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Um pedido de Bom Senso

Equipe Ludopédio

Nesta última segunda-feira, 17, o movimento Bom Senso FC se reuniu em São Paulo, na Universidade Nove de Julho (UNINOVE), para apresentar à imprensa duas propostas consideradas centrais para a melhoria do futebol profissional no Brasil: o Fair Play financeiro e um novo calendário.

Atuando no futebol chinês, o zagueiro Paulo André enviou um vídeo de aproximadamente cinco minutos que foi exibido no início da apresentação, tornando-se, portanto, a principal ausência dentre os atletas considerados líderes do movimento – ou ao menos aqueles que possuem maior visibilidade.

A Equipe Ludopédio esteve lá e traz agora um breve relato das propostas e discussões que organizamos a partir de alguns temas.

1. Recado de Paulo André

Paulo André narra sucintamente os primeiros passos do Bom Senso FC e define o movimento como uma entidade sombra da CBF, esta que, segundo o zagueiro, deveria estar trabalhando em prol do futebol. Para o jogador “na CBF falta projeto, falta compromisso, falta paixão e visão”. Por fim ele arremata: “nós jogadores poderíamos, como é a vontade de muitos, só jogar futebol. E nós decidimos fazer algo mais do que isso”.

Comentário: Em linhas gerais, a fala de Paulo André reforça a ideia do Bom Senso como um movimento mais amplo, negando as críticas de teor classista (defesa dos atletas) e elitista (defesa dos interesses dos atletas das primeiras divisões) – tema que foi retomado por outros atletas, como Dida, Alex e Rogério Ceni. As alegações do ostracismo submetido ao zagueiro possuem eco na fala do atleta do Shandong Luneng, ao menos em dois pontos: 1) No ataque direto à legitimidade da CBF e 2) Na contestação do papel do jogador de futebol.

2. Fair Play Financeiro

O primeiro painel de apresentação foi conduzido por Pedro Daniel, consultor de conteúdo do Bom Senso FC. Pedro foi responsável pela apresentação dos balanços que apontam a irresponsabilidade financeira e acúmulo da dívida dos clubes brasileiros nos últimos anos. A proposta do Bom Senso é a criação de uma agência reguladora responsável por: representar o interesse dos clubes e autorregular suas atividades; mediar a relação entre os clubes e os campeonatos no que diz respeito à circulação de informações; monitorar o cumprimento do pagamento de salários, dentre outros itens.

Pedro Daniel, Consultor de Conteúdo do Bom Senso FC – Foto: Sérgio Settani Giglio.

O fair play financeiro tem como propostas normativas: limite de 70% da receita do clube com o custo do futebol; no período de cinco anos estabelece-se limite do déficit anual de no máximo 10% do total das receitas do clube; garantia de cumprimento de contratos de trabalho; proibição de novos contratos de clubes com dívidas pendentes; dívidas não quitadas até o fim do ano acarretarão a proibição da disputa do campeonato do ano seguinte; dentre outros termos. Após a apresentação de Pedro Daniel, juntaram-se à mesa para as perguntas do auditório os goleiros Dida (Internacional-RS), Fernando Prass (Palmeiras) e Roberto (Ponte Preta), o consultor jurídico João Chiminazzo e o consultor de conteúdo, professor Fernando Fleury.

Comentário: O evento embora marcado pela presença de diversos atletas de destaque midiático revelou uma clara delegação de funções aos consultores do movimento e um certo desconhecimento de certos assuntos por parte dos jogadores. A apresentação do Fair Play Financeiro escancarou este quadro, apesar dos atletas, quando questionados, terem sido uníssonos quanto à validade da proposta – como era esperado. Ao serem questionados sobre a realidade de seus próprios clubes as respostas eram geralmente evasivas e havia uma perceptível preocupação em não emitir avaliações específicas a qualquer clube. 

Pedro Daniel aparece como elementos chave nos bastidores do movimento. O consultor que já teve passagens na Reuters e Agência Estado, atualmente é Consultor de Gestão Esportiva na BDO RCS que faz parte da quinta maior rede de contabilidade do mundo, presente em 144 países e atua há mais de dez anos no Brasil, nas áreas de consultoria, auditoria, gestão, controladoria, dentre outras atividades.

O pano de fundo do movimento que é estampado com os rostos de ídolos do futebol nacional está amparado com uma ideia de gestão de futebol que certamente não tem nenhum elemento revolucionário – ao contrário do que diz o slogan do movimento. Embora apresente uma solidez conceitual, o movimento assume uma postura reformista que, no limite, apenas indica uma tentativa de deslocamento de alguns atores políticos marcados negativamente sem que haja uma reavaliação mais profunda do papel que a CBF pode cumprir no desporto nacional.

Atletas e consultores do Bom Senso FC respondem à perguntas. Foto: Equipe Ludopédio.

Pegando carona nas críticas à CBF e sobretudo na discussão fiscal apresentada, o único representante do poder público presente no evento, o deputado Otávio Leite (PSDB-RJ), aproveitou a oportunidade para mais uma vez se apropriar da bandeira erguida pelo movimento. “Eu procurei e não nenhuma lei brasileira que dê a prerrogativa para que a CBF represente o futebol brasileiro”, afirmou o deputado. Redator do projeto proforte, Otávio Leite teceu palavras de apoio e se alinhou às propostas do Fair Play Financeiro – embora seu projeto de lei se diferencie bastante da proposta do Bom Senso. Segundo a proposta inicial do proforte, os clubes receberiam a anistia da dívida em troca do comprometimento do investimento nas modalidades olímpicas. De acordo com o deputado tucano, a nova proposta prevê um refinanciamento das dívidas para um período de 20 anos e apoio da arrecadação proveniente da loteria esportiva. À contramão da proposta de responsabilização dos clubes apresentada pelo Bom Senso, o projeto do legislativo mantém a política de boa vizinhança entre poder público e cartolas.

3. Novo Calendário

A segunda parte da apresentação do Bom Senso FC diagnosticou a vida esportiva dos 684 clubes de futebol profissional no país. Veja a seguir um pequeno resumo dos dados levantados e propostas:


Dados do Infográfico: Bom Senso FC – Imagem: Equipe Ludopédio.

Comentário: Se na primeira parte da apresentação a mesa se esquivou mais às questões e os atletas dividiram mais os microfones – inclusive com o parlamentar presente -, a segunda parte da apresentação do Bom Senso FC contou com as objetivas palavras do meia Alex e as longas e entusiasmadas respostas do goleiro Rogério Ceni. Mais uma vez o discurso em prol do futebol é lançado, desta vez evocando o papel que a imprensa tem neste processo – tema que foi abordado principalmente nas falas de Ceni.

Quando questionado pelo repórter da SporTV sobre qual seria o próximo passo no caso de fracasso em estabelecer tais mudanças, Ceni respondeu ironicamente ao jornalista das organizações Globo: “Conto com você e sua emissora que tem alcance fora de série”. Em diversos outros momentos o goleiro sãopaulino reiterou o papel que a imprensa tem.

Em conformidade com a ideia de gestão do esporte de seus consultores, a visão de Ceni a respeito da recuperação da força do futebol do interior até lembra os dogmas de Juvenal Juvêncio. “Até para o próprio país. Quanto o país pode ganhar com a arrecadação da exportação, venda de atletas. Clubes menores podem sobreviver através disso. Só estamos pensando numa minoria”.

Para além da perspectiva de gestão predatória do futebol que Ceni escancara – que contradiz as políticas recentes dos clubes em impedir o êxodo de seus craques -, há uma contradição presente na fala de Ceni ou mesmo de Alex. “Não estamos aqui para fazer política, só queremos melhorar o futebol”, pontua o lacônico meia Alex.

Juan, Alex e Rogério Ceni pedem Bom Senso – Foto: Sérgio Settani Giglio.

Embora insista em negar “fazer política”, Ceni até inclui em sua fala no evento do Bom Senso FC – que é um ato político por excelência, seja por contestar instituições poderosas como a CBF ou a Rede Globo, ou mesmo por discutir políticas do Esporte, cobrar o Ministério do Esporte e sugerir a criação de uma agência reguladora – seu posicionamento político-partidário. “Tem atleta olímpico fazendo vaquinha. Até nego condenado pra cadeia consegue arrecadar mais que o Esporte”. E ainda ironiza: “Nós não estamos pedindo bolsa família, bolsa atleta, estamos pedindo emprego, organização (…)”.

As críticas indissociáveis ao governo federal e a legenda 13 exemplificadas pelas menções ao processo do mensalão e às políticas públicas inclusivas do Estado não são objeto da crítica, ainda que seja um tópico relevante para a discussão. O que chamou mais a atenção é a relutância e certo desconforto ao serem questionados por posicionamentos políticos.

O asco à política evidenciado pelos membros contradiz toda a prática do Bom Senso FC, absolutamente política. Numa linha tênue entre a dissimulação e o próprio desconhecimento do que de fato os atletas estão praticando é possível afirmar ao menos que as grandes mudanças que o amante do futebol sonha acontecer ainda estão distantes. Mas é inegável que um pedido por Bom Senso, para quem sabe amanhã, possa nos permitir querer e fazer um futebol diferente.