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Vaticínio de Lula: Diego

Alexandre Fernandez Vaz

Em 2002, os bastidores da vitoriosa campanha de Luís Inácio Lula da Silva para presidente da República geraram o documentário Entreatos, de João Moreira Salles, lançado pouco mais de um ano após o final da disputa eleitoral. Já na segunda metade do filme, vemos o candidato em Natal, Rio Grande do Norte, pouco antes de gravar uma peça de propaganda. Ele pergunta sobre o resultado de uma partida de seu time de coração, o Corinthians Paulista, aproveitando para pontuar que havia um garoto do Santos Futebol Clube que estaria comendo a bola, o Diego.

No mesmo ano daquelas eleições, o Corinthians tinha uma equipe muito forte, campeã do Torneio Rio São Paulo e da Copa do Brasil. Dirigida por Carlos Alberto Parreira, priorizava a posse de bola comandada pelo ótimo trio de meio-campo, Vampeta, Fabrício e Ricardinho, que, por sua vez, acionava os laterais Rogério e, principalmente, Kléber. Era ele que, com Ricardinho e Gil, formava o que o treinador chamava de a melhor ala esquerda do mundo. A dupla de zaga, técnica e segura, era composta por Fábio Luciano e Anderson, e no centro do ataque estava Deivid. No gol, nada menos que Dida, substituído por Doni ao longo da temporada. Um time muito bom, dava gosto de vê-lo jogar.

Diego Ribas comemora gol e é seguido por Robinho, dupla que fez sucesso com a camisa do Santos nos anos 2002-03. Foto: Reprodução/Santos FC.

Pois bem, essa mesma equipe não foi páreo para o Santos nas finais do Campeonato Brasileiro da Série A daquele 2002. Em duas partidas no Morumbi, a vitória santista se repetiu. Entrou para a história, porém, a segunda, cuja principal lembrança é a sequência de pedaladas de Robinho para cima de Rogério, que culminaram no pênalti cobrado pelo próprio atacante. O alvinegro praiano não contava com Diego, o principal articular do ataque, lesionado já antes da contenda. A esperança de que ela não fosse tão forte malogrou logo no primeiro minuto disputado, exigindo sua substituição. Aquele foi, de qualquer forma, o Santos de Diego e Robinho, ambos muito jovens, com dezessete e dezoito anos, respectivamente.

Envergando a mítica camiseta número 10 do time da Baixada Santista, Diego teve desempenho superior principalmente na fase final do Brasileirão, para a qual seu time se classificara na bacia das almas. Uma vez entre os oito melhores, o Santos cresceu, suas estrelas adolescentes igualmente. Em partida contra o São Paulo, em pleno Morumbi Diego fez gol e correu – inadvertidamente, ele diria – para comemorar sobre o símbolo do adversário, na lateral do campo, motivando uma rusga com o volante adversário Fábio Simplício, que lhe foi tomar satisfações. Antes de ser campeão brasileiro, o santista ainda ouviu de Vampeta, do Corinthians, que ele seria gato, ou seja, não teria ele apenas os declarados dezessete anos. A pouca idade seria incompatível com tanta segurança mostrada em campo. O garoto não se intimidou e o corintiano ainda teve que ouvir a mãe do adversário dizer que o filho de fato era um gato, ou seja, um rapaz muito bonito.

Diego Ribas, em treino da seleção brasileira no CT do São Paulo, preparava-se para as partidas contra Uruguai e Paraguai, pelas Eliminatórias de 2018. Foto: Lucas Figueiredo/CBF.

Eram tempos de vários jogadores com o mesmo nome (ou quase) – Diego Tardelli, Alves, Coelho (com y) – como certa vez destacou a comentarista Soninha Francine, mas o do Santos era geralmente nomeado apenas pelo prenome, o que talvez expressasse suma posição de destaque. Depois do Santos, o futebolista perambulou por vários times europeus, não antes de eu poder vê-lo atuar em Florianópolis, em jogo contra o Figueirense, pela Série A de 2004. A vitória foi do time da casa, gol do lateral-esquerdo Triguinho, que depois viria a atuar no próprio Peixe (e levar um drible desconcertante de Ronaldo, O Fenômeno, na final do Paulista de 2009). Foi uma pena que naquela tarde fria de domingo invernal Robinho tenha permanecido no banco de reservas, ele que vivia dias de castigo imposto pelo técnico Leão.

Só em 2012 assisti novamente ao vivo a uma atuação de Diego, agora pelo Wolfsburg, equipe da cidade em que a Volkswagen tem sua sede original, em que também atuavam os compatriotas Naldo e Josué. Foi, aliás, do primeiro, um dos gols do empate contra o Mainz, de cabeça, depois de escanteio cobrado, na medida, por Diego. Os dois já haviam atuado juntos, anos antes, no Werder Bremen. Como da primeira vez, em Floripa, fazia frio, mas agora muito mais, o jogo foi debaixo de perene nevasca na casa do adversário. Juventus Turim, Atlético Madrid e Fenerbahçe foram equipes que também contaram com o atacante antes da volta ao Brasil para jogar no Flamengo.

Diego esteve várias vezes na seleção brasileira, fez parte dos elencos que venceram as edições de 2004 e 2007 da Copa América, era titular da ótima equipe que não conseguiu se classificar para os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004. Embora tenha participado de partidas eliminatórias, não chegou a disputar uma Copa, o que o livrou das frágeis participações brasileiras nas últimas quatro edições do evento. Antes disso, como uma vez Parreira destacou, serviu às seleções de base dezenas de vezes.

No Rubro-negro, Diego teve momentos gloriosos, mas também situações difíceis, como a falha na disputa de pênaltis, o primeiro da série que seria vencida pelo Athletico, nas quartas de -final da Copa do Brasil do ano passado. O time do Paraná, aliás, chegaria ao título. É certo que o meia-atacante sempre se apresentou para as cobranças, como na final da Copa Intercontinental, em 2004, quando atuava pelo Futebol Clube do Porto, contra o colombiano Once Caldas, então campeão da Libertadores. Cobrou, converteu, devolveu uma provocação que lhe fizera o goleiro adversário, foi expulso.

Diego Ribas levanta a taça do Campeonato Brasileiro de 2019 diante da torcida do Flamengo. Foto: Marcos de Paula/ALLSPORTS.

Em 2019, uma lesão grave não foi suficiente para tirá-lo da final da Libertadores contra o River Plate, quando, ao sair do banco, acelerou o ritmo do jogo e foi decisivo no lançamento para o segundo gol de Gabriel Barbosa. Sim, Diego estava comendo a bola em 2002 e desenvolveu uma carreira que poucos poderiam sonhar, com muitos títulos e disputas de finais de Libertadores, Liga dos Campeões, Copa Uefa e Mundiais Interclubes. Mas, há algo mais. No Flamengo, o número 10 tem sido um interlocutor afetivo de famílias cujos filhos foram mortos há um ano, no incêndio do alojamento em que moravam, localizado no centro de treinamento do clube. Há certa covardia moral da qual Diego não participa. Respeitável.

Ilha de Santa Catarina, fevereiro de 2020.