119.7

Vida e morte dos grandes estádios norte-americanos

Gilmar Mascarenhas

(Participação especial de Christopher Gaffney)

 

Depois de México e Bolívia neste início de 2019, chegou a vez dos Estados Unidos. Entre 3 e 7 de abril, participar do Encontro Anual da AAG (American Association of Geographers) na cidade de Washington DC, propiciou-me uma primeira experiência em estádio de futebol por estas terras. Muito mais por dever de ofício que por interesse propriamente dito, já não alimento o menor fascínio pelo mundo esportivo norte-americano. Afinal, estranho um país no qual o “deporte rey” ocupa no máximo a quinta colocação na preferência popular, a despeito da vasta presença de migrantes provenientes de dezenas de nações essencialmente “futboleras”.

Desta vez estive acompanhado do amigo e grande parceiro de estudos sobre (e paixão por) estádios, o também geógrafo Christopher Gaffney, que aparece como colaborador deste texto. Em 2005, quando o processo de arenização ainda engatinhava no Brasil, publicamos juntos o seminal artigo The soccer stadium as a disciplinary space na revista Esporte e Sociedade, trabalho que já havíamos apresentado em evento sobre Michel Foucault, em Floripa. Depois vieram outros. São dezesseis anos de amizade, de trabalho e de estádios mundo afora, incluindo um inesquecível Fluminense x Santos no Giulite Coutinho, Baixada Fluminense, em 2003, com vitória santista por 4 a 1, apesar do baixinho Romário jogar e marcar pelos cariocas. Obrigado, Chris Gaffney, por tudo que vivenciamos e aprendemos juntos, e agora por esta oportunidade de mergulhar brevemente no universo futebolístico estadunidense guiado por um grande conhecedor. Além de estudar o futebol e ter publicado o livro abaixo, Chris já foi jogador semiprofissional e professor de “soccer”.

Naquele 2003, Gaffney fazia sua primeira de muitas visitas ao Brasil (país que mais tarde o abrigou como professor visitante na UFF, entre 2011 e 2015) e quando se deparou com a precariedade de parte da fachada de alvenaria inacabada do Giulite Coutinho imediatamente sintetizou: “um estádio-favela”. Achei genial disparar aquele comentário insólito e logo pensei: “é dos meus”. Pois compartilhamos este olhar que busca detectar aspectos essenciais da cidade (amiúde pouco percebidos) em seus estádios. Neste mesmo ano também assistimos, no Caio Martins (que saudade deste estádio!) um eletrizante empate entre Botafogo e Palmeiras, pelo quadrangular final da série B nacional, com defesas incríveis do goleiro alviverde Marcos.

O título deste artigo homenageia o grande clássico escrito pela ativista norte-americana Janet Jacobs, livro publicado em 1961 e que permanece, com impressionante vitalidade, como uma das mais contundentes reflexões sobre o espaço urbano de nossos dias. A jornalista militante Jacobs enfrentou durante anos o então “czar” do planejamento urbano modernista-rodoviarista Robert Moses, contra a lógica da cidade “máquina-do-crescimento”. Contribuiu para brecar a imposição de vias expressas (como aquela que destruiria o West Village, em Nova Iorque) em favor da vida comunitária e da valorização do espaço público. Nossa abordagem dos estádios se alinha em muitos aspectos com esta perspectiva de uma cidade plural e de convívio, em detrimento do modelo pautado pelo consumo individual(ista), tendencialmente motorizado, de enclaves, que desertifica as calçadas e praças, silencia a vida pública e a própria potência da cidade enquanto espaço de interações.

Aterrissemos, pois, em Washington, capital. Numa ensolarada tarde primaveril de sábado, dia 6 de abril, o D.C. United FC enfrentava o temível líder do milionário campeonato da MLS (Major League Soccer), o Los Angeles FC, até então invicto na sétima rodada. Partida realizada no Audi Stadium, estádio muito novo, inaugurado em julho de 2018, que apesar do modesto porte custou 500 milhões de dólares. Sua capacidade para apenas 20.600 pessoas está, todavia, bem de acordo com as novas tendências do soccer por aqui: impressiona a forte redução do porte dos estádios norte-americanos em suas mais recentes reformas. Um deles, o RFK Memorial Stadium, de 1961, também localizado em Washington DC, em 2017 reduziu de 45 mil para apenas 20 mil sua capacidade. A propósito, o RFK era estádio de futebol americano dos Washington Redskins (um nome que reflete o racismo banalizado nestas terras, segundo Gaffney). Outros foram mais radicais, reduzindo de 60 mil para um terço desta capacidade. Exceções, como o monumental Mercedes-Benz Arena em Atlanta (72,000), também recém-construído, são equipamentos que todavia não se limitam ao “soccer”. 

À distância, o acanhado porte do Audi Stadium, em meio a zona urbana em expansão (obras) e automóveis de alto padrão. Autor: Gilmar Mascarenhas, 06/04/2018.

O processo de redução dos estádios tem a ver com a própria consolidação dos chamados soccer-specific stadiums nos Estados Unidos. O país tem longa tradição de estádios, desde meados do século XIX quando o beisebol já começava a atrair multidões. O futebol por aqui foi crescendo gradativamente à sombra de outras modalidades bem mais consolidadas, de forma a utilizar durante décadas as estruturas preexistentes. Teve assim que conciliar o uso dos estádios com outras modalidades, sempre em condição de inferioridade, por sua menor popularidade. Nos estádios de futebol americano, o “soccer” tinha de se adaptar a campos de pequena dimensão e conviver com vastas arquibancadas vazias. O primeiro soccer-specific stadium surgiu há exatos vinte anos, em Ohio: o Mapfre Stadium, do Columbus Crew, que já nasceu para apenas vinte mil assistentes.

Estádios pequenos e de sofisticada tecnologia são, obviamente, para poucos. Elitização e privação do urbano para muitos, acrescentaríamos. Elitização que se expressa até mesmo em gestos banais de desperdício ostentador, como atirar no campo toda a cerveja (não os copos) para celebrar um gol ou momento especial, ritual coletivo que presenciamos ao final do jogo e também quando o bom goleiro do time da casa defendeu um pênalti, logo no início da partida. Cerveja muito cara por sinal: treze dólares um “pint”.

 O “naming rigths” do estádio e o enorme símbolo da Volkswagen estampado na frente e bem no centro da camisa do United vestida pelo torcedor local Schuyler Cunningham (amigo de Gaffney e seu ex-aluno de futebol), expressam muito bem a arraigada (de certo modo anacrônica) força do setor automobilístico por essas bandas. Bem como reflete, em geral, a onipresença do setor corporativo no campo esportivo norte-americano.

Segundo depoimento do mesmo Cunningham, a torcida do United protestou durante e logo após a construção do novo estádio, preocupada com a elevação do preço dos ingressos e do próprio aumento dos custos deste para o clube, que antes jogava no supracitado RFK Memorial Stadium. No dia da inauguração do Audi Stadium, duas das três torcidas organizadas realizaram uma marcha até o estádio, com o seguinte slogan: “O Audi Field não é um #StadiumForAll, é um #StadiumForTheFew”. Principal motivo: perderiam acesso com preço reduzido a determinados ingressos, privilégio que seria mantido apenas para a torcida Screaming Eagles (falaremos delas mais adiante). Mas foram vitoriosos na luta, ao menos nesta causa mais “particular”.

 

A área em que foi construído o estádio, em South West Washington (numa valorizada península entre o Rio Anacostia e o Canal Washington), encontra-se em pleno “desenvolvimento”, como se diz aqui para tratar de renovação urbana, com intensa atividade do setor imobiliário, derrubando e construindo prédios de luxo em ritmo frenético. O Nationals Park, estádio de beisebol muito maior que o Audi, a apenas duas quadras dali, é de 2008, também cercado de sofisticados prédios em construção. Um deles, já concluído e habitado, oferece terraços com vista privilegiada para o campo. Numa cidade tão suburbanizada, temos a surpresa de dois novos estádios “inner-city”, que bem demarcam a tendência atual: quanto mais se sofisticam os equipamentos esportivos, menores eles podem ser em capacidade de público, causando menos problemas para o entorno, ao mesmo tempo em que podem contribuir para valorizar a área. No caso da Fórmula 1, esta tendência é muito clara, como por exemplo no circuito de Baku.

Nationals Park ao fundo e o luxuoso edifício repleto de varandas com vista privilegiada para o estádio. Autor: Gilmar Mascarenhas, 06/04/2018.

Sendo área gentrificada, de uso predominante residencial-corporativo, o entorno do Audi não conta com bares. Por isso aproveitam uma área vazia, fruto da especulação imobiliária, para instalar em dias de jogo um autêntico beer garten. Espaço informal, mas com preços salientes.

Todos os ingressos foram vendidos, lotação máxima em função da importância da partida e do bom tempo (sol e começo da primavera): é comum ouvir por aqui que ir ao estádio é sair para tomar ar fresco, o que bem reflete uma vida urbana enclausurada entre condomínios e shoppings centers, fenômeno típico das cidades nas quais reina o transporte motorizado individual.

Longa fila para enfrentar o controle na entrada: não se pode portar nem água, forçando o consumo no recinto. Mas não houve maiores averiguações, ao contrário da experiência mexicana. E como o estádio se propõe “sustentável” não há ingressos de papel – tudo tem que passar pelo celular. Depois da teatralização do esquema de segurança (o detector de metais não funcionava), o torcedor é obrigado a passar o código de barras numa máquina com um atendente avaliando o processo. Para testar o sistema, Gaffney exibiu só um código e três pessoas passaram enquanto Cunningham falava com o atendente. “Teatro puro”, diz Gaffney, “como nos aeroportos”.

Lá dentro, em momento algum o estádio pareceu acolher 20 mil assistentes, pela quantidade de assentos vazios. O motivo entendi depois: estão todos sempre consumindo, circulando por outros espaços, enfrentando imensas filas para adquirir cervejas, refrigerantes, pizzas, churros e hot-dogs. A presença de porta-copos nos assentos é outra marca bem local, assim como vemos nos automóveis os motoristas ingerindo café ou gigantescos copos de milk shake ou refrigerante. Por fim, essa constante circulação de gente em recintos alheios ao que acontece no campo de jogo expõe também uma outra forma de engajamento no estádio: uma forma de “torcer” bem mais branda que a latino-americana. Estádio como puro “entertainment”. 

Autor: Gilmar Mascarenhas, 06/04/2018.

Muitas dezenas de setores compõe a complexa estrutura interna do estádio, revelando uma hipersetorização que busca a precificação em nível máximo. Precificação que varia também conforme o jogo. Encontramos ingressos a preços salgados, devido ao especial apelo atrativo da partida, variando entre 45 e 400 dólares (para a rodada seguinte, numa terça à noite e contra adversário bem mais modesto, preços variam de U$ 25 a U$ 255). O valor mais alto corresponde a setores que margeiam a lateral do campo e que oferecem bebida e comida, no formato “all inclusive”. Escolhemos obviamente o mais barato, que representa um valor pelo menos dez vezes superior ao que paguei em La Paz no mês anterior, e na ocasião com direito a escolha de setor. Ficamos no “Setor Heineken”, oficialmente denominado Rooftop Bar.

Vista a partir do Rooftop Bar, tendo à frente torcedores de elevada estatura (e largura) a impedir a visão do campo. Autor: Gilmar Mascarenhas, 06/04/2018.

Falando em setor, o nosso merece comentários à parte. Todos em pé. Uma espécie de terraço ou varanda, de forma que somente aqueles poucos posicionados bem junto às grades de proteção tinham boa visão do campo de jogo. Alguns, imediatamente atrás desta primeira fila, se esforçavam por erguer a cabeça ou metê-la por entre ombros alheios. Os demais simplesmente desistiam do campo, cuidando de sua cerveja (não faltam mesas) e examinando apenas o telão de altíssima definição, ainda assim somente em lances mais importantes.

O Rooftop Bar da Heineken (de teto verde) visto a partir do North End. Autor: Gilmar Mascarenhas, 06/04/2018.

Esta condição precária nos fez lembrar as rasas e inconsistentes (por vezes preconceituosas) críticas à antiga Geral do Maracanã. Fomos muitas vezes acusados de nostalgia e romantismo por defender este setor popular, mesmo por colegas que nem são entusiastas da “modernização” dos estádios. Todavia, estamos justamente num estádio que é um dos ícones da última geração. Ultramoderno, o Audi Stadium não evita, todavia, o desconforto de não poder se sentar. E na Geral, o terreno inclinado favorecia a visão do campo de jogo para todos os presentes (ver a coluna de outubro de 2018). Por fim, e mais importante, muitos daqueles que criticam o desconforto da Geral simplesmente jamais conheceram ou desfrutaram de sua especial atmosfera.

Por arcar com parte dos elevados custos do Audi Stadium, o DC United enfrenta dificuldades econômicas, podendo no máximo contar com um Wayne Rooney em fim de carreira (jogou muito mal e foi merecidamente expulso), enquanto o adversário, além de muito bem organizado em campo, trazia o mais caro jogador da MLS: o atacante mexicano Carlos Vela, cujo salário alcança 5,6 milhões de dólares anuais, muito mais do que qualquer jogador em atividade no Brasil. Ao final, um incontestável 4 a 0 para os líderes da competição.

Conseguimos, no intervalo, nos deslocar para o animado setor vizinho, o North End, o das organizadas, onde se agrupam os três “supporter clubs” (conforme denominação local). A Screaming Eagles, fundada por uma mulher em 1995, é a mais tradicional. Predominantemente branca, classe média-alta, é bem comportada e de estilo “família”. Seu site web apresenta sofisticação e alto investimento financeiro. Enquanto a “Barra Brava”, criada em 1996, pelo próprio nome reúne majoritariamente latinos (predomínio boliviano, aliás como bem lembrou Fernando Ferreira, foi neste time que jogou o maior ídolo da história do futebol boliviano: Marco Etcheverry) com clara prevalência masculina, e se comporta de forma muito similar ao modelo sul-americano das torcidas de alento: cantam sem parar e ao final do jogo, apesar da acachapante goleada, elevaram o nível de animação, sobretudo quando seus jogadores dela se aproximaram para agradecer e aplaudir o imenso apoio recebido, apesar do vexame em campo. Interessante o uso constante do idioma castelhano por esta torcida, “Vamos, vamos, United”, inclusive nos xingamentos ao juiz ou a adversários: “hijo de p…”.  A terceira organizada é a District Ultras, grupo dissidente da Barra Brava desde o ano 2010, bastante atuante politicamente.

North End e a Barra Brava. Autor: Gilmar Mascarenhas, 06/04/2018.

Ao final da partida, como de costume, permanecemos no estádio para seguir a observação atenta (quase etnográfica) da dinâmica local. Todavia, fomos pressionados pelos funcionários do estádio (numeroso grupo, e todos negros, ao contrário da torcida), que mediante nossa resistência anunciou que acionaria a equipe de segurança, formada aliás por gigantes bem pouco simpáticos. Como bem observou Gaffney, trata-se também do interesse de evacuação rápida para reduzir custos com mão de obra e agilizar a entrada da equipe de limpeza.

Acho que podemos afirmar que a experiência no Audi consistiu em conhecer um estádio tipicamente norte-americano porém com espaços de vibrante alma latina na torcida. Ao menos ali no North End. A imensa população hispanohablante aporta significativa marca cultural em muitas cidades nos Estados Unidos. O que seria do futebol e de tantos outros campos da vida social não fosse essa presença “quente” dos latinos?

Enfim, o modelo do torcedor-consumidor dirigido (quase robotizado) está bem implementado por aqui e tende a asfixiar a velha atmosfera que na realidade nem chegou a florescer nos Estados Unidos. No entanto, testemunhando a persistência e crucial importância da diversidade social, arduamente defendida por Janet Jacobs, arriscamos dizer que ainda restam alguns sinais de vida nos estádios norte-americanos.