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VAR bom é VAR polêmico

Marco Antunes de Lima

O VAR (Video Assistant Referee) veio para ficar, não tenha dúvida disso, concordemos ou não. Aprovado pela International Board em meados de 2016, neste ano de 2019 já é usado nas primeiras divisões dos países com as principais ligas do mundo. É uma realidade no mundo do futebol que parece não ter mais volta. Esse futebol moderno, que adere ao uso de tecnologias de vídeo para tomar decisões (outros esportes já fazem isso há muito mais tempo), ainda é o mesmo? Aquele futebol “romântico”, cheio de polêmicas, não existe mais? O VAR tornou o jogo algo exato, onde erros que comprometem o resultado não existem?

O futebol na era do VAR não é exatamente o mesmo, mas não difere muito do futebol anterior ao surgimento e à aplicação desta nova tecnologia. As polêmicas, em razão das decisões da arbitragem, principalmente aquelas auxiliadas pelo VAR, continuam e continuarão. O jogo nunca será exato. Uma partida de futebol é um fenômeno essencialmente humano, e tudo que é humano não é exato.

Na sala do VAR, gol de Pedrinho, do Corinthians, foi revisto, e árbitro anulou gol na final da Copa do Brasil de 2018. Foto: Fernando Torres/CBF.

É necessário salientar que o instituto do VAR não é o uso da imagem do vídeo para corrigir/confirmar marcações do campo. O que chamamos de VAR é mais um árbitro. Sim, o VAR é mais um membro da equipe de arbitragem escalado para determinada partida. O Árbitro Assistente de Vídeo não é o vídeo mas sim o cidadão que, utilizando das imagens geradas, assiste o árbitro principal da partida sobre lances específicos determinados na regra que podem ser confirmados ou alterados pelo árbitro principal.

Neste Campeonato Brasileiro de 2019, o VAR teve participação efetiva em várias partidas, se não em quase todas as partidas do campeonato. Apresentarei abaixo alguns exemplos em que a interpretação das “chamadas” do VAR foram polêmicas, questionáveis ou geraram problemas maiores.

O primeiro exemplo que tomo é o do ocorrido entre Botafogo e Palmeiras, no dia 25 de maio. O alviverde de Palestra Itália venceu a partida por 1 a 0 em gol marcado de penalidade máxima que só foi marcada após revisão do VAR. Na minha opinião, e que fique bem claro isso, houve a penalidade e o árbitro da partida errou ao não marcar inicialmente a penalidade, inclusive apresentando amarelo para o atacante palmeirense por simulação. O VAR corrigiu a marcação e o pênalti foi marcado. Entretanto, neste caso o episódio foi mais polêmico, fazendo com que o resultado da partida fosse suspenso até posterior julgamento no STJD. O Botafogo alegou que o jogo já havia recomeçado, com autorização do juiz, e somente depois o VAR foi consultado. Pela regra do VAR ele só pode ser consultado antes do reinício da partida. O Botafogo alegou erro de direito, e não de fato, e levou a questão ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva. No julgamento, o árbitro principal Paulo Roberto Alves Júnior alegou ao tribunal que o Botafogo havia recomeçado a partida sem sua autorização, mesmo estando com o apito na boca e o tribunal aceitou seu relato não mudando o resultado da partida e indeferiu o pedido do Botafogo. Para o tribunal não houve erro de direito no lance e a interpretação do VAR também foi correta para a marcação da penalidade.

Botafogo perdeu para o Palmeiras, mas alegou uso ilegal do VAR para pedir anulação do jogo. Foto: Reprodução/TV Globo.

Outro exemplo onde o uso do VAR foi polêmico e acabou influenciando o resultado da partida foi no confronto entre Grêmio Porto-Alegrense e Vasco da Gama, ocorrido em 13 de julho, na Arena do Grêmio. O Vasco vencia o jogo por um a zero e no início do segundo tempo da partida marcou novamente com Yago Pikachu. O Assistente de Vídeo chamou o árbitro Rodolpho Toski Marques, que, após consulta às imagens, anulou o gol vascaíno alegando ter havido uma falta, no meio de campo, por um jogador do cruzmaltino cerca de 30 segundos antes do gol propriamente dito. O Grêmio acabou vencendo a partida por 2 a 1. A interpretação de falta pelo árbitro e pelo VAR gerou muita polêmica entre os comentaristas e torcedores em geral, pois a falta foi puramente interpretativa, sem haver certeza se ela havia realmente ocorrido.

O árbitro Rodopho Toski Marques revê jogada e anula gol do Vasco. Foto: Reprodução/Premiere.

O terceiro exemplo é o do ocorrido na partida do último dia 25 de agosto entre Vasco da Gama e São Paulo, em São Januário. Aos 32 minutos do primeiro tempo Raniel, do São Paulo, atingiu com o pé a cabeça de Richard, do Vasco da Gama. Após análise do vídeo o árbitro Anderson Daronco considerou que a falta de Raniel era para cartão vermelho direto, aplicando-o. A decisão, após assistência do árbitro de vídeo, foi muito criticada por parte dos comentaristas da mídia, gerando grande polêmica sobre a interpretação do lance por Daronco.

Raniel, do São Paulo, é expulso por esta jogada após revisão sugerida pelo VAR. Foto: Reprodução/TV Globo.

Neste mesmo Campeonato Brasileiro, outros tantos lances polêmicos foram marcados após consulta ao VAR, principalmente envolvendo penalidades e expulsões sumárias. Muitas das interpretações dos árbitros de campo, após a análise do vídeo, foram questionadas pela imprensa especializada e também pelos torcedores. O VAR e seu uso passaram longe de acabar com as polêmicas interpretativas.

Como sabemos lances envolvendo penalidades máximas, seja por toque de mão do zagueiro ou por contato físico, são puramente interpretativos. A prerrogativa da penalidade marcada ou não é totalmente do árbitro, independente do que a imagem mostrar. Entretanto é senso comum que o fato de marcação de um impedimento a imagem e seus avançados sistemas de cálculo, com a projeção de linhas no campo, é infalível. A tecnologia não erra. Será? Muitos dos impedimentos analisados pelo VAR são lances em que a diferença para o “estar” ou “não impedido” são de pouquíssimos centímetros, onde costumeiramente o atacante está indo em direção ao gol e o zagueiro vindo na direção contrária. Se a equipe que coordena o Vídeo não conseguir parar exatamente no momento do último toque, a marcação do impedimento já pode encontrar-se viciada. Um erro de milésimos de segundo, pode fazer a diferença de centímetros na marcação do impedimento. A tecnologia não é perfeita, apesar de ajudar bastante a equipe de arbitragem, pois o olho humano falharia em muitos dos lances, com distâncias até maiores, de 30 ou mais centímetros.

A tecnologia do VAR pode falhar, com um índice bem baixo, mas pode falhar. Entretanto, a maioria das decisões do VAR são interpretativas, com a imagem servindo apenas para auxiliar a equipe de arbitragem a tomar a decisão mais adequada para cada lance. E como os árbitros são seres humanos, são passíveis de falibilidade. E como as regras são interpretativas (faltas por contato, toques na mão, excesso de violência), qualquer árbitro é passível de erro em suas interpretações. A regra não é clara, ao contrário do ditado famoso do ex-árbitro que também errava bastante. Ela é interpretativa. E qualquer decisão do árbitro, mesmo usando da tecnologia propiciada pelo VAR, mesmo com o auxílio de uma equipe de assistentes de vídeo, ela sempre será questionada em sua interpretação; pelos torcedores, pelos comentaristas/narradores e principalmente pelos “especialistas” em arbitragem, que cometiam erros e mais erros interpretativos quando apitavam.

Por serem humanos, árbitros e assistentes têm convicções, sejam elas políticas, morais, religiosas, etc. E por serem humanos e por participarem do mundo do jogo de futebol têm também as suas concepções futebolísticas (leia-se preferências clubísticas). Não me venham dizer que não as possuem. Sim, possuem, como jornalistas, dirigentes, torcedores e quem mais que pertença ao mundo da bola. Eu conheço gente que não tem nenhuma preferência clubística. Sabem por quê? Porque não gostam de futebol, não se interessam em saber o que acontece nas quatro linhas. Seria leviano dizer que todos os árbitros atuam a partir de suas preferências, prejudicando a moralidade do jogo e nunca arbitram conforme as regras, mas é impossível pensar que cem por cento do tempo não interpretem as regras do jogo sem uma interferência, talvez até inconsciente, das suas convicções e preferências.

O árbitro Wagner do Nascimento Magalhães, após interferência do VAR, revê e anula gol de Pedrinho, do Corinthians, na final da Copa do Brasil de 2018. Foto: Divulgação/CBF.

Dizer que a arbitragem pode errar, mesmo com a utilização do VAR, em lances interpretativos também porque tem preferências, ou mesmo porque são humanos e humanos erram, é errado pois você, caro leitor, poderia me interpelar: “Ah, mas eles são humanos, mas são profissionais”. Esse é o grande ponto. A arbitragem, no Brasil principalmente, não é profissional. Árbitro de futebol recebe remuneração, é reconhecido como profissão, mas não atua sob regime profissional. Em outros lugares do mundo, como Inglaterra e Espanha, isso já ocorre. Além de utilizar o árbitro assistente de vídeo para dar mais crédito à arbitragem nacional e diminuir o número de erros (não extinguir), fica a sugestão de profissionalizar a arbitragem brasileira. Mas quem quer isso?

O VAR veio para ficar, como dito anteriormente, mas não quer dizer que com isso as decisões polêmicas, que de alguma forma romantizavam o jogo acabaram. De maneira nenhuma, as polêmicas continuam, com o debate interminável sobre a interpretação das imagens geradas no VAR. Com as jogadas, como impedimentos, penalidades máximas sendo marcados ou não pelo VAR a tensão e a euforia do torcedor acabaria. A tensão gerada nos intermináveis momentos de verificação do vídeo pelo árbitro e também as intermináveis conversas “ao pé do ouvido” entre o árbitro principal e o assistente de vídeo vêm gerando tensões tão grandes nas torcidas (a favor ou contra a marcação), tão grandes como anteriormente à presença do aparato tecnológico.

O VAR está aí e deve permanecer para sempre no futebol. Duvido que fique somente no teste e não perdure. As polêmicas continuarão. O VAR não terá o poder de mecanizar o jogo, sem emoções e discussões. Não acredito. Entretanto, faço um pedido aos responsáveis pelas organizações dos campeonatos e às respectivas comissões de arbitragem: maior transparência no uso do VAR. O VAR veio para tornar a arbitragem mais confiável, e para ela se tornar mais confiável ainda é necessário maior transparência perante os torcedores do uso dessa nova tecnologia. A Premier League inglesa já adota certa transparência ao mostrar a imagem de impedimentos no telão do estádio para todos os torcedores verificarem a decisão. É necessário fazer isso no Brasil e na América do Sul, e não somente mostrar a mesma imagem que o árbitro está vendo no vídeo na TV. Transparência significa que o torcedor possa saber e ver o que o árbitro está decidindo e por que está tomando esta ou aquela decisão. Que o VAR possa trazer mais profissionalismo e transparência à arbitragem do futebol.

Como citar

LIMA, Marco Antunes de. VAR bom é VAR polêmico. Ludopédio, São Paulo, v. 122, n. 32, 2019.