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Valdir Joaquim de Moraes, uma vida dedicada ao ofício de ser goleiro

Pedro Henrique Brandão

Em campo, o goleiro Valdir inovou a posição com movimentos acrobáticos para suprir sua baixa estatura. Depois de aposentado, “Seu Valdir” revolucionou a preparação de goleiros no Brasil e ajudou a formar uma geração que colocou os defensores brasileiros entre os melhores do mundo.

Dizem que ser goleiro não é para um ser humano normal. É preciso muito preparo emocional para ser o responsável por frustrar um estádio lotado, sempre na corda bamba entre ser o anti-herói do espetáculo ou o frangueiro que entregou o jogo mais uma vez. Imagine fazer uma grande defesa e no minuto seguinte cometer uma falha vexatória natural da posição. No esporte em que o objetivo máximo é o gol, o dever do goleiro é justamente evitar que os gols aconteçam.

Por isso, a escolha pela posição raramente acontece por livre e espontânea vontade e sim, como certa vez disse o pentacampeão Marcos:

“o goleiro começa lá na frente, aí não faz gol e recuam ele para o meio. Aí o cara não acerta o passe e colocam ele para jogar na zaga. Daí percebem que o cara é grande e não sabe jogar com os pés, aí o que sobra é o gol. Dali é para fora!”.

Então, como explicar a carreira de Valdir de Moraes? Com apenas 1,72 metros de altura, mas que, inexplicavelmente, virava um gigante para defender o gol palmeirense. Inovador nos movimentos acrobáticos para suprir sua baixa estatura, o goleiro jogou por 10 anos no Renner de Porto Alegre. Justificava sua técnica assim:

“Não adianta ser alto e não ser inteligente. Eu sempre soube fazer a leitura do jogo, antecipar a jogada”.

Em 1958, chegou ao Palmeiras e passou mais 10 anos no clube que o projetou no futebol nacional. A estreia aconteceu em 28 de setembro de 1958, num Palmeiras 7 a 1 Ituano. Foram 480 jogos pelo Palmeiras, com 291 vitórias, 96 empates e apenas 93 derrotas.

Pelo time de Parque Antártica, Valdir de Moraes venceu a Taça Brasil de 1960, quando era o primeiro nome da escalação que entrou para a história como a Academia de Futebol de Filpo Nuñes.

A galeria de troféus do Palmeiras teve muitas taças carregadas pelas mãos de Valdir Joaquim de Moraes. Como atleta, conquistou o Campeonato Paulista em 1959, 1963 e 1966; Campeonato Brasileiro em 1960, 1967 – Torneio Roberto Gomes Pedrosa e Taça Brasil – e o Torneio Rio-São Paulo em 1965.

No dia 16 de maio de 1968, no estádio Centenário de Montevidéu, entrou em campo pela última vez para defender o clube, a partida contra o Estudiantes era válida pela finalíssima da Libertadores daquele ano.

Depois de perder o primeiro jogo por 2 a 1, o Palmeiras venceu o segundo por 3 a 1, mas como não havia desempate pelo saldo de gols, a decisão foi para o terceiro jogo em campo neutro e a derrota marcou a perda do título inédito e do goleiro que marcou uma era no clube.

Valdir Joaquim de Moraes. Foto: Divulgação.

Pioneirismo na preparação e evolução dos goleiros

Quando deixou o Palmeiras, defendeu o Cruzeiro do Rio Grande do Sul por uma temporada e se aposentou definitivamente em 1970. No estado em que nasceu, o goleiro com quase 40 anos poderia aproveitar sua aposentadoria.

Porém, um chamado para ser auxiliar de Oswaldo Brandão mudou os rumos da vida de Valdir e do futebol brasileiro. Um convite de Oswaldo Brandão não se recusava e o ex-goleiro voltou a São Paulo para ser auxiliar do lendário treinador, mas decidiu fazer um pouco além do que lhe foi pedido.

Além de ajudar nos treinamentos do time, Valdir passou a fazer treinos específicos com os goleiros para aperfeiçoar os fundamentos e passar o conhecimento que adquiriu em mais de duas décadas nas metas. Estava criada a função de preparador de goleiros.

“Eu não sei se fui que inventei a profissão, mas eu nunca tinha visto ninguém fazendo esse trabalho nos clubes do Brasil. Eu mesmo sempre treinei junto com os demais atletas”, disse em entrevista à ESPN.

Os resultados começaram a acontecer ainda no Palmeiras, com Leão. Depois de trabalhar com Telê Santana, acompanhou o técnico e no São Paulo, com Zetti e Rogério Ceni, repetiu os bons resultados.

No Corinthians, trabalhou com Dida e Ronaldo, mas foi numa das voltas ao Palmeiras que conseguiu lapidar Velloso e revelou dois dos grandes nomes da famosa academia de goleiros do Palmeiras: Sérgio e Marcos.

Enquanto Sérgio garantiu paz na reserva do gol alviverde durante anos, Marcos virou “santo”, ganhou a América com o Palmeiras e o mundo com a Seleção Brasileira. Entrou para a história como um dos maiores ídolos do Palmeiras e deve tudo o que sabe sobre defender a Valdir Joaquim de Moraes, ou o Seu Valdir, o mestre.

Voltou a viver em Porto Alegre, sua cidade natal, em 2012 e mesmo com a idade avançada e com a saúde debilitada desde 2016, quando sofreu um AVC que deixou sequelas, acompanhou o futebol até morrer em janeiro de 2020, aos 88 anos. 

Baixo na estatura, mas um gigante na profissão. Conhecido no meio do futebol pela retidão de caráter, Valdir de Moraes passou a vida defendendo com garra todos os clubes que o contrataram para a comissão técnica. Porém, sempre que lhe perguntavam o que significava o Palmeiras, Seu Valdir respondia: “Uma vida!”

Há um dito popular no futebol sobre a vocação necessária para ser goleiro que diz que a “posição é tão ingrata que onde um goleiro pisa não nasce grama”. Em mais de 60 anos no futebol, onde Valdir Joaquim de Moraes pisou, semeou e fez nascer um dos maiores times da história do futebol, quando ele foi o camisa 1 da primeira Academia; além de fazer brotar os grandes goleiros brasileiros dos últimos 30 anos, como Marcos, Velloso, Diego Cavallieri, Waldir Peres, Ronaldo, Zetti, Dida e Rogério Ceni, todos pupilos do Seu Valdir.

Valdir Joaquim de Morais deixou um legado ímpar ao futebol brasileiro. Como atleta, vencedor e inovador como treinador de goleiro, transferindo seus conhecimentos ajudou evoluir a posição no Brasil, por isso, será lembrado todas as vezes que um goleiro brasileiro fechar o gol em algum lugar do mundo.