105.25

Um novo clássico do futebol da firma

Sérgio Seabra

Ainda restam clássicos, mas escasseiam, tantas vezes que se enfrentam os times tradicionais em uma miríade de torneios. A expectativa de um jogo inesquecível é atendida poucas vezes, enquanto esperamos o próximo Brasil x Argentina. Aqueles que não esperam acontecer, lançam mão do futebol da firma, esfregando as mãos à espera do confronto com o pessoal de Compras, defendendo as cores do Financeiro. São clássicos invisíveis, subalternos, estes disputados na grama sintética. Mas existem. A crônica abaixo é uma vívida prova disso.

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O CONTEXTO – De um lado, a gerência que reúne os profissionais responsáveis por apoiar e fomentar as atividades físico-esportivas em cerca de 40 centros de cultura e lazer da instituição em todo o estado de São Paulo. Do outro, profissionais dedicados aos textos institucionais, à guarda da memória, às pesquisas históricas, ao planejamento, reconhecidos pelo silêncio entre as mesas e jocosamente compreendidos como cabeções, e não boleiros. Os primeiros vinham jogando com interrompida frequência; os outros não se conheciam em campo, uma das quais sequer conhecera um. Mas confiavam na presença de dois habitués das quadras – um deles colecionador de camisas de times do mundo inteiro – e, sobretudo, na participação do inusitado ex-jogador de futebol que integra a gerência – também artista visual. Uma semana antes do jogo marcado, este teve reagendada, para o dia da partida, no mesmo horário, a abertura de uma exposição individual, fora de seu controle. O caráter épico da peleja começou aí. E não parou.

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A VOLTA DO POSSESSO

Em memória de Nelson Rodrigues, mas claramente à sombra de suas crônicas imortais.

Amigos, o futebol esfrega a fantasia na cara da realidade e faz o mundo girar ao contrário. Pior para os fatos: quando uma bola encontra pés dispostos a tocá-la, a irrealidade irrompe e o sentido busca o banco, resignado. Até o momento de maravilhar-se e ressurgir, ressignificado e nunca ressentido.

Disputa restrita ao campo

A disputa aguerrida – sob a orientação gerencial de se tomar cuidado com baixas por lesão – ficou restrita ao campo. Foto: Cris Fongaro.

Vermelhos e Brancos inauguraram um clássico eterno no Anhaia Mello, destes que não existem mais, paradoxo primário e definitivo do futebol contemporâneo. Nenhuma falta, nenhuma contusão: vitória máxima. A graça espalhou-se: entre os funcionários do estádio, alheios à rivalidade sólida e inexistente, nunca se viu tal empatia com o time vencedor de um empate de 16 gols em 3 tempos. Nunca se verá. Viu quem lá esteve. E fim. Tudo começa agora.

Vitória no empate. Exato. Vamos raciocinar. Brancos escalados, vê-se uma coleção de vitoriosos, premiadas figuras de álbum em tempos de Copa. Todos de porte físico atlético, ex-atletas, atletas, educadores físicos: todos com a experiência assentada no corpo. Todos com chuteiras, para dizer o mínimo. Havia também habilidade no domínio de bola, o preparo físico, um esquema tático depurado em uma sequência de jogos, o quase ininterrupto fair play – quase, porque eram humanos, afinal de contas. Tudo somado, três gols nos primeiros oito minutos de jogo. A zero.

Se o futebol fosse um esporte de planilha, a torcida, já aí, se calaria. E aguardaria pelo pior. Mas a realidade se curva ao profetizado em prévia narrativa. Não estavam sós, em campo, os Brancos.

Havia os Vermelhos, também humanos mas de Humanas, em tudo diferentes. Lá estavam o mais velho em campo e a novata, em campo pela primeira vez; a iogue mal recuperada de lesão na coluna e o mestre teórico em futebol, ambos míopes e sem óculos, além do quase cego que desejavam mudo e a convidada contestada, de sangue azul e não vermelho. Ao escrete de historiadores, cientistas sociais, filósofos e humanistas, agregou-se um goleiro: a base, o alicerce. O primeiro tempo terminaria apenas em 3 a 0.

Narcisos às avessas, quadrúpedes de 28 patas, os Vermelhos sintetizaram a trajetória da alma brasileira entre o fiasco de 1950 e a glória de 1958 em 40 minutos. Da vitória líquida e certa dos Brancos, esperada e suposta pelos próprios e pelo mundo, sobressaiu-se o escândalo.

A crônica pré-jogo registrou: a vitória branca viria. Com “menos um em campo” ou com seus jogadores tendo “as duas pernas amarradas”: a vitória se veria. Não se viu, mesmo com as pernas soltas, e o time completo por bem-vindos estrangeiros.

Não havia entre os Vermelhos um Pelé, um Garrincha, mas havia a ausência: um artista da bola e do pensamento, ex-jogador profissional do – e não da – Juventus, foi impedido de ser escalado. Destino, tragédia. E glória, pois havia um colecionador possesso – um Amarildo redivivo no corpo recém esculpido por 51 anos – e um Tostão, estilista da cabeça aos sapatos, além do deslocado triatleta, que correu, nadou e pedalou nos oito cantos do campo, porque fez tudo em dobro.

É preciso fazer contas: contar: três a um, três a dois, quatro a dois – e aqui, registre-se, um descansado camisa 10 Branco que fez chover mas não o suficiente, à beira do campo, fez notar que a terra voltava a girar de oeste a leste. Pareceu ter, naquele momento, um rei na barriga ou dentro dela a bola do jogo. Quatro a três. Quatro a quatro, feito com a chuteira recém-comprada, mal adaptada ainda ao pé ligeiro do dínamo. História. Já havia ali, história. Mas não toda, ainda.

Cinco a quatro, para os Brancos. Cinco a Cinco e, então, de Jô, para Bira, que conduz ao meio campo, para Daniel, na lateral, que passa para Felipe, de novo para Daniel deslocado ao centro, para João Paulo, na esquerda, que vai à linha de fundo e cruza, para uma centroavante inata, inesperada e certeira, Helena! – a antítese moral de seu homônimo masculino. Cinco a seis, Vermelhos à frente. Dois minutos mais e fim do segundo tempo, o tempo em que terminam as partidas.

Mas não esta.

EurekaDosSports

Simulação de uma publicação inexistente fez circular a crônica do jogo no dia seguinte à partida: o épico pede o texto. Ou o contrário.

O terceiro tempo segue sem novos gols por oito minutos. Vermelhos à frente, com trocas constantes de todo o plantel, seis homens, três mulheres, parte deles sedentários. Brancos seguem inteiros, dispostos, sete homens e uma mulher – lesionada mas guerreira, o motor do time. Nos dez minutos finais, nova virada: seis a seis, sete a seis, oito a seis. Novamente três a zero em oito minutos, com a força do mundo, da realidade, da lógica e do que parece fazer sentido e, assim, também justiça.

Mas o futebol é pródigo em construir alegrias inéditas, pelos gols de ambos os lados, pelo passe certeiro de chuveiro, do pé ao peito, pelo improvável, o inverossímil. Mas também pela emoção que vem daquilo que efetivamente se espera.

Dois minutos para o fim do jogo. De primeira, num sem pulo só possível e frequente no imaginário, o improvisado Tostão Vermelho, na cova entre leões da intermediária, acerta um tiro baixo, que quica no metal da trave, já dentro do gol e sobe ao travessão, por dentro: oito a sete.

Resta menos de um minuto. O Possesso, agora vestindo mais de mil camisas, sai de seu próprio campo, tabela, triangula, recebe de novo a bola e finaliza, no único espaço possível permitido pela física newtoniana: o gol, no antepenúltimo segundo de jogo. Oito a oito, para os Vermelhos.

Como citar

SEABRA, Sérgio. Um novo clássico do futebol da firma. Ludopédio, São Paulo, v. 105, n. 25, 2018.