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Vai ter Copa?

Arlei Sander Damo

Os brasileiros parecem entediados com a Copa – Copa do Mundo de Futebol Masculino da FIFA 2018, bem entendido. A menos de dois meses para a largada da competição, a impressão é de que estamos a dois anos ou mais. A ausência de polêmicas em torno das escolhas e das opiniões do reverendo Adenor, somada à campanha exitosa de seus comandados durante as eliminatórias, certamente contribui para a calmaria. Sendo as controvérsias propriamente futebolísticas escassas, falta à mídia o combustível essencial para promover o evento. Soma-se a isso o fato de que a Copa será na Rússia de Wladimir Putin, um país tão distante geográfica e linguisticamente quanto ameaçador às bisbilhotagens midiáticas. Mas não menos importante para compreender a apatia é o fato de que no campo da política brasileira há tantos escândalos e controvérsias que o futebol ficou em segundo plano.

Criou-se uma situação paradoxal, com escassez de polêmicas das quais os brasileiros gostam e abundância daquelas pelas quais têm menor predileção. Não é que sejamos naturalmente inclinados ao consenso; isso seria simplificar a questão. Tampouco é correto dizer que a tensão política é ruim – conquanto não se possa dizer o mesmo quando há ruptura das regras mais elementares do jogo. Atravessamos um ciclo inusual de desacordos entre parte da elite nacional como havia muito não se via – o PT incluso, porque embora tenha vindo de baixo, figurou entre os grandes por mais de uma década. Há quem acredite que um novo ciclo eleitoral possa reposicionar o cenário; os que consideram as fissuras insolúveis, porque extrapolaram a esfera da política convencional; os que temem pela não realização das eleições; os que conseguem ter a ilusão de que a supressão delas seria uma saída; e um sem número de outras posições, dentre as quais se destaca a de uma maioria silenciosa que tem dificuldades para entender os meandros do jogo e se pergunta: afinal, quando esta novela vai acabar? É bem verdade que esta maioria parece ter sido convencida, pelo script original, sobre quem é o bandido e o mocinho. Mas como a peça não terminou, há sempre a possibilidade de haver reviravoltas.

Ao invés de embarcar no argumento débil de que os brasileiros não apreciam as controvérsias, seria mais conveniente perguntar pela natureza daquelas que apreciam, e as futebolísticas certamente estão entre elas. A produção discursiva que o futebol suscita, e não apenas o jogo em si, está permeado pela política, num sentido ampliado do termo, que extrapola a política partidária. Por isso mesmo o antropólogo francês Christian Bromberger o definiu como a “bagatela mais séria do mundo”.

Diferentemente de outros ramos das ciências sociais, a antropologia tem a má fama de ser uma disciplina não normativa, pois não visa performar a realidade. A acusação não é inteiramente justa. Mas tampouco é improcedente, especialmente se considerado apenas o campo da política, um tema em que a filosofia, a sociologia e a ciência política, têm mais tradição. Estas disciplinas tendem a considerar a política como o espaço das controvérsias públicas por excelência, o que inclui até mesmo espaços consagrados, como os parlamentos, a mídia, as praças e ruas, entre outros. E vão além, sugerindo os modos mais adequados de organizar tais controvérsias. Pessoalmente tendo a acreditar e seguir muitas dessas sugestões – como a defesa da democracia, do voto universal, da independência dos poderes, da existência do Estado, etc. Como antropólogo atento ao ponto de vista dos nativos, no entanto, sou forçado a admitir que a política pode ter outros entendimentos e outros espaços de realização.

Com este parêntese resulta justificada a reiterada afirmação de que o futebol é um espaço de manifestação política consagrado pelo público, e isso vale para muito além dos estádios. Espera-se que o futebol gere controvérsias e elas são apreciadas, mas não estou tão convencido de que se espera o mesmo da política, conquanto sejam inevitáveis. À diferença entre um tipo de controvérsia e outro não está apenas na natureza das mesmas – a quantidade dos que acreditam que as controvérsias políticas sejam irrelevantes não é desprezível – mas a maneira como elas se dissolvem. Claro que no futebol temos incontáveis exemplos de violência por conta dessas tensões, mas o entendimento generalizado é de que isso é próprio de quem não captou o espírito da coisa. As controvérsias do futebol têm uma espécie de prazo de validade. Depois de uma boa refrega em torno de um evento qualquer, de um jogador preterido pelo técnico, por exemplo, encerra-se o debate, não raro com um empate. Por isso mesmo o futebol cria um tipo de socialidade transversal, hostil na aparência – porque as discussões por vezes são acaloradas – embora cordial na essência. A política está noutro plano, definitivamente, especialmente na atualidade brasileira.

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Em 2013 um grupo de manifestantes posicionou 594 bolas de futebol no gramado em frente ao Congresso. Com um chute, eles simbolizaram a passagem de responsabilidade por melhorias aos parlamentares. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil.

Havia um tempo em que os intelectuais de esquerda consideravam o futebol um antro de alienação. Por óbvio, o jogo tinha influência perniciosa, afastando o povo da reflexividade, tanto mais que as vitórias esporádicas, do time ou da seleção, proporcionavam uma centelha de felicidade, ilusória e passageira. Boa parte da razoabilidade desta interpretação advinha do fato de que os ditadores europeus e sul-americanos do século XX fizerem uso irrestrito dos eventos esportivos. Com o fim das ditaduras e, não menos importante, com ceticismo em relação à revolução proletária, o futebol como ópio do povo foi revisto. No Brasil, especialmente, cujo calendário das copas e das eleições presidenciais coincide, notou-se que a relação entre a performance da seleção, supostamente favorável a quem está no poder, e os resultados eleitorais, não era tão evidente. Mas daí à conclusão de que o futebol não tem a ver com a política é precipitado.

Desde o fim do período militar, ao menos, copa e eleições passaram a ter suas temporalidades específicas, ainda que conectadas, tanto mais a partir de 1994, quando as eleições presidenciais (de governadores, senadores e deputados) passaram a ser realizadas a três meses do fim da competição esportiva, aproximadamente. A euforia com a conquista do tetra, em 94, pode ter reforçado o otimismo com o Plano Real e facilitado a eleição de FHC, mas se isto faz sentido, porque a conquista de 2002 não ajudou Serra, o candidato à sucessão de FHC? Em sentido inverso, a derrota para a França na final de 98 não impactou na reeleição de FCH em primeiro turno, da mesma forma que a desclassificação prematura em 2006 não impediu a reeleição de Lula e tampouco a derrota de 2010 obstaculizou a vitória de Dilma, sucessora de Lula.

A copa de 2014 gerou um verdadeiro curto circuito, sobrepondo e emaranha de forma inédita as temporalidades da copa e da política. Não me refiro aos resultados de campo, evidentemente. O vexame nas semi-finais de 2014 não impediu a reeleição de Dilma, e se é fato que a vitória foi por margem escassa, não se deve atribuir ao 7 a 1 para a Alemanha, antes à derrocada abrupta da popularidade em meados de 2013, durante as Jornadas de Junho que, de resto, coincidiram com a Copa da Confederações vencida pelo Brasil. Em vários textos publicados a respeito da Copa de 2014 fiz questão de destacar, já no ponto de partida, a diferença entre jogar uma copa e sediá-la. A questão, à primeira vista, parecia desprovida de sentido, porque a diferença seria óbvia se considerados todos aqueles elementos próprios da logística demanda pelo megaevento. Todavia, há implicações de outra natureza, pois torcer pela seleção implica a mobilização de sentimentos de identificação nacional e organizar a copa envolve a participação do Estado. Estado e nação são instituições emaranhadas, mas tem suas especificidades.

No Brasil, e eu arriscaria que esta é a regra, a seleção é tida como um símbolo nacional e, sob certo aspecto, interdita às disputas eleitorais, em geral travadas tendo como o horizonte o controle do Estado. Se Estado e nação não duas faces de uma mesma moeda, a nação é a fase sagrada – a outra, é mundana. Esta premissa, explicaria porque a apropriação dos símbolos nacionais pelos políticos seria vista com reticências, pelo menos em épocas democráticas.

Ao trazer a Copa de 2014 para o Brasil Lula jamais imaginou que ela pudesse exercer um efeito tão deletério; pelo contrário, pensava-se que a sua organização poderia alavancar a credibilidade do Brasil, uma crença um tanto ingênua, pois alinhada com o marketing da FIFA e com os argumentos simplórios da crônica esportiva nacional, incluindo-se dirigentes e atletas, salvo exceções. Mas não há que se culpar Lula e seus conselheiros. Se ele não tivesse bancado a Copa teria sido execrado, pois à época Joseph Blatter era um respeitável sucessor de João Havelange, e este ainda era um dirigente honorário da FIFA e do COI. No mínimo, devia-se suspeitar das bravatas de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF, que teve o disparate de anunciar que a Copa de 2014 seria marcada como “a copa da iniciativa privada”, quando muito com algumas parcerias público-privadas.

O governo federal emitiu sinais ambíguos em relação à transparência do negócio. De um lado mobilizou o TCU para fiscalizar os recursos disponibilizados via BNDES – e o pessoal do TCU não era controlado pelo petismo – e até uma comissão especial para acompanhar os projetos de reforma urbana, para evitar que se cometessem violações de direitos humanos nas obras de reassentamento. Sim, houve esforços para se fazer da Copa um negócio transparente, mas o problema era a face oculta da lua. Em outras palavras, desde o início Lula politizou a questão, usando as sedes da Copa para consolidar alianças políticas e assim emergiram os elefantes brancos – de Brasília, de Cuiabá, de Manaus. Pouco importa que esses estádios tenham sido construídos com dinheiro dos Estados – no caso de Brasília, do Distrito Federal. Não se pode esperar que as manifestações de rua façam este tipo de distinção, nem mesmo que relevem o fato de que os gastos efetivos com as obras da Copa, mobilidade urbana e tudo o mais incluso, fossem irrelevantes quando comparados ao PIB nacional ou mesmo ao orçamento dos ministérios da Educação e da Saúde, com os quais os estádios foram confrontados. O importante, repito, era o que eles significavam.

A controversa Operação Lava Jato só teria início em março de 2014 e, sem exageros, ela não teria a força que teve sem as Jornadas de Junho, conquanto não se possa estabelecer conexões diretas entre os eventos. Quaisquer que tenham sido os propósitos desta operação – incluindo-se a indelével seletividade de sua condução – pode-se afirmar hoje, com mais segurança e até com alguma precisão, que houve desvio de recursos públicos nas obras da copa, em particular na construção dos estádios. Em 2013, à época em que eclodiram as Jornadas de Junho, isso era uma certeza velada, não porque se dispusesse de dados, mas pelo histórico dos agentes envolvidos. Ao finalizar o livro Megaeventos Esportivos no Brasil, em co-autoria com Ruben Oliven, no início de 2014, o máximo que pudemos fazer foram ilações, questionando a notável coincidência entre as empreiteiras que haviam construído os estádios e estavam cotadas para geri-los e o fato de que boa parte delas eram também as principais doadoras de campanhas eleitorais. A menos que alguém acreditasse ser o Brasil um país imaculado no qual empresários fazem dádivas a políticos sem expectativa de retribuição, a coincidência era também uma suspeita.

Na verdade, as Jornadas de Junho principiaram por ações de grupos políticos de esquerda – com ou sem vínculos partidários – e tinham como mote a deficitária qualidade dos serviços públicos, com destaque para o transporte. As portentosas arenas que estavam sendo finalizadas serviram justamente como um contraponto à precariedade de escolas e hospitais. Há muitas outras razões que ajudam a entender o frenesi das ruas em 2013, mas estou entre os que acreditam que elas não seriam capazes de mobilizar tantos jovens se não houvesse uma sobreposição de temporalidades. Não era época de eleições, mas as mobilizações de cunho político e articuladas por coletivos de esquerda – articuladas não significa controladas – adentrou o tempo da Copa, no caso, a das Confederações. E foi aí que se produziu um curto circuito.

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Bolas boiam em frente ao Congresso. Foto: Agência Brasil.

Questionava-se, inicialmente, a quem a copa interessava, e o slogan foi um sucesso. Em 2014 os mesmos atores tentaram dizer que ela não seria realizada, mas fracassaram. E não foi apenas porque aumentou a repressão policial. Em Porto Alegre, ao menos, há registro de cenas nas quais a população civil hostilizou os manifestantes, ao invés de juntar-se a eles, como fizera no ano anterior. Os protestos saturaram, mas não havia uma estratégia clara, nem quem a conduzisse, razão pelas qual eles seguiram até definhar. Seja como for, quem inseriu a agenda da corrupção, ainda em 2013, foram outros grupos, bem menos articulados, mas com respaldo da grande mídia, alguns declarados de direita e outros de viés ideológico impreciso – de qualquer sorte, não eram de esquerda. A confusão foi generalizada, inclusive na cabeça da intelectualidade. Poucos perceberam que a miscelânea de pautas e a escassez de lideranças não teria senão dois desfechos possíveis: o caos generalizado – que muitos acreditavam criativo – ou o consenso em torno de algo já estabelecido. Prevaleceu a segunda alternativa, emergindo um nacionalismo totalmente extemporâneo, não fosse o fato de estarmos às vésperas de uma Copa, que ressuscitou dos escombros os sentimentos chauvinistas mais retrógrados. O verde e amarelo passou das ruas aos estádios, ainda em 2013, prosseguiu em 2014 e, já num outro registro, retornou às ruas 2015 e 2016. A esta altura, pois, alguns dos símbolos nacionais haviam sido como que apropriados por um segmento da população. Pouco mais de dois anos dos eventos que resultaram no Golpe, nota-se um recolhimento envergonhado desse gente que foi às ruas protestar contra a corrupção com a camiseta da CBF– cujos três ex-presidentes encontram-se, nesta ordem: recolhido para não ser preso, preso e banido do futebol.

Embora não pareça, vai ter Copa em junho e, possivelmente, eleições em outubro. Eu me atreveria a dizer que em algum momento o desdém deverá dar lugar a outros sentimentos, mas não imagino de onde haverá disposição ou mesmo coragem para levá-los às ruas. A copa vinha sendo, nas últimas edições, um tempo de culto à brasilidade, pouco importando se o desfecho era ou não favorável à seleção. Além de controvérsias o futebol é capaz de produzir um tipo sui generis de comunicação transversal. Sobretudo as copas, caracterizam-se como eventos de forte inclusão, seja ela de classe, gênero ou geração. Não pode uma nação sobreviver sem momentos de distensão, e se é certo que as diferenças precisam ser discutidas publicamente, não é tão seguro o resultado da excessiva politização.

Por fim, um adendo pessoalíssimo. Em 1986, Telê Santana cortou Renato, que jogava no Grêmio, da lista final de convocados para o México, e eu ainda não superei o trauma, embora Renato tivesse ido jogar no Flamengo em seguida e meu gremismo tenha desbotado significativamente. Vejo o máximo de jogos das copas que posso – quase todos, geralmente – mas sem empolgação desmedida, nem mesmo com o time da CBF. Nesse ano não será diferente, imagino. Todavia, já estou com o álbum da Copa pela metade. A última vez que fiz algo parecido foi com tampinhas de refrigerante, e só tinha a seleção do Brasil. Isso foi em 1978 e era coisa exclusiva dos meninos. Agora eu compro as figurinhas e as abro e colo junto com Luísa, minha filha de 8 anos. A parte mais importante do nosso projeto, que é trocar os jogadores repetidos, é ela quem faz. E o que é notável, o escambo é com meninas e meninos, porque o álbum da copa não demarca gênero, não mais. E isso tem tudo a ver com política.