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Vida e morte no futebol

Fabio Perina

O que esperar que os vivos possam dizer sobre a morte?

É assim nossa filosofia, da cotidiana à acadêmica, como o cão correndo atrás do próprio rabo

Basta uma morte para se escutar de tudo, imaginem 71 mortes. Há quem diga que dezenas de mortes são uma estatística, um disparate que banaliza a grande tragédia que já basta uma única morte: apenas repetida 71 vezes.

Onde fica o jogo em meio à tragédia?

As muitas glorias recentes do “Verde” colombiano convivem com a lembrança da dor de seu ídolo Andrés Escobar. Dias antes de seu assassinato, o que poucos devem saber, dissera: “A vida não termina aqui. Em breve nos encontraremos”. Terrível ironia no mesmo solo antioqueño banhado de sangue de novo.

Tenho pena daqueles que separam o futebol da vida e não o sentem em toda sua intensidade.

O jogo é pura vida.

De Maradona a Bill Shankly. Da pelota que no se mancha a much more than a matter of life anda death.

Saltar sobre a dor e viver novamente se embriagando desses mantras consagradas pela crônica esportiva. Nunca é demais recorrer a vários deles como nossa auto-defesa. O nosso veneno-remédio pode ser a auto-defesa de nossa sanidade mental, daquilo que compartilhamos com nossas amizades, do próprio jogo—o que pouco importa separar essas três coisas que são no fundo uma só.

Lamentamos muitas coisas que acontecem no futebol, com o futebol, por causa do futebol. Já viemos nos acostumando nesses tempos modernos a novas ‘cruzadas morais’ que, seja por luto, violência, racismo, homofobia, etc, clamam por aquelas medidas punitivas generalizadas que acabam matando a pureza do jogo quando se pune a todos que o veneram ao invés dos culpados específicos. Nunca me pareceu tão comum a ameaça ou consumação da perda de mandos de campos, restrições a torcedores, perdas de pontos na tabela, etc. Parecem querer colocar o futebol contra a vida.

Mas o futebol não tem que pagar por esses erros. Não tem que pagar por uma sociedade que se afasta do futebol para poder coloca-lo como alvo e assim parecer que lida seriamente com seus problemas. Quando uma grande comoção sugere se suspender ou adiar o futebol as batidas do coração ficam por um fio durante horas ou até dias diante desse risco. Ele fica a ponto de parar se o jogo parar também. Tal como Eduardo Galeano, somos andarilhos a vagar por aí atrás do jogo. E não atrás de curtidas e audiência.

Pois o jogo é o que mais tem de sagrado. Não dá para imaginar o tédio nos matando a cada domingo sem futebol. Não tem como imaginar abraçar desconhecidos em uma multidão se não for pelo futebol.

Chapecó (SC) - Arena Condá se transformou no ponto de reunião de torcedores, jogadores e parentes das vítimas que com cartazes, fotos e flores fazem homenagem a equipe que morreu no acidente (Daniel Isaia/Agência Brasil)

Arena Condá se transformou no ponto de reunião de torcedores, jogadores e parentes das vítimas que com cartazes, fotos e flores fazem homenagem a equipe que morreu no acidente. Foto: Daniel Isaia/Agência Brasil.

Campeão moral? Sempre pensei que só há taças com finais jogadas— “cueste lo que cueste”. Me dá calafrios imaginar que venha aí mais uma decisão por uma canetada saída de um gabinete que não representa arquibancada nenhuma. Desde criança, muito antes de começar a compreender tudo isso que escrevo, já enxergava suspeitas de que parecia haver a quem interessasse as grandes tragédias do futebol como pretexto para matar a paixão de todos os povos—que somente no jogo podem se tornar um único Povo.

Mas uma fresta de luz surge quando vejo a maioria dos meus amigos celebrando que o que repurifica o futebol, talvez nem todos o saibam, é quando o gigante colombiano, atual capo do continente, decide desistir da final em luto profundo. Se assim o quer sua gente, assim o futebol pode reviver. E talvez eles encontraram assim uma solução mais maleável que a minha.

Não é apenas Futebol, e nunca foi apenas Futebol.

Talvez tenha morrido aquela narrativa do futebol como alienação, como coisa desimportante da vida. Suspeito que se passou também aquela outra dos românticos da pureza do jogo – como eu. E assim talvez venha nascendo a narrativa do futebol como parte inseparável da reforma ou da manifestação de um outro mundo que queremos. O futebol é cheio de partidas que não terminam, então ainda sobra tempo para virar o jogo contra os justiceiros acham que podem usar o jogo para cada uma de suas ‘guerras justas’ que mobilizam.

Para ser mais claro, pode ser a vitória de não dizer mais que é preciso parar ou censurar o futebol por luto, mas sim passar a dizer que vamos arrumar uma maneira de seguir com o futebol e mostrar nosso luto.

É com a morte que nasce o mito de mais um clube. Como Paulistano, Honved (Hungria) e outros que mesmo sem continuar a existir não deixaram de ser lembrados. Justo em nossa época em que parece não haver espaço sequer para as antigas lendas, que dirá para as novas. Mas o futebol mais uma vez nos surpreende com sua grande capacidade de gerar grandes histórias. No continente de mapuches e charruas, o índio condá ganha, enfim, o seu batismo de fogo como mais um guerreiro de sua terra.

Como citar

PERINA, Fabio. Vida e morte no futebol. Ludopédio, São Paulo, v. 90, n. 3, 2016.