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Um Zulu contra o capitalismo: os fanzines

Marcos Alvito

“Não recomendável para aqueles que se sentem facilmente ofendidos ou que sofrem dos nervos”, este é o subtítulo ostentado por um fanzine dos torcedores do Birmingham ou, como eles gostam de se intitular, bluenoses (narizes azuis). A relação de amor e ódio mantida com o clube é bem resumida na capa, onde se lê: “Birmingham City Football Club: destruindo esperanças e sonhos desde 1875”. The Zulu, comprado nas mãos de um animado vendedor nas imediações do estádio, custa a metade do valor de um programa oficial feito pelo clube e é muito, muito diferente.

Logo nas primeiras páginas, o time visitante daquela tarde, o West Ham United, é agraciado com matérias sobre a sua história e seu melhor jogador (Bobby Moore, lateral que jogou foi campeão do mundo em 1966 e jogou contra o Brasil na Copa de 1970). Mas não para por aí, há também uma página com piadas acerca do pessoal de East London, os cockneys: “se eles torcem para times como West Ham e Millwall isso é prova que não são muito inteligentes”: “Depois de ver um aviso na loja de departamentos: ‘Cachorros tem que ser carregados na escada rolante, Jim ficou três horas procurando achar um cachorro.’

A publicação é recheada com piadas bem mais pesadas do que essa, sobre mulheres, chineses, membros da família real, Osama Bin Laden, árabes em geral e até maridos. Os valores da publicação, ilustrados por um camisa nove urinando em cima da camisa nove do West Ham (antes pertencente a Tevez):

“Como um apaixonado e leal torcedor dos Blues, eu tenho direito a:

  1. Tomar uma cerveja ou duas antes do jogo e chegar no estádio quando eu quiser.
  2. Torcer da forma mais radical, gozando e gesticulando para os adversários, intimidando o máximo possível.
  3. Usar a língua inglesa do jeito que eu quiser.
  4. Recusar-me a aceitar as instruções idiotas dos funcionários do estádio
  5. Reagir à vitória, ou à derrota, da porra do jeito que eu quiser e sair do estádio da forma que corresponda ao resultado.

Somente respeitando estes princípios nós podemos preservar a atmosfera orgulhosa, apaixonada e fanática que ajudou a criar o ‘décimo segundo jogador’ em jogos do passado. Nós somos famosos por verbalizar nossa torcida e  nossa paixão, por mais que isto ofenda aqueles que desejam uma Premiership pacífica, quieta e silenciosa como uma biblioteca.”

E ainda acrescentam em letras colossais: NÃO DEIXEM OS PUNHETEIROS QUE ROUBARAM O NOSSO JOGO ROUBAREM TAMBÉM A NOSSA PAIXÃO.

O ataque mais violento feito por The Zulu é aos acionistas-majoritários e diretores do clube, chamados de “Os comediantes”, por conta de suas falsas promessas de não aumentarem os preços e de contratarem bons jogadores. Acusa-os de estarem prestes a embolsar milhões de libras com a iminente venda do clube para Carson Yeung, um milionário empresário chinês que começou  como cabeleireiro e fez fortuna com cassinos. Na capa há uma foto dele com os dizeres: “Bem-vindo ao Brum (Birmingham City) meu velho China”. 

The Zulu é apenas um dos muitos fanzines, publicações improvisadas pelos torcedores e que começaram a ser escritas na segunda metade da década de 1980, inspiradas em fanzines musicais que existiam desde meados da década de 1970, ligados sobretudo à punk culture. Eram em parte  uma reação à histeria da imprensa e das autoridades em relação ao hooliganismo, que tendia a ver em todo torcedor de futebol um criminoso em potencial.

Eles foram extremamente importantes para agrupar os torcedores em defesa dos seus interesses e a partir dessa época começaram a ser criadas associações de defesa dos torcedores. Serviram para lutar contra aumento de ingressos ou contra a venda do estádio do clube e também como plataforma para enfrentar problemas mais gerais, como o plano governamental (à época de Margaret Thatcher) de implementar um cartão obrigatório para identificar o torcedor que quisesse frequentar o estádio.

Entre 1988 e 1990, o número de fanzines saltou de 20 para mais de 200, graças à facilidade de edição proporcionada pelos computadores. Com o desenvolvimento da Internet, os fóruns de torcedores hoje são sobretudo os sites e listas de discussão, mas alguns fanzines persistem.

Somente no jogo entre Birmingham e West Ham*, pude comprar dois deles: o já mencionado The Zulu e o Made in Brum. Made in Brum não perde em irreverência para o seu concorrente: logo na capa temos uma foto montagem de Carlos Tevez com a camisa do West Ham correndo para comemorar, com uma expressão da mais feroz alegria, aquela bela dentadura à mostra, carregando várias notas na mão direita e um saco de dinheiro na mão esquerda. O título anuncia: “Jogador quase-novo à venda: teve apenas um clube e dois donos pilantras”.

Era uma referência à escandalosa e muito pouco ética transferência de Carlos Tevez do West Ham para o Manchester United em agosto de 2007, graças a Kia Joorabchian, cujo caráter já é bem conhecido dos torcedores do Corinthians. Também há piadas, tão politicamente incorretas quanto as publicadas em The Zulu ou até piores: “Mongo é um pequeno órfão de Zâmbia que caminha 10 quilômetros todo dia para ir à escola. Com a sua doação de apenas dois centavos por semana nós podemos comprar um chicote e botar esse preguiçoso filho-da-puta pra correr.”

Muito mais engraçada é a satírica previsão acerca da temporada 2007-2008. Aqui o Chelsea, hoje nas mãos do controvertido milionário russo Roman Abromovich, é chamado de Chelski, e o Manchester City, recém comprado por um ex-primeiro ministro da Tailândia (Thaksin Shinawatra) é chamado de Manky Citeh (Manquii Citii). A previsão de performance para os rivais do Aston Villa, chamados de ralé, não é publicada “para não ofender os menores de 18 anos, as pessoas que sofrem dos nervos, o cãozinho da minha tia e os maiores de 18 anos”.

OK, não é tão engraçado assim, mas os fanzines, ainda hoje em dia, muito mais do que divertirem, proporcionam um espaço para manifestações contra a hiper-comercialização do jogo de futebol transformado em valiosa mercadoria da indústria do entretenimento. Os desesperados narizes azuis torcem para um  time que jamais ganhou uma competição nacional mas que continuam fiéis ao clube há mais de 130 anos.

Apesar de perceberem que a riqueza financiada pela televisão está de tal maneira concentrada nos quatro grandes (Arsenal, Chelsea, Liverpool e Manchester United) que o sonho do título está cada vez mais distante. Fiéis, mas por quanto tempo ? Um deles confessa em Made in Brum:

“Eu sempre vou amar o Birmingham City Football Club e esse amor nunca vai morrer, eu sei disso. Mas o que acontece em certos períodos da história do nosso clube faz você pensar se realmente vale a pena o tempo e o esforço e a montanha de dinheiro que você gasta pra ver eles chutarem suas bolas mais uma vez. (…) Eu prevejo que o Manchester United ou o Chelsea serão campeões, mas não seria maravilhoso se outros times como o Bolton, o Wigan ou até a gente pudessem virar a tabela de cabeça pra baixo e botar esses clubes grandes na merda ? O futebol neste país não se resume aos quatro grandes da Premiership, há outros 88 clubes na liga e centenas de outros clubes menores que são tão importantes quanto eles.”

Naquela tarde chuvosa e fria de verão inglês, mais de vinte mil bluenoses viram o seu time perder para o West Ham graças a um duvidoso pênalti marcado a favor do ex-time do argentino Carlos Tevez. Mas mesmo assim eles não pararam de incentivar o time, ao mesmo tempo em que faziam uma involuntária previsão acerca do seu destino no mundo do futebol globalizado: “Blues, Blues”.

 

Birmingham City 0x1 West Ham

3a. rodada da Premier League 2007-8

18 de agosto de 2007 no estádio de Saint Andrews

Público: 24.961

Como citar

ALVITO, Marcos. Um Zulu contra o capitalismo: os fanzines. Ludopédio, São Paulo, v. 40, n. 8, 2012.