102.17

Uma análise do filme Minas do futebol

Nara Romero Montenegro

Este texto foi originalmente escrito para o debate realizado no Cineclube FEF realizado na Casa do Lago na Unicamp.

Embora o tema do documentário – Minas do Futebol – que a gente vai discutir, o futebol feminino e sua base, não seja meu tema de pesquisa, já trabalhei e joguei num clube de base da cidade de Campinas, o Bonfim, e vivi também em alguma medida uma história parecida a dessas meninas. Fiz um estágio voluntário como treinadora da modalidade sub 13 no Bonfim e acompanhei como auxiliar o sub15, os dois na modalidade de futsal.

Bom, para iniciar o debate eu gostaria de deixar claro que eu considero que o documentário do Yugo Hattori tem muitas qualidades. Ele pode nos levar aqui para discussões em várias direções, mas eu acho que alguns assuntos importantes também são pouco trabalhados. Obvio que o documentário é uma produção mais curta e escolhas precisam ser feitas, assim como aqui na minha fala muitas coisas podem ficar de fora.

Quero fazer também um elogio ao documentário, que embora pareça algo evidente, a maioria das produções audiovisuais sobre futebol feminino ainda insistem em fazer. É extremamente comum assistir reportagens que exaltam a capacidade das meninas que jogam futebol de serem ao mesmo tempo craques e vaidosas dentro de campo. Felizmente o documentário não faz qualquer menção a isso. Vejo isso como uma opressão velada, pois para as mulheres não basta ser craques, elas tem que ser femininas. (Isso pode parecer banal, mas acontece muito com bastante frequência. Sobre isso, uma feminista norte americana contemporânea, Naomi Wolf, acredita que principal barreira para a mulher atual está ligada a essa ideia do mito da beleza). Bom, esse é um ponto aparentemente banal, mas que eu vejo como virtude do filme.

As falas do documentário não anunciam que tipos de xingamentos eram direcionados as meninas, mas por experiência própria eu suspeito que sejam coisas como: mulher-macho, sapatão, lugar de menina é na cozinha, vai lavar cuecas, etc. Sempre coisas que deslocam a menina daquele lugar. Às vezes até os elogios como “joga mais que menino” podem ser traiçoeiros. Nos dois casos elas são acusadas de uma inautenticidade, como se “ser mulher e feminina” fosse a verdadeira autenticidade. Uma das garotas no documentário fala do público que se espanta, ela diz: “Quando eles vem você jogar ficam de boca aberta”, ao mesmo tempo que aí se pode estar manifestando uma admiração, pode ser também uma forma de exotização daquela menina. Mas todos sabemos que a “mulher verdadeira e feminina” é antes de tudo um produto artificial, por isso a máxima de Beauvoir: “não se nasce mulher, torna-se”.

A narrativa do documentário tem um sentido claro. Primeiro em 2016 as meninas do sub13 não tinham campeonato e jogavam um campeonato masculino. Depois ganham seu espaço quando é realizado o primeiro campeonato de categoria de base, um sub17. Ou seja, parte de um lugar que não era o seu nem o ideal, para um lugar que agora lhe é próprio. Na minha leitura, esse é o trajeto que o filme faz e algumas outras temáticas vão atravessando isso, por exemplo: como as meninas começaram a jogar, se elas tiveram o apoio dos pais, o lugar do professor da educação física, etc. No entanto, ao meu ver, ele silencia em alguns aspectos que entendo serem importantes.

Vejo esse documentário como uma bela mensagem de esperança. Embora fale de uma realidade dura, ele se mostra otimista com o futuro do futebol menino. E nesse sentido que a narrativa nos toca e nos emociona, mas é nesse ponto também que devemos ficar atentos. O documentário pode nos levar a uma generalização que acredito ser perigosa. O centro olímpico, equipe central na narrativa, certamente é uma instituição que leva o futebol feminino muito a sério, mas não representa nem de longe a realidade do futebol feminino atual no estado de São Paulo, menos ainda no contexto brasileiro.

Eu vou fazer uma breve apresentação do Centro Olímpico, esse projeto que na minha opinião o documentário silencia. As meninas do centro olímpico são as protagonistas do filme, mas: O que é esse projeto? O que é o centro olímpico? Por que as vezes os treinadoras e atletas aparecem com a camisa da secretaria de esporte da cidade de São Paulo e as vezes com a camisa do São Paulo Futebol Clube, uma instituição privada?

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Cena do filme Minas do Futebol. Foto: Divulgação.

Bom, o Centro Olímpico é um local físico público, ou seja, ele é um equipamento da secretaria municipal de esporte de São Paulo vinculada a uma associação privada sem fins lucrativos, que é a associação desportiva centro olímpico. (Isso acontece porque em algumas competições esportivas não é possível entrar como entidade pública, é preciso ser uma entidade privada). O Centro Olímpico tem equipes sub-11, sub-13, sub-15, sub-17. O que acontece normalmente é que empresas e clubes privados podem entrar em acordo com a associação e patrocinar uma modalidade ou uma categoria. O que aconteceu no documentário foi exatamente isso. O São Paulo Futebol Clube queria um representante no campeonato paulista sub17 e, ao invés de montar uma equipe de base com toda a estrutura que já tem, prefere fazer um breve acordo com a equipe do sub-15 centro olímpico.

Algumas equipes do Estado de São Paulo tem equipes de base, mas não é uma realidade de todas. A atual campeã brasileira da categoria adulta, por exemplo, a equipe do Santos, não tem equipe de base, está apenas na promessa de montar a primeira equipe em 2018. O que aconteceu no documentário é uma prática que tem sido comum no futebol feminino: equipes grandes em momentos oportunos fazem acordos breves com categorias de base de outras equipes (mais frágeis) ou projetos públicos para ter seu time inscrito no campeonato e consequentemente visibilidade. Poucos se preocupam com a possibilidade em montar uma base sua da mesma forma que fazem com o futebol masculino. E como diz o subtítulo do documentário “Porque futebol começa na base”.

Na minha opinião o documentário naturaliza uma questão que me parece essencial. Como pode uma equipe sub-15 ganhar um campeonato em que todas as outras equipes eram sub-17?   A diferença física, técnica, tática é gritante entre meninas de 13 e14 anos para meninas de 16 e 17 anos. Isso não é problematizado de forma alguma no filme. O fato da categoria sub-15 do centro olímpico ter ganhado mostra como o próprio centro olímpico é uma instituição que leva a modalidade mais a sério que as demais e como as outras equipes e o futebol feminino de uma forma geral ainda é absurdamente fragilizado.

Esse certamente é ponto que achei mais problemático do documentário. Ele mostra meninas que sonham, que são campeã, que parecem estar numa iniciação profissional, mas naturaliza e generaliza esse lugar do Centro Olímpico. Não apresenta nem brevemente a realidade da modalidade, nem a realidade do clube que elas estão inseridas. O próprio diretor Yugo Hattori, em entrevista, confessa que se sentiu mal por fazer esse filme sendo um homem. O ponto que critico da produção pode dever-se à inocência do diretor de não conhecer tão bem a modalidade, e não de uma intencionalidade em omitir a realidade. Além disso, como já disse anteriormente, o documentário tem um propósito, um roteiro, uma limitação e algumas ausências podem ser justificadas. Mas ainda sim acho a critica que faço válida.

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Ilustração do filme Minas do Futebol. Foto: Divulgação.

Do ponto de vista positivo, o que destaco do documentário é a interpretação do esporte como um campo de disputa, lugar de afirmação das meninas, um espaço mesmo de política. Já na abertura, tem-se uma citação de uma das mais importantes pesquisadoras do tema no Brasil, a Silvana Goellner, que diz: “a inserção feminina do futebol pode ser vista como uma atitude transgressora porque as mulheres fizeram valer suas aspirações, desejo e necessidades, enfrentando um universo caracterizado como próprio do homem.”.

Nas falas dos treinadores isso também aparece. Douglas Matsumoto diz:“ O futebol vai ser só o reflexo do que ela pode encontrar na vida, mas a mesma coisa que ela faz aqui, ela pode fazer na vida dela, sabe? Dificuldade vai ter, mas eu vou bater de frente. Falaram que é impossível a gente ganhar dos meninos e a gente ganhou. Então é impossível elas chegarem em uma posição alta em algum lugar na vida? Pode ser difícil, mas elas vão conseguir bater de frente, por que elas já fazem isso todo dia no treino. ”

Uma leitura do filme, menos otimista, mas também positiva é a de que se nada der certo, se não houver um grande futuro para essas meninas no futebol, alguma outra coisa muito forte foi conquistada, a autonomia dessas meninas, a superação de uma passividade, o que me lembra uma citação de Simone de Beauvoir no Segundo Sexo (p.528): “(…) Esse corpo que é musculo, movimento, distensão, impulso, elas não o apreendem como uma carne passiva; ele não atrai magicamente as carícias: é domínio sobre o mundo, não uma coisa do mundo. ”

Referências:

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Tradução de Sergio Milliet. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2009.

WOLF, Naomi. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.