21.2

Uma equipa de ouro – Diosso, Burkina Faso

João Fontes, João Henriques, Tiago Carrasco

Ninguém nasce em Diosso. Para Diosso vêm os que querem enriquecer e os que morrem a tentar. A aldeia situa-se numa colina a 75 quilómetros de Bobo-Dioulasso, no sudoeste do Burkina Faso, e é uma versão moderna das cidades da época da febre do ouro na Califórnia. Ninguém cultiva, não há caça nem pecuária. Em Diosso, todos vivem de e para o mesmo – o ouro. Por cada dia que passa, chegam cerca de 20 pessoas novas à colina, munidas de uma picareta e de ilusões de riqueza. São os renegados do Burkina Faso; órfãos, vagabundos, traficantes, ladrões, ex-mercenários e antigos guerrilheiros fundaram aqui uma aldeia de palha, que foi crescendo e atraindo para o seu núcleo as mais diversas actividades profissionais. Hoje também vivem em Diousso barbeiros, comerciantes, feiticeiros e prostitutas. Em comum têm o facto de viverem, também eles, do dinheiro obtido com a venda de ouro.

Foto: Tiago Carrasco

Yamwego Sibiri, 17 anos, pedia na rua em Yalogo, no norte do Burkina. Há dois anos, ouviu de um amigo que havia ouro em Diosso e pediu a benção dos pais para ir procurar o metal precioso. Apesar de franzino, Yamwego desce só com a ajuda de uma corda a buracos artesanais com 40 a 50 metros de profundidade. Há quem desça aos 80, em covas claustrofóbicas, cujo fundo está oculto na escuridão e onde o ar é praticamente irrespirável. Com a picareta, parte a pedra dura que tem ouro misturado na sua composição e coloca-a numa saca de 50kg. Por dia, Yamwego sobe e desce o buraco de quatro a cinco vezes, carregando 200 a 250 kg de pedra. “No ano passado, ganhei 2 milhões de CFA (3000 euros). Comprei roupa e dei o resto aos meus pais. Mas sofro muito aqui. Por vezes, fico cinco dias sem comer”, diz o rapaz. Como todos os outros habitantes de Diosso, Yamwego só quer juntar o dinheiro suficiente para partir e prosperar na sua aldeia: “Quero construir a minha casa e abrir uma loja pequena”. Por isso, trabalha-se dia e noite dentro dos buracos, a toda a hora ouve-se a implosão das rochas, o bater da picareta. Menos ao domingo. Mesmo em Diosso, domingo é dia de futebol.

Foto: Tiago Carrasco

Foto: Tiago Carrasco

“Há duas selecções nacionais: a dos ricos, que joga em Ouagadougou e é treinada por Paulo Duarte, e a dos pobres, que é a dos mineiros de Diosso”, diz Michel Zabri, 32 anos, designado pelo chefe para ser nosso guia. Quando Michel saiu de Kaya, a sua cidade, disse à mulher e aos filhos somente que ia procurar dinheiro. Foi há seis meses e nunca mais falou com a família, ninguém sabe que está em Diosso. Como de ouro ainda nem pó encontrou, subsiste estoicamente à custa das aulas de francês que dá a uma criança da aldeia.

Foto: Tiago Carrasco

A selecção nacional dos pobres joga num campo coberto de palha, paus finos e terra. As balizas são dois ramos de árvore desalinhados, sem redes. O campo inclina-se ligeiramente para a ala esquerda. Aqui costumam disputar-se jogos épicos – sem equipamentos, caneleiras e pequenas áreas. Em jogos grandes, até se improvisa um árbitro, as linhas de cabeceira e marcas de penalti. Mas só quando os jogadores estão contentes, em “maré de ouro”. A selecção de Diosso, com renegados de todas as partes do país, costuma jogar contra as aldeias vizinhas, também de exploração ourífera. “A colina tem cada vez mais aldeias. Os filhos dos mineiros crescem e formam uma aldeia, e os filhos dos filhos fundam outra, e por aí fora”, diz Michel. Quando não há equipas contra quem jogar, faz-se um desafio interno: Mossi contra Bissa, duas das principais etnias do país.

Foto: Tiago Carrasco

Foto: Tiago Carrasco

Assisto a uma dessas “peladinhas” étnicas. Dez mineiros com roupas esfarrapadas disputam uma bola vazia e amarelada, sob o olhar atento de duas dezenas de espectadores, entre eles duas crianças vestidas com uma camisola igual, larga e suja, com as cores dos Estados Unidos e a cara de Barack Obama. Os Mossi, uma tribo guerreira e conquistadora, são mais pressionantes e atacam mais, mas os Bissa marcam em contra-ataque. 1-0, resultado final. “Agora é hora de voltar ao trabalho”, diz Jonas Buisi, 22 anos, o marcador do tento solitário, vestido com uma camisola do Chelsea com as letras sumidas pelo uso.

Foto: Tiago Carrasco

Jonas nunca andou na escola, não sabe ler nem escrever. Antes de vir sozinho para Diosso, jogava com ponta-de-lança na equipa da sua aldeia, Zabre, no campeonato provincial da capital Ouagadougou. Como a mãe estava doente, Jonas disse-lhe que ia arranjar dinheiro nas minas de ouro para a ajudar. “Mas fez-me prometer que eu não entraria dentro dos buracos”, diz. Por isso, tornou-se triturador. Com 25 mil CFA (37 euros) comprou a possibilidade de trabalhar com a máquina que transforma a rocha em areia fina. Se, posteriormente, a lavagem da areia desmascarar a presença de pepitas ou fragmentos de ouro, Jonas será recompensado pelo trabalho. Há dias em que faz 15 mil CFA (23 euros), outros 7500 (11 euros), mas muitos dias fica a zero. Vive com um amigo numa mínima barraca de palha, onde só tem um poster do Chelsea e uma picareta.

Foto: Tiago Carrasco

Jonas é um felizardo pois há muitos rapazes que trituram a rocha compacta à martelada. A sua função é uma entre as muitas ligadas ao esquema do ouro em Diosso; os detonadores e os cavadores abrem os buracos, os mineiros descem e tiram a pedra, os trituradores desfazem, os aguadeiros vendem a água que retiram dum poço às mulheres e as mulheres lavam a areia e filtram o ouro que depois é vendido a agentes na própria aldeia ou levado para a cidade onde o preço é superior. Mesmo perdidos numa inóspita colina do Burkina, todos os mineiros estão a par do “fixing” do ouro em Londres (12 a 13 mil CFA/gr, 18 a 19,5 euros). Os mineiros costumam vender rapidamente o ouro que encontram pois têm famílias numerosas para sustentar, Por cada aldeia, há um comprador intermediário que parte para a capital, onde consegue excelentes lucros na venda do minério a magnatas árabes e chineses, que o compram para especular ou simplesmente para acumular riqueza.

A gestão de todos os conflitos em Diosso, que são muitos, é levada a cabo pelo chefe, Sawedego Dinaba, 43 anos. Sawedego, um homem gordo e bem-disposto, que vive numa das únicas casas feita de tijolos de areia da aldeia, chegou em 2004, quando a seca lhe estragou as colheitas das quais dependia. Foi ele que recebeu Jonas e Yamwego, bem como todos os outros mineiros na sua chegada a Diosso. “Quando aqui chegam, a primeira coisa que me pedem é de comer. Depois, pedem-me autorização para construir uma barraca de palha e, finalmente, pedem-me material para trabalhar – uma picareta, um martelo, ou uma máquina de trituração”, diz. Sawedago é dos homens mais velhos que continua a descer aos buracos. O trabalho é extremamente cansativo e perigoso. Só no ano passado, calcula que tenham morrido 34 pessoas soterradas ou sufocadas nas minas. “Às vezes, só sabemos que alguém morreu porque ficam umas calças ou uns chinelos ao lado do buraco ou uma bicicleta a apodrecer junto a uma casa. Aqui ninguém deixa nada para trás. Se deixar, é porque ficou dentro do buraco”.

Futebol no Burkina Faso

O campeonato burkinabé tem estatuto amador e é disputado por 14 equipas, nove das quais oriundas de Ouagadougou e de Bobo-Dioulasso, as duas maiores cidades do país. O Étoile Filante Ouagadougou, com 12 títulos, é o clube com melhor palmarés, seguido do ASFA Yennega, com dez, também da capital e actual campeão.

A selecção nacional, conhecida como “Les Etalons” e com dois cavalos como símbolo, teve a sua melhor prestação na Taça das Nações Africanas (CAN) de 1998, onde conseguiu o quarto lugar a jogar em casa. O português Paulo Duarte é o seleccionador nacional, contando no seu leque de escolhas com três jogadores que alinham na União de Leiria, um no Arouca e outro no Olhanense. O melhor marcador da selecção e futebolista mais popular é Momouni Dagano, do Al-Khor, do Qatar.

Mossi e Bissa

Os Mossi são o grupo étnico mais numeroso no Burkina Faso com 6,2 milhões de pessoas, cerca de 45% da população. Tradicionalmente são um povo guerreiro, mestres nas técnicas de cavalaria, e antes da anexação colonialista eram donos de um vasto império. Acreditam ser descendentes de uma princesa Dagomba e de um caçador mandinga, que deram à luz Ouedraogo, o primeiro Mossi. Antes da colonização francesa, os Mossi acreditavam que “a terra morreria quando aparecesse a primeira cara branca”. O imperador Mossi tem o título de Mogho Naaba e vive em Ouagadougou. Apesar da transformação do regime politico tradicional, o Mogho Naaba goza ainda de imensos privilégios sociais e políticos, sendo um dos principais conselheiros do presidente Blaise Campaoré.

Os Bissa são tradicionalmente cultivadores de amendoís e foram durante muito tempo escravizados pelos Mossi. Um homem Bissa que queira cortejar a sua futura esposa tem de ir trabalhar para a plantação de amendoins da sogra. Os Bissa habitam predominantemente a zona sul e central do Burkina.

*Tiago Carrasco, João Henriques e João Fontes foram de Portugal à Àfrica do Sul no projeto Road to World Cup. Foi mantida a grafia original, de português de Portugal.

Como citar

FONTES, João; HENRIQUES, João; CARRASCO, Tiago. Uma equipa de ouro – Diosso, Burkina Faso.