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Uma proposta motivadora para a divisão das cotas da tevê

Odir Cunha

Pelo contrato vigente até 2015 entre a Rede Globo e os clubes brasileiros, a emissora paga cerca de 986 milhões de reais por ano aos clubes da Série A, incluindo-se aí o Vasco, que mesmo na Série B recebe 70 milhões de reais por ano. A distribuição da verba funciona assim:

1) Flamengo e Corinthians: R$ 110 milhões
2) São Paulo: R$ 80 milhões
3) Vasco e Palmeiras: R$ 70 milhões
4) Santos: R$ 60 milhões
5) Cruzeiro, Atlético-MG, Grêmio, Internacional, Fluminense e Botafogo: R$ 45 milhões
6) Atlético-PR, Bahia, Coritiba, Goiás, Sport e Vitória: R$ 27 milhões
7) Chapecoense, Criciúma e Figueirense: entre R$ 15 milhões e R$ 20 milhões para cada.

Veja que os últimos recebem apenas 13,6% dos primeiros. E que mesmo o quarto só fica com aproximadamente a metade dos mais favorecidos. É óbvio que essa fórmula tira completamente a competitividade da competição e incentiva o comodismo, pois não premia os clubes mais eficientes, já que não há prêmios para os mais bem colocados. Enfim, a meritocracia é solenemente ignorada.

A divisão que eu proponho leva em conta o mérito da equipe de fazer parte da Série A, já que também fará parte do espetáculo e disputará o mesmo número de jogos dos outros participantes; a sua colocação na tabela e também a média de audiência que tiver na transmissão de seus jogos.

Torcida do Flamengo. Foto: Mário Farache – Mowa Press.

Proponho que metade da verba total destinada à Série A seja dividida igualmente entre todos os clubes, 25% do valor total seja distribuído segundo a colocação do time no campeonato e os últimos 25% de acordo com a audiência de cada equipe.

Então, para começar, neste ano de 2014 teríamos a metade de 986 milhões, ou 493 milhões, divididos entre os 20 participantes, o que daria R$ 24,650 milhões para cada um. Esta seria a verba inicial, básica. A ela seriam acrescentadas as verbas pela colocação no campeonato e também pelo índice de audiência.

Teríamos, então, 25% do total, ou 246,5 milhões, para serem divididos tanto pela colocação do time no campeonato, como pela sua posição na audiência*. Para esses dois casos, eu sugiro que as porcentagens sejam as seguintes:

1 – 20%
2 – 10%
3 – 8%
4 – 7%
5 – 6%
6 – 6%
7 – 6%
8 – 5%
9 – 5%
10 – 5%
11 – 4%
12 – 4%
13 – 3%
14 – 3%
15 – 2%
16 – 2%
17 – 1%
18 – 1%
19 – 1%
20 – 1%

*É claro que os critérios para se medir a audiência teriam de ser bem estudados. Cada clube teria de ter um mínimo de jogos na tevê aberta e por assinatura. Os índices do pay per view também entrariam na conta. Isso seria fiscalizado por uma comissão com integrantes da TV e dos clubes.

Assim, o campeão receberia 20% de 246,5 milhões, ou seja: 49,3 milhões. Somando-se à sua verba pela participação no campeonato, que é de 24,650 milhões, este clube já alcançaria 73,950 milhões.

E ainda haveria a cota pela posição no ranking de audiência. Se o campeão também desse o maior índice, receberia mais 49,3 milhões de reais, resultando em um total de 129,250 milhões de reais.

Perceba que este total – 129,250 milhões de reais – é até maior do que hoje se paga aos dois privilegiados, só que adotando a meritocracia, pois o clube teria de vencer o campeonato e ainda ser o líder em audiência para adquiri-la. Estaria, assim, sendo estimulada a competência. Não haveria uma reserva de mercado, como ocorre hoje.

Ficar entre os primeiros seria uma condição imprescindível para angariar um bom faturamento no final. Na maior parte das vezes, porém, o time campeão não será também o de maior audiência, o que servirá para dividir a verba de maneira ainda mais democrática.

Uma equipe que se coloque em uma posição intermediária, entre o oitavo e o décimo lugares, tanto no índice técnico, como no de audiência, receberia duas vezes 5% de 246,5 milhões, ou seja, 24,64 milhões. Somando-se à sua verba de participação, sairia com um total de 49,29 milhões de reais, 4,29 milhões a mais do que hoje faturam Cruzeiro, Atlético-MG, Grêmio, Internacional, Fluminense e Botafogo.

Torcida do Cruzeiro. Foto: Washington Alves – VIPCOMM.

E mesmo um time que se colocasse em sétimo lugar tanto no índice técnico, como na audiência, ainda ganharia uma boa bolada, pois ficaria com duas parcelas de 6% de 246,5 milhões de reais, ou 29,580 milhões, que somados à sua verba de participação (24,650 milhões) daria R$ 54,230 milhões, bem perto do que o Santos recebe atualmente.

Na outra ponta da tabela, digamos que uma das equipes fique na zona de rebaixamento e ainda seja uma das últimas em índices de audiência. Receberá 1% de 246,5 milhões pelos dois critérios, ou duas parcelas de 2,465 milhões, somando então mais 4,930 milhões de reais ao seu ganho inicial, o que resultaria em um total de 29,580 milhões de reais, o que é mais do que o que recebem hoje nove equipes que disputam a Série A do Brasileiro.

Note que incluir o mérito esportivo na divisão de cotas não tirará nada significativo dos clubes mais populares, desde que tenham competência para se manter ao menos na parte superior da tabela. Esse desafio pela competência cada vez maior será um agente motivador que poderá mudar o futebol brasileiro.

E você, o que achou dessa divisão de cotas? Que mudanças sugere?