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Vamos a Rússia! O árbitro de vídeo também, mas não os Estados Unidos

Marco Antunes de Lima

“Sabes qué significa VAR? Vamos a Rusia!”. A frase ao lado é do ex-jogador e agora treinador panamenho Julio César Dely Valdes[i] à Agência de notícias EFE. Valdes, considerado o maior jogador da história do Panamá, fez essa declaração após a classificação de sua Seleção à Copa do Mundo da FIFA, a ser disputada na Rússia em 2018 brincando com o significado da sigla VAR (Video Assistant referee) que não foi usado nas partidas das eliminatórias da CONCACAF e, que se fosse, poderia anular um gol marcado pelo Panamá contra a Costa Rica, em que claramente a bola não teria entrado. Se o gol fosse anulado pela revisão de vídeo, o resultado da partida poderia ser outro e o Panamá estaria fora da Copa do Mundo e, em seu lugar, a seleção dos Estados Unidos da América, potência tradicional da região da CONCACAF, ainda estaria disputando uma vaga.

Após a classificação do Panamá com um gol em que a bola não teria entrado o presidente da FIFA, Gianni Infantino declarou que havia chegado o momento para a utilização do Árbitro de Vídeo em partidas de futebol organizadas pela Federação Internacional. Isentando a arbitragem do erro, dizendo que os árbitros são humanos, o presidente Infantino deixa claro o que todos já sabiam: que o polêmico Árbitro de Vídeo será usado na Copa do Mundo de 2018. Essa nova tecnologia já foi utilizada pela FIFA no Mundial de Clubes de 2016, no Mundial Sub-20 de 2017 e na Copa das Confederações de 2017.E também em competições locais ao redor do mundo, como a Bundesliga alemã a partir desta temporada de 2017, assim como no Campeonato Italiano, também a partir de 2017.

O sistema VAR, não com esse nome, mas com a mesma tecnologia tem sua origem nas variadas e ligas esportivas norte americanas como a NFL (Futebol Americano) e a MLB (Beisebol) onde o árbitro de vídeo já vem sendo utilizado em jogadas importantes a alguns anos e revertendo marcações dos árbitros. Entretanto, vale lembrar, conforme matéria apresentada pela ESPN[ii] que a FIFA, com o intuito de economizar despesas preferiu não utilizar a tecnologia do árbitro de vídeo nas rodadas finais das Eliminatórias. A FIFA deixou de investir, na partida entre Panamá e Costa Rica, a quantia de aproximadamente 836 mil Reais para instalar o sistema VAR, que garantiria que o primeiro gol panamenho fosse revisto e não validado, podendo mudar o resultado da partida e das Eliminatórias. A própria FIFA é culpada pela situação e penso que seria melhor que seu presidente não fosse tão enfático na declaração da necessidade do árbitro de vídeo haja vista que a entidade falhou em não usá-lo em um momento tão importante.

Os Estados Unidos da América, que ficaram fora da Copa do Mundo de futebol, como sabemos, são a maior força econômica mundial e a sua não presença no Mundial da Rússia gera grande prejuízos à FIFA. Primeiramente pelo fato dos norte-americanos encontrarem-se entre o público que mais procurou ingressos para a Copa, número que provavelmente caíra após a desclassificação. Lembrando que os norte-americanos, geralmente são o grupo de turistas que costumam gastar mais em grandes eventos internacionais. Também pelo fato da emissora de televisão americana FOX ter pago cerca de 1,3 bilhão de reais para deter os direitos de transmissão da Copa nos Estados Unidos. Acredito que esse valor será revisado, haja vista que a audiência norte-americana diminuirá, assim como investimentos de patrocinadores, e contratos de direitos de transmissão geralmente são feitos com cláusulas em que os valores pagos são baseados nos fatores citados. A não ida da seleção americana à Copa faz com que a FIFA perca um mercado importante no seu intuito de lucrar com o futebol.

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Árbitro de vídeo em treinamento. Foto: Marcos Paulo Rebelo/CBF.

Teorias conspiratórias brotaram após a desclassificação dos Estados Unidos para a Copa do Mundo. Alguns dizem que a seleção norte americana paga o preço pelo fato que as investigações contra a corrupção na FIFA, quando em 2015 prendeu diversos membros do alto escalão da FIFA e causou inclusive a queda do ex-presidente Blatter, terem partido da promotoria pública norte americana. E as investigações partiram também da premissa da compra de votos para as Copas da Rússia, em 2018 e do Catar, em 2022. 2022, que os Estados Unidos se candidataram à sede do evento. Outra teoria é que as seleções de México e Costa Rica, ambas latino-americanas, não teriam jogado com tanto intuito, vindo a perder, respectivamente, de Honduras e Panamá, desclassificando assim a seleção norte americana, em “resposta” às políticas norte-americanas, lideradas pelo presidente Donald Trump, quanto à repressão à imigração e até à construção de um muro na divisa com o México. Teorias apenas. Fato mesmo, futebolístico, que a seleção norte americana perdeu para a fraca seleção de Tinidad e Tobago na última rodada e também ter perdido, em casa, tanto para o México quanto para a Costa Rica, durante as Eliminatórias. Se o gol do Panamá, em que a bola não entrou, foi decisivo na classificação final das Eliminatórias, a campanha fraca de uma seleção norte americana renovada também foi.

Quanto ao polêmico árbitro de vídeo, que com certeza será usado no Mundial da Rússia, ficam várias questões, tanto quanto sobre a sua utilização, quanto à sua utilidade no mundo específico do futebol. Tudo certo que um Mundial de Seleções, um dos eventos mais caros do esporte mundial, consegue-se instalar o sistema VAR sem dificuldades, mas será que nas outras competições, de menor importância até mesmo da própria FIFA, vale a pena o investimento? Será que as Confederações continentais e nacionais serão capazes de aplicar essa tecnologia em todos os jogos de seus torneios? Se a FIFA declarar a necessidade do árbitro de vídeo para ser utilizado em decisões nas partidas será impossível, em minha opinião, que a tecnologia seja usada em todas as competições profissionais, ferindo princípios básicos da isonomia do jogo.

Um questionamento que levanto é até que ponto o árbitro de vídeo atrapalha a dinâmica do jogo de futebol? Com aplicação da tecnologia, por muitas vezes as partidas teriam que ser paradas para que os árbitros pudessem analisar a jogada, fazendo com que se mudasse totalmente o ritmo das equipes. O jogo de futebol tem como uma de suas características o fato de ser dinâmico, corrido: são dois tempos de 45 minutos onde o relógio não para, não importando se a bola está em jogo ou não. O jogo de futebol tem a lógica de que as equipes tem que conseguir seus objetivos (gols) dentro de um tempo corrido e pré determinado. Em minha opinião o árbitro de vídeo atrapalharia essa lógica do jogo que encanta milhões de torcedores pelo mundo todo. Por mais que o erro humano dos árbitros seja algo que entristece muitos torcedores, mexendo com incalculáveis emoções, ele faz parte do jogo, e das também incalculáveis discussões pós-partidas, mostrando a importância do jogo para a sociedade. Imaginem aquela final de Copa do Mundo, em que uma das equipes faz um gol decisivo no final da partida e a torcida, de um lado vai a êxtase e do outro ao desespero, mas ambas devem se acalmar imediatamente e esperar 2 ou 3 minutos até que os árbitros tomem uma decisão “correta” a partir das imagens do árbitro de vídeo. No mínimo brochante, não?

[i] https://www.efe.com/efe/america/destacada/sabes-que-significa-var-vamos-a-rusia-dice-dely-valdes-sobre-idea-de-fifa/20000065-3406784. Acessp em 15 de outubro de 2017.

[ii] http://espn.uol.com.br/noticia/734184_como-economia-porca-ajudou-a-deixar-eua-fora-da-copa-e-pode-gerar-prejuizo-bilionario. Acesso em 15 de outubro de 2017.