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Vadão e o Carrossel Caipira

Pedro Henrique Brandão

A Copa do Mundo de 1990 trouxe um trauma para o brasileiro que aprendia a gostar de tática. O 3–5–2 de Sebastião Lazaroni decepcionou e ganhou a pecha de esquema falho, já que não permitia atacar como tradicionalmente o torcedor da Amarelinha gostava e nem fazia da defesa uma fortaleza intransponível — Caniggia e Maradona que digam — como se esperava.

Naquele cenário era improvável que qualquer treinador ariscasse o pescoço contra o estigma do esquema tático. Apenas alguém que estivesse livre dos preconceitos da área e leve das responsabilidades de treinador poderia experimentar o 3–5–2, àquela altura sinônimo de fracasso.

O laboratório Mogi Mirim 

É preciso coragem ou falta de opção para tentar o diferente e assim era o ambiente do Mogi Mirim em 1992. Depois de uma péssima campanha no Campeonato Paulista de 1991, último colocado do grupo verde, o presidente Wilson Fernandes de Barros decidiu dar novos ares ao futebol do clube e montou a equipe apenas com jovens jogadores formados na base ou contratações sem renome.

No comando da experiência, Oswaldo Alvarez, um novato. Vadão era preparador físico do clube e foi convencido pelo presidente a dirigir a equipe. Aceitou por ter autonomia total para tentar algo novo e surpreendeu por apresentar uma revolução no estilo de jogo brasileiro.

Com tempo de sobra para treinar antes da estreia, aquele time serviu como laboratório para inovação tática no Brasil. Inspirado na Laranja Mecânica de Rinus Michels, em 1974, Vadão montou uma equipe extremamente veloz na saída de bola e com imensa consciência tática que permitia aos jogadores não guardarem posições fixas.

Despretensiosamente ou não, Vadão conseguiu romper com a tradição dos pontas do futebol brasileiro e repaginou um conceito da última grande inovação do futebol mundial: o elemento surpresa vindo de trás.

Mogi Mirim

Foto: Reprodução

O Carrossel Caipira 

Foi uma mudança de paradigma na tática do futebol brasileiro, pois até o início dos anos 1990, os times eram montados a partir das ações ofensivas dos pontas. O ataque era pensado pelos lados do campo e Vadão percebeu que havia um vácuo no meio-campo.

Claro que era preciso talento e qualidade técnica para colocar em prática o ousado esquema. Rivaldo, Leto e Válber eram os responsáveis pelo gingado brasileiro do Carrossel Caipira. Com versatilidade para entender o pensamento do treinador, o trio passou a atuar de maneira diferente da que estavam acostumados.

A fórmula deu certo e nas temporadas de 1992 / 93, o time do interior paulista teve um destaque que não se equiparava ao modesto orçamento. No primeiro ano, o Sapão da Mogiana foi campeão da Copa 90 Anos de Futebol, organizada pela Federação Paulista com os times do interior. Em 12 confrontos, o Carrossel Caipira perdeu apenas uma partida.

No Paulistão, o Mogi liderou o grupo B e se classificou para o quadrangular semifinal, porém, não conseguiu a classificação às finais pelo saldo de gols.

Em 1993, novamente campanha acima da média do Sapão. Apesar de não conseguir a classificação para a segunda fase do Paulistão, no Torneio João Havelange — uma espécie de mini Rio-SP — , eliminou o Corinthians nas semifinais e ficou com o dolorido vice-campeonato frente ao Vasco da Gama, nos pênaltis, depois de devolver um 4 a 0 na decisão.

Antes do final do ano, mais um título. No Torneio Ricardo Teixeira, que classificava à segunda divisão, vitória sobre o Bangu nas semifinais e apenas uma derrota na competição, o Mogi sagrou-se campeão. Para entender melhor a história do Mogi Mirim que revolucionou o futebol brasileiro, vale assistir o documentário produzido por Cristiane Crevellari, Kelly Prado, Laís Tellini e Wanda Pankevicius Barros.

As últimas voltas do Carrossel e de Vadão

O sucesso, porém, custou caro ao Mogi Mirim, pois os grandes clubes da capital avançaram ferozmente sobre os talentos lançados por Vadão. Corinthians e Palmeiras se reforçaram com jogadores do Sapão, até reservas foram negociados e, em 1994, sem seus principais atletas, o Mogi acabou rebaixado no Paulistão.

Vadão deixou o clube após o rebaixamento e iniciou uma trajetória que o levou a dirigir 18 equipes em 28 anos de carreira. O treinador continuou a saga pelo interior paulista e fez história pelos time de Campinas, onde dirigiu tanto Guarani como Ponte Preta e ostenta o feito de nunca ter perdido um único Dérbi Campineiro, em nove clássicos que disputou— cinco vitórias (quatro pelo Guarani e uma pela Ponte) além de quatro empates.

Ainda comandou o São Paulo, onde é considerado o responsável por promover Kaká ao time profissional, Corinthians e a Seleção Brasileira Feminina, este último, seu trabalho e o mais questionado. Implacável, o tempo deixou o vanguardista de outrora, ultrapassado no trabalho feito com na Seleção Feminina e, por isso, após a eliminação na Copa do Mundo de 2019, Vadão foi demitido e deu lugar a Pia Sundhage.

Foto: Reprodução Facebook

Mesmo questionado e colecionando alguns atritos no comando do time feminino, quando Vadão morreu, em maio de 2020, Marta, Cristiane e inúmeras personalidades do esporte e da imprensa além de clubes se manifestaram nas redes sociais prestando condolências. Em todas as manifestações, uma característica era constantemente destacada: a gentileza com que o treinador lidava com as pessoas.

Oswaldo Alvarez foi um personagem marcante na modernização do futebol brasileiro. O técnico que tinha poucos recursos conseguiu montar um time diferente, que jogou o melhor futebol no Brasil no ano de 1992 e que para sempre será lembrado como o Carrossel Caipira, a maior herança futebolística que Vadão deixará ao esporte.

Para além disso, nos relatos de quem conviveu com o treinador, Vadão foi um homem digno, profissional comprometido e que deixou no duro meio do futebol uma marca além das quatro linhas com sua gentileza, que conquistou amigos leais e formou uma família afetuosa, sua herança definitiva como ser humano.

 

Como citar

BRANDãO, Pedro Henrique. Vadão e o Carrossel Caipira. Ludopédio, São Paulo, v. 142, n. 7, 2021.