139.10

Viagem real ao apartheid

José Paulo Florenzano

De todos os cantos do país chegavam ônibus e automóveis que “não paravam de despejar gente” na cidade. Não havia mais nenhum quarto de hotel ou mesmo de pensão disponível para os forasteiros e os ingressos para a partida já estavam esgotados. Ingressos falsos, no entanto, criaram um público excedente que foi preciso acomodar dentro de campo, ao redor do retângulo de jogo. Conforme a peculiar expressão de um jornalista estrangeiro, a partida entre Real Madrid e a Seleção Nacional da África do Sul havia ocasionado uma “enchente total” de gente na cidade de Johannesburgo.[1]

Sem dúvida, tratava-se de um “acontecimento esportivo sensacional”, promovido em conjunto pela Liga Profissional de Futebol e pela Associação Nacional de Futebol, ambas as entidades representativas da minoria branca que dominava a África do Sul.[2] Os merengues, indiferentes às questões raciais, desembarcaram em setembro de 1964 em Johannesburgo com todos os astros do time, exceção feita a Di Stéfano que àquela altura se achava de saída para o Espanyol de Barcelona. Mas para deleite das mais de 40 mil pessoas que superlotaram o Rand Stadium, a principal praça de esportes do país, Puskas, Gento e Santamaría atenderam às expectativas, contribuindo de forma decisiva para a goleada de 5 a 2 contra os anfitriões.

A iniciativa de convidar o Real Madrid revelara-se um sucesso total, tanto no plano artístico, devido à exibição de gala dos merengues, quanto no plano econômico, em virtude dos lucros auferidos pelos promotores locais do evento, dentre os quais incluía-se a fábrica de cervejas Castle Beer.[3]   

Real Madrid antes da final da European Cup 1965/66 contra o FK Partizan, no Estádio Heysel, em Bruxelas: um time completamente branco. Foto: Wikipedia.

E, no entanto, se levarmos em consideração o contexto histórico que emoldurava o celebrado amistoso, não há como evitar a sensação de um gosto um tanto quanto amargo, provocada pela incursão do “famoso clube espanhol” no campo do apartheid. De imediato, convém salientar que não se trata de anacronismo. Com efeito, no momento em que se realiza a visita real, a África do Sul já tinha sido excluída da Confédération Africaine de Football (CAF) e já havia sofrido a primeira suspensão da Fédération Internationale de Football Association (FIFA) em razão do regime de segregação racial implantado no país. O boicote esportivo ao apartheid, portanto, achava-se em curso, mas foi solenemente ignorado pelos dirigentes do clube merengue. A viagem pelo “país do homem branco”, na verdade, inseria-se em um quadro de naturalidade, impressão certamente acentuada pelo contexto político da Espanha, submetida à época à ditadura do general Francisco Franco.[4]

Coincidência ou não, o Real Madrid foi à Johannesburgo com uma delegação formada exclusivamente por atletas brancos, revelando, sob este aspecto, alinhamento ideológico com o regime de segregação racial, pois, como esclarecia o ministro do Interior, Johannes De Klerk, embora não houvesse uma norma legal proibindo a realização de jogos inter-raciais, as “competições entre equipes brancas e não brancas” não eram “toleradas”.[5] A excursão da Portuguesa Santista, em 1959, ilustrava de forma emblemática a tese esgrimida pelo ministro do Interior. Com vários jogos agendados no país, a equipe brasileira desembarcou na Cidade do Cabo sem os atletas negros do elenco, desligados da delegação justamente para atender às exigências do apartheid. O episódio, porém, ganhou repercussão internacional, contribuindo para a suspensão da África do Sul dos quadros da FIFA.[6]

Se, no entanto, os dirigentes do Real Madrid não sentiram qualquer constrangimento moral ou legal para selar o acordo e realizar o amistoso em Johannesburgo; os do Santos, em contrapartida, mostraram-se mais cautelosos em agendar partidas “no país do homem branco”. Embora tenham sido assediados em diversas oportunidades ao longo das excursões da equipe de Pelé ao continente africano, empreendidas entre os anos de 1966 e 1973, declinaram todos os convites que lhe foram apresentados, inclusive, os formulados pelas federações negras de futebol cooptadas pelo governo de Pretória. Mas, eis a questão: por qual motivo? À primeira vista, a pergunta soa desprovida de sentido, uma vez que a resposta parece óbvia: por causa da opressão racial. Duas notícias veiculadas na imprensa brasileira, à época, indicam que a resposta talvez não seja tão simples assim. Senão, vejamos.

Equipe santista campeã paulista de 1969, composta por atletas negros e brancos. Foto: Reprodução/Acervo Histórico do Santos FC.

A primeira notícia diz respeito à excursão realizada no início de 1969. Ela incluía no roteiro Moçambique. Ali, na capital da então colônia portuguesa, Lourenço Marques (atual Maputo), o Santos deveria enfrentar a equipe do Áustria Viena em um concorrido evento internacional. Aproveitando a proximidade com a metrópole sul-africana, segundo informação da Agence France-Presse (AFP), os dois clubes decidiram solicitar permissão à FIFA para a realização de dois amistosos em Johannesburgo.[7] A solicitação se justificava uma vez que a África do Sul se achava novamente suspensa pela FIFA.

O vaivém das medidas refletia o jogo de forças dentro e fora da entidade: suspensa pela primeira vez em 1960, no Congresso de Roma, a África do Sul tinha sido readmitida dois anos depois por inciativa do presidente da FIFA, Stanley Rous. Mas logo após a visita do Real Madrid a Johannesburgo, no Congresso de Tóquio, em 1964, a suspensão acabou sendo reintroduzida pela assembleia geral da entidade, razão pela qual em 1969, de acordo com a AFP, Santos e Áustria solicitaram a referida autorização, sob a justificativa de que jogariam somente “entre eles e não contra times locais”.[8] Esta ressalva, ao que parece, possuía como destinatário o governo de Pretória – como salientado mais acima – contrário à realização de encontros inter-raciais no país.

A segunda notícia remete-nos à última excursão do Santos de Pelé ao continente. No início de 1973, o mero noticiário a respeito de uma suposta viagem do alvinegro à Johannesburgo bastara para desencadear a imediata e contundente reação dos governos independentes das nações africanas, como registrava o correspondente de A Tribuna: “as equipes africanas continuam afirmando que cancelarão as apresentações do Santos em seus países se houver algum jogo da equipe brasileira na África do Sul”.[9] Não havia, definitivamente, clima político para burlar o boicote esportivo imposto pela comunidade internacional ao regime de segregação racial. O simples rumor nesse sentido tinha sido suficiente para suscitar apreensão na diplomacia nacional, a ponto de o Itamaraty enviar telegrama à delegação do Santos, cobrando esclarecimentos e exigindo desmentidos.

Time santista campeão paulista de 1973, novamente composto por atletas negros e brancos. Foto: Reprodução/Santos FC.

O material jornalístico envolvendo possíveis jogos do Santos no campo do apartheid, deve, sem dúvida, ser tomado com cautela e confrontado com novas fontes. Por outro lado, podemos afirmar com relativa segurança o fato de que os convites foram feitos e recusados. A real razão pela qual foram recusados, no entanto, constitui uma questão em aberto. Talvez não haja uma única resposta, ou, dito de outra forma, a resposta ao que tudo indica contempla inúmeros e contraditórios fatores: princípios éticos; pressões políticas; interesses econômicos; riscos diplomáticos e sanções esportivas.


Notas

[1] Cf. “O Real Madrid bateu a África do Sul por 5-2 no grande encontro de ontem à noite no Rand Stadium”, Notícias, de Moçambique, 9 set. 1964.

[2] Cf. “O Real Madrid jogará em Johannesburgo a 8 ou 9 de setembro”, Notícias, de Moçambique, 9 ago. 1964. Por Associação Nacional de Futebol da África do Sul o jornal da então colônia portuguesa, ao que tudo indica, referia-se à Football Association Southern Africa (FASA), entidade que reunia apenas as equipes formadas por atletas brancos.

[3] Cf. “Vimos jogar o Real Madrid!” A.M. Freire, Notícias, de Moçambique, 10 set. 1964.

[4] A expressão “país do homem branco” foi cunhada nos anos cinquenta pelo ministro dos Assuntos Indígenas da África do Sul, Hendrik Verwored. Cf. Coquerel, Paul. La nouvelle Afrique du Sud. Paris, Gallimard, 1999, p. 102.

[5] Cf. Alegi, Peter. African soccerscapes: how a continente changed the world`s game. Ohio, Ohio University Press, 2010, p. 72.

[6] Sobre o episódio da Portuguesa Santista ver Florenzano, José Paulo, “Brasil e África do Sul: o futebol-arte no campo do apartheid”. In: Futebol: objeto das ciências humanas. Organização: Flávio de Campos e Daniela Alfonsi. São Paulo, Editora Leya, 2014.

[7] Cf. “Santos e Áustria solicitam à FIFA que permita 2 jogos entre eles na África do Sul” Jornal do Brasil, 28 jan. 1969.

[8] Cf. “Santos e Áustria solicitam à FIFA que permita 2 jogos entre eles na África do Sul” Jornal do Brasil, 28 jan. 1969. A expulsão da África do Sul dos quadros da FIFA ocorreria somente em 1976, no Congresso de Montreal, já sob a gestão do presidente João Havelange.

[9] Cf. “Arábia vê o Santos, África do Sul, não”, A Tribuna, 9 fev. 1973.


Como citar

FLORENZANO, José Paulo. Viagem real ao apartheid. Ludopédio, São Paulo, v. 139, n. 10, 2021.