25.9

Vida e futebol a caminho do aeroporto…

Luisa Prochnik

– O Bruninho vai ser jogador de futebol!

A afirmação foi feita por um falante papai taxista. A certeza de que o destino do filho será nos gramados vai muito além da confiança no talento do pequeno Bruno. É a paixão pelo futebol, intensa e irracional, como todas as saudáveis paixões, que movimenta os sonhos do taxista. E a paixão, diz ele, foi de pai para filho, quando o pequeno, ao ver Flamengo e Grêmio pelo Brasileirão 2009, grita: “entega”.

– Ele sabia que se o Grêmio vencesse o campeão era o Internacional.

Como poderia Bruninho, jogador de três anos da divisão dente-de-leite do Grêmio, não saber que era melhor o Grêmio perder uma partida ao rival Internacional ganhar um campeonato? “Entega”! Bruninho é filho dessa rivalidade. O pai-taxista, da família de um ex-presidente do clube, num esquema Romeu e Julieta dos gramados, apaixonou-se por uma colorada, neta de um ex-presidente, mas que vestia vermelho em vez de azul. A simpatia do taxista, pelo visto, também conquistou o sogrão.

– Ele gostava de mim.

Combinação que deu certo – colorada e gremista juntos há quinze anos – materializada no pequeno futuro grande jogador.

– Bruno? É Grêmio, imortal!

A cada acelerada e freada, mais e mais histórias de futebol. Nós, eu e uma amiga, duas estranhas no banco de trás, simpatizamos com o alegre taxista, o mesmo que anos atrás driblou a rivalidade e conquistou a noiva e o sogro. Mas o futebol em família não parava por aí.

– Você sabe quem é meu tio?

Respondo, de bate-pronto, o único nome que me vem à cabeça:

– Renato Gaúcho?

– Pois é, meu tio.

Achei curioso pensar no Renato como tio do agora meu amigo taxista, mas, sendo assim, gostar de falar seria uma característica da família, pensei.

– Conheço bem o Rio de Janeiro, joguei lá por cinco anos.

Confesso que nesse momento passei a olhar para o taxista tentando lembrar de algum jovem jogador que tenha aparecido e sumido dos gramados cariocas. Enquanto isso, o tom do discurso muda, a animação dá lugar à narrativa de momentos difíceis. O taxista ex-jogador foi uma das milhares e milhares de crianças que sonhou tanto com futebol…mas que não chegou à fama daquele seleto grupo de estrelas. O outro lado do futebol-espetáculo…

– Duas pessoas que cortei: Edmundo, aquele ex-presidente do Flamengo. E Eurico Miranda. Não me deram chance. Mas, no Fluminense, foi chegar lá, fazer o teste e no dia seguinte, maravilha, eu estava treinando…

Mas aí veio o triste fim.

– Uma lesão no joelho, igual a do Ronaldo, me tirou dos campos.

Tristeza rápida que é logo substituída pela alegria de um dia poder ver seu filho cumprir seu destino nos gramados. O pequeno jogador dente-de-leite reviverá o sonho do pai…em grande estilo, ele acredita.

Sonho de criança. Foto: Cristiano Peçanha Corrêa.

Na minha defesa da dissertação, o professor José Carlos Rodrigues contextualizou suas observações com um belo discurso sobre o futebol no Brasil. Não o futebol profissional, esse pelo qual torcemos e pagamos caro para ver, o esporte espetáculo, profissional e patrocinado. Ele falou do futebol que nasce com o brasileirinho. Nas brincadeiras de futebol de botão e de prego, nas peladas com os amigos, na corrida desenfreada para o recreio para não ficar de fora, na reserva…

– Aqui vai ser o novo estádio do Grêmio, é a obra mais adiantada para a Copa.

O papo segue com reclamações, minhas e dele, sobre os altos gastos e a lentidão na preparação para o torneio, até que…

– Estamos no aeroporto Salgado Filho.

Saímos do táxi e me despeço, com uma aposta e um aviso:

– Espero ver um dia o Bruninho no Maraca. Só não pode ganhar do Mengão.

Ele abre um sorriso orgulhoso e, tão animado diante dessa perspectiva, seu ‘tchau’ vira quase um ‘até logo’. Eu e minha amiga vamos embora, as duas com um sorriso no rosto, após o alegre papo com aquele ex-jogador, pai orgulhoso e animado taxista.

Como citar

PROCHNIK, Luisa. Vida e futebol a caminho do aeroporto…. Ludopédio, São Paulo, v. 25, n. 9, 2011.