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Uruguai Campeão Olímpico de 1924 – Ano Louco e Celeste

Fábio Areias

Todo país precisa de um imaginário épico e os uruguaios o encontraram no futebol. É curioso que a identidade de um país tenha sido construída por um grupo de homens muito humildes. Foram exatos 44 jogadores que deram um sentido de nação com as conquistas dos Jogos Olímpicos de 1924 e 1928 e a Copa do Mundo de 1930.

Algum exemplos das “verdadeiras profissões” dos jogadores: José Nasazzi (pedreiro); Leandro Andrade (vendedor de jornais); Pedro Cea (vendedor de gelo); Pascoal Somma (açougueiro); Héctor Scarone (carteiro); Lorenzo Fernandez (estivador). Uma geração de homens humildes, mas de grande talento. Unidos em um país com população que, à época, tinha apenas 1,5 milhão de habitantes. Ano em que a Celeste se transformaria em Olímpica.

O Uruguai já era uma potência sul-americana no futebol. Venceram quatro das sete primeiras edições (1916, 1917, 1920 e 1923). O Brasil tivera duas conquistas (1919 e 1922, ambas como país-sede) e a Argentina apenas uma (1921). Se em Buenos Aires e no Rio de Janeiro já conheciam o talento uruguaio, fora do continente poucos sabiam da existência do país. Não apenas no futebol, mas no mapa.

Seleção Uruguaia de 1924. Foto: Wikipédia.

Os Charruas em Paris

A conquista do campeonato sul-americano de 1923 deu ao Uruguai o direito de disputar as Olimpíadas no ano seguinte. Uma honra para qualquer esportista. No entanto, no Parlamento houve um grande debate se o governo deveria ou não bancar a viagem dos jogadores até a França. Uma epopeia que incluía uma viagem de navio com duração superior a um mês e o risco de ser eliminado do torneio com apenas uma partida disputada (os jogos eram eliminatórios).

Com o tempo passando e ainda longe de uma definição, o dirigente Atilio Narancio, presidente da Associação Uruguaia de Futebol, resolveu agir: hipotecou a própria casa e pagou a viagem aos atletas. E lá foram os uruguaios a bordo do vapor francês Desirade. Em cabines de terceira classe e sem escotilha. Mas foram.

O futebol uruguaio ainda era amador – somente se profissionalizaria em 1932. Em 1922, um movimento chamado de Cisma rachou o campeonato local. A divisão foi motivada por divergências do Peñarol com a Associação Uruguaia de Futebol (AUF). O clube aurinegro se desligou da AUF e liderou a criação de Federação Uruguaia de Futebol (FUF), entidade que realizou campeonatos paralelos e não foi reconhecida pela FIFA. O impasse durou até 1925 e os atletas do Peñarol e de outros times das FUF foram impedidos de disputar jogos pela seleção uruguaia durante esse período, incluindo os Jogos Olímpicos.

Nada podia ser mais oposto ao provinciano Uruguai do que a capital francesa dos anos 1920. Era a Paris dos anos loucos, das festas, dos excessos. A Cidade Luz fazia questão de esquecer os horrores da primeira guerra mundial e os Jogos Olímpicos eram mais um evento para celebrar os novos tempos de prosperidade. Pelo menos até o crash da Bolsa de Nova York em 1929.

Equipe do Uruguai no Jogos Olímpicos Paris de 1924. Acervo: Frederico Guilherme Gaelzer/LUME UFRGS.

Ao chegar na França, os vinte jogadores uruguaios foram levados para seus alojamentos: casas de madeira com estrutura mínima e muito distante de qualquer ostentação parisiense. Ao reclamarem com o embaixador, conseguiram mudar para o casarão da madame Marie Pain. Um luxuoso local em que poderiam fazer até os seus churrascos. Asados com champagne: C´est si bon!

A competição de futebol dos Jogos Olímpicos de 1924 seria praticamente uma disputa entre europeus. Das 23 seleções participantes, 20 eram europeias. Apenas Uruguai, Estados Unidos e Egito eram de outro continente. Provavelmente figurantes. Três forasteiros para dar ares de campeonato mundial.

Antes da primeira partida dos uruguaios contra a Iugoslávia, os jogadores celestes perceberam a presença de espiões iugoslavos no treino. De forma proposital erraram praticamente todos os lances no treino para iludir os ingênuos observadores. Seria um massacre contra o horrível time da América do Sul, provavelmente pensaram. No jogo o verdadeiro futebol charrua mostrou sua força: Uruguai 7×0 Iugoslávia.

José Leandro Andrade. Foto: Wikipédia.

O talento uruguaio conquistou os franceses. À medida que avançavam no torneio, os jogadores também aproveitavam os bailes noturnos de Paris. A vida parecia doce demais. Um dos jogadores fazia especial sucesso na noite parisiense: José Leandro Andrade. Chamado de “A Maravilha Negra” pela classe em campo, deslumbrava-se com os presentes que ganhava e as mulheres que conquistava nos cabarés. O filho de um ex-escravo fugido do Brasil vivia seu conto de fadas particular.

A glória

Após derrotar a Iugoslávia, o Uruguai venceu por 3×0 os Estados Unidos, 5×1 os locais franceses e na semifinal uma difícil vitória contra a Holanda por 2×1. A final seria contra os esforçados Suíços que não foram páreo: perderam por 3×0. O Uruguai era campeão olímpico. Ou melhor, era campeão mundial de futebol. Não havia dúvidas que aquele pequeno país tinha a melhor equipe do mundo. O jogo europeu baseado na velocidade e força não foi páreo para o talento, garra e linhas de passe do Uruguai. O dia da glória chegou, como diz a Marselhesa dos anfitriões.

Após o apito final da decisão do ouro, os jogadores uruguaios decidiram saudar os torcedores franceses maravilhados com as atuações dos celestes. Estava criada a “volta olímpica”. A primeira foi realizada no Estádio de Colombes, em 9 de junho de 1924. Uma retribuição a tanto carinho recebido das arquibancadas.

Provavelmente os jogadores não perceberam o tamanho do feito que tinham realizado. Não importa. Quando a história pediu grandeza aquele grupo de homens a entregou. Financeiramente não foram recompensados, mas construíram o realismo mágico de um país. A volta para Montevidéu seria longa, mas seus feitos durariam muito mais. A eternidade.