126.9

Um novo cenário para os treinadores brasileiros

Fábio Bloise Mundstock

O sucesso obtido pelo português Jorge Jesus no Flamengo, em um curto espaço de tempo, vem provocando debates acalorados e declarações públicas de relevantes treinadores brasileiros, seja sobre o papel do treinador estrangeiro no Brasil, seja sobre o espaço que o estrangeiro vem ocupando em território brasileiro.

Abel Braga, Argel, Jair Ventura, Levir Culpi, Luxemburgo, Mano Menezes, Renato Portaluppi, Zé Mário, dentre outros nomes, fazem parte do rol de treinadores que, de algum modo, fizeram críticas ao trabalho dos treinadores estrangeiros.

Levir Culpi limitou-se a criticar o argentino Jorge Sampaoli pelas suas tatuagens, mas não abordou questões conceituais de jogo do treinador do Santos.

O presidente da Federação Brasileira de Treinadores de Futebol, Zé Mário, criticou o excesso de elogios dedicados ao treinador estrangeiro, resumindo o atual sucesso pela qualidade de elenco.

Jair Ventura sustentou que os profissionais estrangeiros estão tirando o espaço de treinadores brasileiros mais novos.

Para Renato Portaluppi, se fosse dirigente, jamais contrataria um treinador estrangeiro. Na época da declaração, Sampaoli e Jesus não tinham conquistado títulos, portanto, não poderiam servir como parâmetro de sucesso. Em relação ao estudo contínuo e a qualificação dos nossos treinadores, Renato afirmou: “Quem precisa aprender vai a Europa estudar e quem não precisa vai à praia”.

A postura mais ponderada a respeito dos estrangeiros em terras brasileiras foi de Muricy Ramalho, o qual prefere olhar para a qualidade do treinador e não para o seu local de nascimento.

O português Jorge Jesus, após o bombardeio de críticas, resolveu se defender: “Além de Felipão, teve Autuori, Abel Braga, Dunga, Carlos Alberto, René Simões, Paulo Autuori. E nós treinadores portugueses, quando eles tiveram lá, tentávamos aprender e tirar alguma coisa positiva e nunca foi esta agressividade verbal que os treinadores brasileiros têm sobre mim. Não entendo essas mentes fechadas. Espero que olhem para mim como colega de profissão”.

O treinador do Flamengo Jorge Jesus. Foto: Alexandre Vidal/Flamengo.

Quanto ao ponto, cumpre, primeiramente, restabelecer uma verdade. Muitos treinadores disseram, nos últimos meses, que os estrangeiros estavam tirando o seu espaço de trabalho no Brasil. No entanto, analisando o mercado brasileiro e os grandes clubes da elite, não é possível constatar como correta tal afirmação. Fazendo um ponto de corte dos últimos 5 anos, não houve uma evolução significativa a ponto de gerar tamanho alarde. Em 2019, apenas dois treinadores estão no comando de grandes equipes, mesmo número de 2014.

Ano

2019

2018

2017

2016

2015

2014

Treinadores Estrangeiros

2

1

2

3

2

2

Fonte: Mundstock Marketing Esportivo

Além disso, a média de tempo de trabalho dos treinadores estrangeiros nos clubes de elite é baixa, seja pela metodologia de trabalho quanto pelo idioma, pela adaptação, pela forma como são contratados.

As razões acima dão ao treinador estrangeiro 5,69 meses de trabalho bruto em média. Se levarmos em consideração apenas o campeonato brasileiro, sem os campeonatos estaduais, em virtude de ser a competição mais importante do País, o tempo médio de permanência cai para 3,61 meses.

Ano

Treinador

País

Clube destino

Nºdias

­M.Meses

NºSemanas

2019

Jorge Jesus

Portugal

Flamengo

190 *

6,24

27,14

2019

Jorge Sampaoli

Argentina

Santos

356 *

11,70

50,86

2018

Diego Aguirre

Uruguai

São Paulo

245

8,05

34,99

2017

Reinaldo Rueda

Colômbia

Flamengo

147

4,83

20,99

2017

Dejan Petkovic

Sérvia

Vitória

74

2,43

10,57

2016

Diego Aguirre

Uruguai

Atlético Mineiro

168

5,52

24,01

2016

Paulo Bento

Portugal

Cruzeiro

75

2,46

10,71

2016

Edgardo Bauza

Argentina

São Paulo

228

7,49

32,58

2015

Juan C. Osório

Colômbia

São Paulo

133

4,37

19,00

2015

Diego Aguirre

Uruguai

Internacional

227

7,46

32,43

2014

Ricardo Gareca

Argentina

Palmeiras

103

3,38

14,71

2014

Miguel  Portugal

Espanha

Athético Paranaense

131

4,31

18,72

Fonte: Mundstock Marketing Esportivo

(*) O número de dias computados para Jorge Jesus e Jorge Sampaoli está calculado até o dia 08/12/2019, última rodada do campeonato brasileiro de 2019.

Sendo assim, é preciso entender qual o real motivo que levou mais de 10 treinadores importantes a se manifestarem contra a “avalanche de estrangeiros” no nosso futebol. Trata-se de uma reserva de mercado ou representa uma suposição de que estão perdendo espaço?

O treinador do Santos Jorge Sampaoli. Foto: Ivan Storti/Santos FC.

A falta da Licença como argumento. Uma reclamação constante é que nós brasileiros não estamos presentes nas grandes Ligas, razão pela qual os treinadores europeus não poderiam treinar aqui.

De fato, nossos treinadores aparecem apenas nas Ligas intermediárias da Europa, mas a pergunta é: será que a Licença é o único fator que impede nossos treinadores de desbravarem o Velho Continente? Se tiverem a Licença, o mercado europeu irá contratar treinadores brasileiros em um curto espaço de tempo?

Nós tivemos treinadores que tentaram o sucesso na Europa, alguns nas grandes Ligas, mas faz tempo. Se analisarmos, como ponto de corte, os últimos 10 anos, apenas dois treinadores brasileiros comandaram equipes das 5 maiores Ligas europeias. Neste período, cerca de 500 treinadores comandaram equipes da elite da Alemanha, Inglaterra, Itália, Espanha e França, sendo que apenas Leonardo na Internazionale (Itália – 2010/2011) e Sylvinho no Lyon (França – 2019) conseguiram chegar ao posto.

Os números são bem diferentes quando falamos em treinadores argentinos na Europa (mais de 15 no mesmo período) e treinadores portugueses (se a desculpa for o idioma).

De fato, na Europa há uma rigidez quanto ao assunto. Nem Zidane foi poupado desta rigidez. Quando treinava o Real Madrid B, o atleta foi punido pela UEFA e suspenso por 3 meses por não ter a Licença adequada. Os treinadores argentinos ganham espaço, pois a Europa de um modo geral reconhece os cursos ministrados pela Associação Argentina – ATFA. No Brasil, os cursos ainda não possuem a equivalência a Licença UEFA, embora a CBF venha trabalhando neste sentido junto a Conmebol para que interceda por nós.

Tardamos para iniciar o processo de qualificação criando a CBF Academy somente em 2016. A graduação para a concessão das Licenças é uniforme para a América do Sul, sendo a Licença C uma habilitação para escolas de futebol, Licença B para categorias de base, Licença A para equipes profissionais e a Licença PRO, cursadas apenas por convite, para treinadores que venham a comandar equipes profissionais em competições internacionais.

Mas, após esta formatação, houve um desconforto por parte da classe dos treinadores, e o pensamento geral foi: “Eu, treinador experiente, vou voltar a estudar? Claro que não, eu tenho é que dar aula”.

E já no ano seguinte, 2017, a CBF criou a Licença Honorária, concedendo a mais de 30 treinadores o título de Treinador Honorário, sem a necessidade de frequentar as aulas, trocar experiências, fazer reciclagem. Antônio Lopes, Jair Pereira, Luxemburgo, Émerson Leão, Jair Picerni, Oswaldo Oliveira, Falcão, Parreira, Zagalo, Evaristo, Joel Santana, Levir Culpi, Abel Braga, Givanildo Oliveira, Felipão, Marcelo Oliveira, Carpegiani, entre outros, foram contemplados. Começamos errado.

Fora a questão das Licenças da CBF, há uma série de divergências a respeito de quem tem o direito de concessão desta titulação. Uma vertente defendia que apenas o educador físico poderia ser treinador de futebol, enquanto a outra destacava que apenas os Sindicatos teriam este direito. Enquanto essa celeuma prossegue, surgem os cursos ministrados pela CBF Academy, os cursos ministrados pela ABTF – Associação Brasileira de Futebol -, e os próprios cursos ministrados pelos Sindicatos dos Treinadores Profissionais. Logo surgirão outros.

E aí, o que vale? A CBF tomou para si o comando da qualificação dos profissionais do futebol, afinal é ela quem coordena as competições, portanto, dita as regras. E é importante frisar que as Licenças ministradas pela CBF Academy são muito boas, com relevante conteúdo e carga horária.

No entanto, há uma questão jurídica. Efetivamente, o único curso que chancela o treinador de futebol profissional no Brasil é o do Sindicato dos Treinadores Profissionais. Felipão abriu suas portas na Europa com a carteira do Sindicato dos Treinadores de Futebol Profissional do Rio Grande do Sul, assim como inúmeros treinadores que utilizaram a legislação para abrir espaço, principalmente no Oriente Médio.

Portanto, antes de colocarmos a culpa na falta de Licença deveríamos consolidar as nossas Licenças e delimitar o espaço de cada órgão com suas atribuições.

Flamengo recebe a taça de campeão brasileiro de 2019 no Maracanã e joga o treinador Jesus para o alto. Lucas Figueiredo/CBF.

O desconhecimento de outro idioma como argumento – É inegável que a inaptidão por outro idioma é um entrave, mas ele não parece ser fundamental. Além das comissões técnicas serem multidisciplinares, permitindo que o treinador conte com um tradutor até que aprenda a dominar o idioma local, o acesso à informação e ao estudo facilitam muito o trabalho. Os treinadores argentinos contornam essa dificuldade inicial acessando primeiramente a Liga da Espanha, de um modo geral, pela facilidade do idioma. Inclusive, evoluem no aprendizado do inglês. Os portugueses, com um nível superior de educação, possuem o inglês como um aliado desde sua base escolar.

A evolução tática como argumento – Nós brasileiros estamos atrasados no desenvolvimento tático de nossas equipes? Por muitos anos nosso futebol esteve voltado para a individualidade do atleta em razão do coletivo. Um jogador ganhava a partida com uma arrancada fenomenal e um drible desconcertante, mas o futebol evoluiu e com ele, a importância do jogo coletivo. Fora de campo, os demais Stakeholders também se desenvolveram. Há uma gama de estudos em torno da fisiologia, da preparação física, da análise de desempenho, da psicologia e da neurociência. Nós evoluímos?

O salário como contraponto – Em virtude das manifestações de que nossos treinadores não têm espaço nos grandes centros, podemos questionar se eles realmente querem abrir mercado na Europa. Os treinadores se dizem interessados em desbravar o mercado europeu, mas além das mudanças culturais, da língua, do modelo de jogo, da gestão de grupo, das Licenças, há um efetivo interesse em abrir mão de muito dinheiro para recomeçar?

Comparando novamente o treinador brasileiro com o treinador argentino, podemos ver que os hermanos não têm problema algum um descer um patamar clubístico para subir na carreira e em Ligas mais importantes. Marcelo Bielsa iniciou sua trajetória na Europa pelo modesto Espanyol em 1998, Pochettino seguiu o mesmo caminho em 2009, Diego Simeone trocou um grande clube da Argentina pelo Catânia da Itália em 2011, e Jorge Sampaoli trocou a seleção chilena pelo Sevilla em 2016.

Não é de hoje que o futebol brasileiro está pagando muito bem para os treinadores da elite. A maioria dos nossos renomados treinadores não receberia, nos grandes centros da Europa, 1/3 do que recebem aqui. Em 2020, no Brasil, pelo menos dois treinadores de elite deverão receber aproximadamente 320 mil euros/mês e mais dois deverão receber na faixa de 250 mil euros/mês.

E aí, você vê algum grande treinador brasileiro comandando o Espanhol, Leganés, Toulouse, Metz, Paderborn 07, Augsburg, Lecce, Bologna, Norwich ou Southampton? É um ponto a se pensar antes de falarmos em falta de oportunidade no mercado europeu.

O objetivo deste texto é gerar o debate e levantar questionamentos a cerca do tema para que possamos tirar proveito das novas escolas entrantes no futebol brasileiro, aprender com essa mudança e evoluir o nosso futebol. As mudanças ocorrem rapidamente, e urge estarmos qualificados para que o nosso futebol permaneça entre os melhores do mundo.

É simplório afirmar que apenas um tópico, de forma isolada, é o responsável pela ausência dos nossos treinadores nas Ligas mais importantes da Europa. Assim como é descabido afirmar que os estrangeiros estão tirando nosso espaço dentro do Brasil.

Necessitamos de humildade para aproveitar este momento e aprender, sem deixar o que temos de bom de lado. O processo de abertura para treinadores estrangeiros é irreversível, ainda mais agora, com sucesso. A vinda de Jorge Jesus acabou com o mito de poupar jogadores e em pouco mais de 5 meses levantou os canecos do campeonato brasileiro e da Libertadores da América. Esse fato, sem dúvidas, irá impactar o cenário dos treinadores de futebol.

Quanto a abertura de espaço no futebol europeu, nós devemos sim exigir da CBF, que interceda junto com a Conmebol, para a equivalência das Licenças, mas, cumpre destacar, parte dos nossos treinadores o mais importante, o esforço e a vontade de fazer acontecer.

O idioma é uma barreira, mas quem se esforça consegue. Em um dado momento, Luxemburgo chegou a dizer que Guardiola era mais marqueteiro do que treinador. Pois bem, enquanto não mudarmos esta mentalidade e seguirmos com uma visão míope, o futebol brasileiro seguirá patinando. Guardiola, o treinador mais renomado do futebol mundial, que venceu em todas as Ligas que competiu, é acusado de ser o fenômeno que é, tão somente pelo fato de ter grandes estrelas no seu elenco. Então a pergunta que faço é: será que foram essas estrelas que fizeram com que Guardiola aprendesse alemão em um ano e enfrentasse quase 200 repórteres com perguntas e respostas no idioma local ao chegar em Munique para comandar o grande Bayern? Precisamos efetivamente sair da zona de conforto.

Quanto às Licenças, elas são importantes, mas elas fazem mais sentido para a atualização do nosso futebol e para a qualificação profissional dos que permeiam este universo. Faz-se necessário ampliar o público alvo do ensino, pois os preços ainda são a maior barreira de entrada dos profissionais brasileiros. Infelizmente, hoje, as Licenças estão acessíveis aos treinadores de elite, pois um treinador de um clube do interior de um Estado não pode se qualificar. Se ele recebe em média R$ 2 mil/mês, sem a certeza de que terá trabalho no mês seguinte, como poderá pagar por uma Licença A da CBF que custa aproximadamente R$ 12 mil? E se, num passe de mágica, todos os treinadores brasileiros tivessem habilitados com a Licença UEFA, a mente dos dirigentes europeus mudaria imediatamente a nosso favor?

Pia Sundhage à frente da seleção brasileira. Foto: Paulo Pinto/ALLSPORTS.

Ou mudamos, ou ficaremos para trás. O futebol feminino já mudou, e a sueca Pia Sundhage comanda o futebol nacional. Logo teremos a discussão de um treinador estrangeiro na seleção masculina. Destarte, só vamos ter razão nos argumentos de que um treinador brasileiro deve estar no comando, se ele realmente for mais capaz do que os demais e não pelo fato de ter nascido no Brasil.