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Uns tontos, uma bola

Leandro Marçal

Gastava meu tempo rolando a tela do celular, curtindo postagens e fotos, vendo a vida passar sem sentido. Lia bobagens, ria com besteiras, balançava a cabeça ao reproduzir vídeos bizarros.

Até me deparar com uma surpreendente foto do Almeida. Trabalhamos juntos em um escritório há alguns anos. Meus tempos de estagiário, o tipo de gente com a qual ele evitava se misturar. Criticava nossa existência, lerdeza, falta de vontade dos jovens.

Nas segundas e quintas-feiras pós-rodada, as conversas no almoço eram invariavelmente sobre os grandes lances e artilheiros. E o Almeida não perdoava nossa falta de interesse pelo que realmente interessava.

– Por isso o país tá assim. Tanta coisa ruim acontecendo e vocês preocupados com 22 tontos correndo atrás de uma bola. Por mim, o futebol acabava, junto com essa alegria besta. Coisa de brasileiro mesmo, ô país que não tem jeito…

Para o Almeida, não era possível gostar de futebol e dar atenção a temas como política e economia. Bastava alguém da mesa-redonda sem grife dar um palpite sobre o noticiário para ele revirar os olhos, ignorar e seguir o papo com o Olimpo da intelectualidade do quinto andar. “Ignora esse bárbaro. Ele gosta daquele esporte da ralé”, devia pensar. Alienado era um adjetivo comum a sair de sua boca.

Sentia orgulho por nunca ter pisado em um estádio de futebol. Não aguentaria o monte de gente suada tão perto, gritando. Tampouco tomaria chuva ou se arriscaria à violência de um lugar tão indecente. Recusaria convites para finais dos maiores campeonatos sem pensar duas vezes.

almeida

Para o Almeida, não era possível gostar de futebol e dar atenção a temas como política e economia. Foto: Freepik.

A tentativa de selfie com esposa e filho na entrada do Santiago Bernabéu me assustou. Era de meses atrás, nem sei o motivo dos algoritmos me enviarem esse disparate.

“Visitando um dos maiores do mundo, na linda Madrid”, era a legenda. No mesmo álbum, o das últimas férias, um vídeo do time em campo, outras visitas a estádios europeus e o mesmo sorriso de satisfação.

Incrédulo, conferi os amigos em comum, pensei estar delirando. Era o Almeida, mesmo. O ranzinza do escritório. Que julgava ignorantes os que vestiam uniformes de clubes e pegava no pé dos que puxavam assunto sobre o Brasileirão.

Ainda vi uns breves pitacos de seu time em postagens recentes. O Almeida torcia por alguém? Não lembro. Teria o duro coração amolecido depois do nascimento do filho, rendendo-se ao tão odiado pão e circo de outros tempos? Não sei.

Enviei as imagens e os distantes estagiários daquela época acharam engraçado. Um formado em Economia, outra pós-graduada em Gestão Pública, aquele professor de uma universidade. Todos muito bem diplomados. E acompanhando o futebol nosso de cada dia. Com bons papos e provocações aos derrotados a cada esporádico encontro.

Pelo visto, o Almeida percebeu que dá para torcer e ser bem informado sobre os grandes acontecimentos. Tudo ao mesmo tempo, nesta encarnação. Tomara que ele entenda que há lugar para os tontos dentro e fora de campo. Gostando ou não da bola, correndo atrás dela e também de outras coisas.

Saí do perfil do Almeida e voltei a rolar a tela, ignorando o passar do tempo.