, que são (ou foram) jogadores brasileiros naturalizados e de grande destaque na Europa.

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Andreas Pereira abraça Fred e colocou em seu instagram “#FamíliaBR”. Foto: Instagram/Reprodução.

A segunda situação se referia à resistência ao país de nascimento. Não no mesmo tom do que vimos durante a Copa do Mundo, onde os países europeus em alguns casos demonstraram resistência aos jogadores de suas seleções que tinham ascendentes oriundos de outros países, muitos ligados às suas ex-colônias, vistos como descendentes de lugares inferiores e não como um nativo.

A mesma questão não foi divulgada, ou não se tornou um problema, quando a situação era inversa, como nos casos de Marrocos e Tunísia, que tinham alguns (ou a maioria) de seus jogadores nascidos principalmente na França. O Mundial da Rússia também mostrou como a África vem sentindo esses impactos da globalização no futebol. O Marrocos é o melhor exemplo, com 17 dos 23 convocados nascidos em outros países. Senegal e Tunísia, também representantes do continente, tinham nove naturalizados cada. Um número que deve continuar crescendo devido à grande quantidade de jogadores nascidos na Europa, mas que escolhem defender a pátria dos antepassados.

O protagonismo de minorias étnicas através do futebol é muitas vezes celebrado como um ótimo exemplo de integração. Porém, também geram sentimentos xenofóbicos e racistas, como quando a Federação Francesa de Futebol tentou impor cotas para atletas com origem estrangeira. Esse conflito inicia um conflito de identidades[4], em que o indivíduo não sabe se apoia uma seleção repleta de filhos de imigrantes, ou se a recusa alegando não se identificar e ser representado por ela. Nem sempre se sabe o motivo que levaram as famílias ou mesmo os jogadores para outros países, estudos sobre imigração apontam que essa situação tem se tornado um problema para os países que recebem imigrantes e, de forma radical, alguns especialistas afirmam que, no caso da Europa, por exemplo, está colhendo o que plantou no passado[5].

A Bélgica e o Brasil não possuem relações coloniais significativas, mesmo assim, Andreas recebeu resistência das mais variadas formas. Algumas vieram no vácuo das derrotas nas últimas Copas e atreladas ao sucesso recente dos jogadores belgas, onde se viu expressões como: “Convocando um belga, o Tite vai ter uma cola de como se joga futebol.”, “É um momento triste para o futebol brasileiro. Não por Andreas Pereira, que é um bom jogador que merece estar lá; mas porque chegamos ao ponto de um jogador nascido na BÉLGICA chegar a conclusão que é mais fácil ele jogar na seleção do Brasil do que no país onde ele nasceu e foi criado.”.

Algumas declarações tiveram um tom xenofóbico, algumas do tipo: “os que nasceram no Brasil não tem amor pela seleção! agora que não vamos ganhar nada mesmo.” ou “Sou contra. E a fila dos que nasceram no Brasil, quem nasce no Brasil é brasileiro.” e “Não convocar o Rodrygo do Santos para trazer um cara que ninguém conhece, que nem no país nasceu, acho uma falta de consideração.”.

O teor das críticas pode ter adquirido um tom mais sério, baseando-se em discursos de ódio divulgados por pessoas como o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, ou a candidata ao governo francês Marine Le Pen. Discursos com tom fascista que apontam sem nenhum medo o ódio pelo que não se enquadra em uma determinada filosofia. Esses discursos foram incorporados pela direita brasileira, numa onda ultranacionalista. Muito disso ficou explícito nas atitudes de moradores de Roraima quando expulsaram venezuelanos na manhã do dia 18 de agosto, usando pedras, bombas e cantando o Hino Nacional Brasileiro.

Na base do Manchester United, Andreas atuou ao lado de Adnan Januzaj. Também nascido na Bélgica, o meio-campista foi centro de uma arrastada novela sobre qual país escolheria defender. O motivo era suas múltiplas origens. Januzaj poderia defender até seis seleções diferentes. Além da Bélgica, onde nasceu, estava apto para jogar por Albânia, Kosovo, Sérvia e Turquia, por suas descendências, e pela Inglaterra, já que vivia no país desde os 16 anos e fez toda sua formação no futebol inglês[6]. No fim, optou por defender a Bélgica.

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Uma honra que não consigo medir, uma alegria que explode o coração, um sonho que se realiza hoje! Obrigado meu Deus! 💚💛 Brasileiro com orgulho e com amor!. Foto: Facebook/Reprodução.

Januzaj talvez seja o melhor exemplo de jogador global, um atleta com origem imigrante e multicultural. Casos como esses são cada vez mais comuns no atual futebol globalizado. A última edição da Copa do Mundo, realizada na Rússia, teve um número expressivo de jogadores naturalizados. Dos 736 atletas que disputaram a competição, 82 eram naturalizados[7].

A campeã França tinha apenas dois jogadores naturalizados. O zagueiro Samuel Umtiti e o meia Thomas Lemar. Além deles, outros 19 atletas tinham alguma descendência estrangeira. Muitos deles filhos e netos de imigrantes das antigas colônias do país na África e na América Central, representando a diversidade étnica da sociedade francesa e o multiculturalismo global do futebol de seleções. Fato que se repetiu em todas as outras equipes do continente.

Andreas faz parte de um grupo de jogadores que tem como destaque, além dele, Thiago Alcântara, Giovani e Jonathan dos Santos, entre outros, são filhos de jogadores brasileiros que nasceram em outros países. Com a globalização do futebol, muitos jogadores vão tentar seguir carreira fora do país, uns com mais destaque, como o pai de Thiago, Mazinho – que fez parte da seleção brasileira tetracampeã. Outros com menos fama, como o pai de Andreas, que saiu da Internacional de Limeira para o futebol belga e não alcançou reconhecimento mundial.

O primeiro caso geralmente é mais marcante, mas um dia saberemos o quanto isso pode evoluir. Enzo Alves Vieira, nascido em Madri, filho do brasileiro Marcelo, fez sucesso recentemente em um vídeo na internet onde aparece jogando bola. Assistido por mais de 2 milhões de usuários, os comentários giraram em torno da qualidade do menino, do que ele promete para o futebol brasileiro, que a condição social dele desfavorece o futuro como jogador, que está no Real Madrid pelo pai jogar lá, nada se dirigindo ao fato de ter nascido nas Espanha. Só tempo esclarecerá algumas dúvidas!


[1] FINAZZI-AGRÒ, Ettore. O princípio em ausência: o lugar pré-liminar do índio na cultura brasileira. Scripta, Belo Horizonte, v. 5, n. 8, p. 21-31, 2001.

[2] Andreas Pereira e Marcos Lopes Man United X Man City. ESPN Brasil. Canal do Youtube de João Castelo-Branco, 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Jalyx-nR3Xc>.

[3] https://twitter.com/andrinhopereira

[4] Segundo Stuart Hall, o jogo de identidades acontece quando existe um conflito ou cruzamento de identidade, em que não existe uma identidade única. HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: Lamparina, 2014.

[5] Xenofobia e migração: os africanos são europeus só para o futebol. Disponível em: <https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Sociedade-e-Cultura/Xenofobia-e-migracao-os-africanos-sao-europeus-so-para-o-futebol/52/40992>.

[6] Um rito de passagem, Revista Corner, edição 1, 2015.

[7] A nova cara da Copa, UOL Esporte, 2018. Disponível em: <https://www.uol/copadomundo/especiais/copa-do-mundo-multicultural.htm>.