52.7

Verde e Amarelo Rubro-Negro

Antônio Máximo Medeiros da Rocha

“A adesão às cores de uma instituição ocorre de acordo com as representações sociais que passam a compor a identidade de um clube de futebol.” (COUTINHO, 2013, p.8)

Este trecho, que me chama logo a atenção, é revelador de como o futebol mobiliza e condiciona o registro. Lembrei-me do cenotáfio de Benedict Anderson. Também de Freud, em “Escritos sobre a Guerra e a Morte”, sua desconfiança com o exagero do número dos homens transformados pela cultura. E não é levar muito longe considerar na força social rubro-negra condicionamentos anteriores à capacidade de escolha de um indivíduo, assim como não há, na Catalunha, outra alternativa para o moleque senão torcer para o Barcelona. Pularia, portanto, este trecho para ir direto à formulação do problema: o recorte, 1933-1955, e o argumento da popularização do Flamengo, encetado a partir do profissionalismo implantado no futebol nos anos 1930 e concomitante à modernização autoritária do estado brasileiro, no desdobramento do Estado Novo, na busca de fontes populares para a política cultural nacionalista. Trata-se da contribuição rubro-negra a uma questão que mobiliza diferentes autores, com concepções distintas, à direita e à esquerda no campo teórico.

Liberal, Ernest Gellner, enxergando na industrialização europeia a condição de existência do nacionalismo, considera que o capitalismo moderno, destarte, fornece a parafernália técnica integrativa a exigir um conteúdo de escala equivalente. Benedict Anderson concorda, falando em “capitalismo editorial” e “vernaculização”. A imprensa e a escola padronizam a língua de transmissão da história da nação, marcada por heroísmo e grandeza. A organização social passa a ser regida por referentes estabelecidos pela língua padrão, sem cujo uso ficam reduzidas as possibilidades de comunicação e entendimento. Em contrapartida, não à toa, na modernidade, a importância do código no reconhecimento identitário, com grupos buscando afirmação e distinção através de linguagem simbólica própria.

Cristo Redentor. Ilustração: Antônio Máximo Medeiros da Rocha.

O nacionalismo buscava a homogeneização, relegando as especificidades, porque seu propósito era a unidade. Uma ação tão mais intolerante quanto maior os riscos à hegemonia, de que os períodos mais críticos podem ser observados no início da modernização industrial que, na Europa, no século XIX, se confunde com a formação e institucionalização do Estado nacional e, no Brasil, adiante, nos anos 30 do século passado, no Estado autoritário sob Vargas. Cabe, pois a pergunta: o combate ao nacionalismo, nesses termos, é uma luta por democracia, democracia compreendida como um meio de constituição de direitos?

A semelhança no pensamento de Gellner e Anderson termina antes de começar a resposta. Gellner tem razão, mas em parte. A força dos meios não é suficiente. Se fosse, qualquer conteúdo seria imposto. E o nacionalismo, conforme Anderson, é muito mais do que ideologia, guarda afinidade com a religião pelo aspecto que encerra. Futebol e nacionalismo, pelo sagrado que encerram, não se restringem, respectivamente, nem ao ópio do povo nem à classificação política.

O clube, quando transformado em símbolo, constitui um meio de influência sobre o imaginário. Ajuda a nos percebermos, como nos comportamos. A popularidade do Flamengo seria uma tradição inventada. Conforme Hobsbawm, uma prática inventada, ligada artificialmente a um passado que não existiu ou a um passado remoto e que se afirma através da invariabilidade e da repetição.

Era do Caveirão. Ilustração: Antônio Máximo Medeiros da Rocha.

Na tese de Coutinho, até onde li, a reconstrução simbólica rubro-negra amadurece com o título de 1939. Surge o “campeão do povo”, reiterado pelos jornais. É o Flamengo retomando suas “tradições”, após 12 anos sem título. Uma década perdida muito conveniente, serviu à estratégia de preenchê-la com uma suposta ansiedade popular por conquistas. O Flamengo não era exatamente um instrumento nem estava a serviço do Estado em processo de modernização autoritária, mas inscrevia-se à perfeição no projeto nacionalista que buscava – vale repetir – as fontes de uma cultura popular. Um exemplo de consenso, da conciliação de interesses no interior do poder. A reconstrução simbólica ensejada pela direção do clube na década da profissionalização do futebol, buscando o povo.

“O fato é que dizer que as nações são inventadas não resolve problema algum. Como afirma o antropólogo Roy Wagner, não há como não inventar culturas, do mesmo modo que não há como manter as suas patentes intactas: elas estão aí para ser copiadas e modificadas” (SCHARWACZS, 2011, p.14)

A citação de Lilian Scharwaczs, na apresentação que escreve para o livro de Benedict Anderson, demonstra que a Antropologia não é só o conforto do consenso. Também, através da imaginação, implica conflito, aproximando a cultura popular da ideia de E. P. Thompson em “situá-la no lugar material que lhe corresponde”.

Não seria uma bela pretensão, a partir do Flamengo, ser capaz de interpretar a contradição da paixão política?

Referências Bibliográficas

ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas: reflexões sobre a origem e a difusão do nacionalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

COUTINHO, Renato Soares. Um Flamengo grande, um Brasil maior: o Clube de Regatas do Flamengo e o imaginário político nacionalista popular (1933-1955). Rio de Janeiro: UFF (Tese de doutorado), 2013.

THOMPSON, Edward Palmer. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Como citar

ROCHA, Antônio Máximo Medeiros da. Verde e Amarelo Rubro-Negro. Ludopédio, São Paulo, v. 52, n. 7, 2013.