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Veblen: um desconhecido precursor nos estudos sobre esportes

Wagner Xavier de Camargo

Há alguns meses, numa corriqueira conversa entre mim e Luiz Henrique de Toledo, antropólogo, sambista e meu supervisor de pesquisa, descobri Thorstein Bunde Veblen. Toledo me alertou para o potencial teórico reprimido de tal intelectual no campo de estudos dos esportes. Passado o tempo e algumas leituras que fiz, descobri que Veblen pode ser considerado um precoce fundador (porque ainda no século XIX) e, notadamente, um dos precursores teóricos junto com o holandês Johan Huizinga, da sociologia do esporte, subárea que ficou assim conhecida e legitimada a partir dos anos 1970 (DELANEY; MADIGAN, 2015).

Veblen nasceu em 1857, em Wisconsin, Estados Unidos, e era filho de imigrantes noruegueses pobres. Em sua formação acadêmica, tomou contato com algumas das Ciências Humanas (inclusive Antropologia), mas sofreu grande influência da Economia e de suas correntes teóricas. Passou por várias universidades estadunidenses de referência, não parando muito tempo em quase nenhuma delas. Sua performance como professor era bem abaixo da expectativa coletiva. No entanto, em 1899, ao ser despedido da Universidade de Chicago, Veblen publica seu mais notável livro: A Teoria da Classe Ociosa.

O mais interessante de tudo é que o teórico escreve sobre esportes dentro dessa clássica obra, publicada naquele ano. Ou seja, ainda nos anos finais do século XIX, demonstrando estar antenado com acontecimentos de sua época: Pierre De Freddy (o Barão de Coubertin) tinha empreendido esforços para o restabelecimento das competições esportivas, o que desembocou na realização das primeiros Jogos Olímpicos da Era Moderna (em 1896). Diria Veblen que “A competição moderna é, em grande parte, um processo de autoafirmação na base daquelas características da natureza predatória do homem” (VEBLEN, 1983, p. 117) e a posse dos traços referentes à competição é quase necessária à vida do indivíduo “moderno e civilizado”, porém não é minimamente útil à coletividade.

No livro, o autor trata de uma classe de indivíduos que se abstém do trabalho produtivo (o que ele denomina de “classe ociosa”). A partir disso, ele analisa a estrutura econômica de sua época e desenvolve críticas sobre o que designa como “ostentação” das classes mais favorecidas. De importância fulcral são as descrições e análises do que denomina “consumo conspícuo” (consumo ostentatório) e do “lazer conspícuo”, pois representam tentativas de explicações teóricas do crescente papel do consumismo esportivo (já naquela época), presente nas sociedades ocidentais e, em particular, nos Estados Unidos. Veblen se utiliza do termo ostentação para descrever uma classe rica em formação (ou os chamados nouveau riche), que se dedicava a comprar artigos de luxo como meio de demonstrar status social superior. Como parte de um mecanismo perverso, os nouveau riche buscavam aprovação das classes econômicas mais abastadas e inveja das classes mais subalternas. Tal consumo e lazer ostentatórios referiam-se a um estilo de vida no qual a busca pelo lazer e a aparência de privilégios de ostentação seriam fundamentais para o comportamento social de um indivíduo.

Os esportes, para ele, tinham um mesmo caráter geral (das touradas ao iatismo, passando pelo atletismo, pesca, tiro ao alvo e outros jogos): “A base da inclinação para o esporte é uma constituição espiritual arcaica – a posse de uma inclinação predatória emulativa em potência relativamente alta” (VEBLEN, 1983, p. 115). A emulação, ou sentimento de tentar se igualar a ou superar outros, atingia graus pernicioso e predatório máximos no esporte, um hábito da classe ociosa, pelo qual ela governa e domina a sociedade.

Mas o mais inusitado de tudo é que Veblen não escolheu o esporte como tema principal de seu livro e sim o tratou dentro de um leque de possibilidades para pensar como as instituições funcionavam nos mundos econômico e social em voga. Ele foi considerado o fundador da “escola institucionalista” no pensamento econômico. Em sua perspectiva analítica, instituições são hábitos ou rotinas de condutas bastante arraigadas num determinado momento histórico.

Thorstein Veblen. Foto: Divulgação.

Os institucionalistas tratavam criticamente, por exemplo, da propriedade absenteísta (o hábito ordinário na economia capitalista de então do dono do negócio não ser quem, efetivamente, o dirige), da financeirização da riqueza (os papeis que vinculam indivíduos e suas posses) e da emulação (hábitos de comparações invejosas e desejos das pessoas de serem reconhecidas como melhores do que outras).

Como explica Maria Hermínia Tavares de Almeida, na apresentação do autor numa edição especial de “Os Economistas”: os institucionalistas defendiam reformas democráticas que permitissem uma distribuição mais igualitária dos bens e da renda e, sobretudo, “negavam que o sistema de preços e o livre jogo das forças de mercado, por si mesmos, levassem à alocação adequada dos recursos e à distribuição equânime da renda. Estavam preocupados com custos sociais e benefícios sociais” (ALMEIDA, 1983, p. IX). Além disso, eram contrários a argumentos mais clássicos que davam conta de uma “natureza humana hedonista” e negavam que o comportamento econômico pudesse ser considerado uma ação racional e orientada dos indivíduos com fins a obter prazer e minimizar a dor.

Segundo ainda esta teórica, as ideias dos institucionalistas “materializaram anseios de reforma social existentes entre as camadas médias, pequenos proprietários rurais e urbanos, intelectuais reformadores, organizações de consumidores, sindicalistas; enfim, entre o amplo espectro social daqueles que acreditavam poder limitar a ação dos grandes interesses e subordiná-los aos desígnios da maioria” (ALMEIDA, 1983, p. X). A escola institucionalista vigorou num momento de transição do capitalismo norte-americano, basicamente se oferecendo como alternativa aos modelos econômicos pautados nas grandes empresas oligopólicas (da produção e do sistema financeiro).

Veblen sugeriu que o vício em esportes requer um gosto pela futilidade e um grau substancial de emulação. Diz que esportes como caça, pesca e mesmo jogos atléticos ofereciam exemplos à explicitação de uma emulação feroz e prejudicial, e, portanto, apresentando características predatórias (desnecessárias para ele). A vida impulsiva do indivíduo (substancialmente uma vida de ações impulsivas) resultava em uma intencionalidade imediata e irrefletida na prática dos esportes. Cita, como exemplo, a morte sem necessidade de animais na caça esportiva, por exemplo: “Essas necessidades ostensivas podem ser satisfeitas mais pronta e plenamente sem o acompanhamento de um esforço sistemático para tirar a vida das criaturas que compõem uma característica essencial daquela ‘natureza’ amada pelo esportista” (VEBLEN, 1983, p. 115-116). A atividade do esportista, seria, portanto, manter a natureza em estado de “desolação crônica” (intacta, em outras palavras) diante da matança de animais e “coisas vivas”.

Veblen viveu pobre e pouco conhecido a maior parte de sua vida. Participou de uma iniciativa, junto a outros acadêmicos e intelectuais progressistas, da formação da New School of Social Research, em Nova Iorque, em meados dos anos 1920. Segundo consta, entre a publicação de seu segundo (primeira década do século XX) até sua morte em 1929 na Califórnia, Veblen teve uma produtiva fase de escrita, tendo publicado inúmeros livros.

No universo de pesquisas em economia, pode ser que Veblen e os institucionalistas sejam lidos e criticados, principalmente pelo viés evolucionista de seus escritos. Porém, dentro dos estudos sobre esportes no Brasil, o autor ainda é uma agenda desconhecida de pesquisa. De uma simples conversa, eis que todo um campo de investigação emergiu. Este texto teve por objetivo destacar para atuais e futuras/os pesquisadoras/es do esporte o potencial teórico de Thorstein Veblen. Deixo, portanto, a sugestão!

 

Para conhecer mais:

ALMEIDA, Maria Hermínia Tavares de. “Apresentação”. In: VEBLEN, Throstein B. A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. São Paulo: Abril Cultural, 1983. p. VII-XVII.

DELANEY, Tim; MADIGAN, Tim. The Sociology of Sports: an introduction. Jefferson/North Carolina: Mc Farland & Company, Inc. Publishers, 2015.

VEBLEN, Throstein B. A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. São Paulo: Abril Cultural, 1983.