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Vida longa à Seita do Coelhão! Democracia “até o além”!

Marcus Vinícius Costa Lage

Durante o segundo semestre de 2002 eu e um amigo do PCdoB fizemos das arquibancadas do Independência um local de propaganda política do Lula e de seus aliados mineiros. Em todos os jogos do América, nos encontrávamos um pouco antes de a bola rolar; ele tomava sua cerveja e eu, ainda “de menor”, o acompanhava na Coca com bolinho de feijão do seu Marcílio. Em seguida, distribuíamos muito material de campanha. Naquele tempo, não éramos os únicos ativistas políticos de esquerda no estádio. Vários, como nós, ostentavam nos uniformes americanos botons e adesivos e também percorriam as arquibancadas do “Indepa” distribuindo suas propagandas político-partidárias. Vivíamos um período alvissareiro, em que conversar sobre justiça social e oportunidade para todos era respeitado, para não dizer defendido, por uma maioria. Como isso pôde mudar?

Certo dia, esse amigo “comuna” me convidou para uma reunião de uma recém fundada torcida organizada do Coelho: a Seita Verde. Embora a Seita não seja uma torcida genuinamente comunista ou petista, impossível não reconhecer que ela tenha sido influenciada pela cultura política progressista vitoriosa nas urnas naquele ano de 2002. Nessa reunião soube que, além desse meu amigo, outros de seus fundadores também eram estudantes universitários de cursos ligados às “Humanidades” e vários deles tinham, se ainda não o têm, posições políticas, digamos assim, mais à esquerda. Um deles, em especial, se tornou um dos principais historiadores oficiais do América. É dele, por exemplo, boa parte das narrativas que versam sobre a tradição americana de protesto e resistência que, aliás, já abordei em minhas contribuições passadas aqui na Arquibancada do Ludopédio. Dentre suas falas, algumas delas me davam grande orgulho de ser americano e, mais que isso, muito me seduziam a acompanhar a Seita. De maneira profética, ele me dizia: “Marcus, nós somos, em BH, o que os negros são no Harlem, o que os palestinos são na Faixa de Gaza, o que os travestis são em São Paulo! Somos a resistência!”. Em outras palavras, o que ele queria dizer é que, mesmo sem grandes conquistas, sem uma massa de adeptos, sem o apoio da grande mídia e dos cartolas, e “perseguidos” pela arbitragem, ainda sobrevivíamos. Por isso, seu lema era, e ainda o é: “contra tudo e contra todos!”.

Símbolo usado na internet por historiador do América e um dos fundadores da Seita Verde. Fonte: decadentes.com.br

Influenciada por esse contexto, a Seita escolheu como data simbólica de sua fundação o dia 11 de setembro de 2002, ou seja, o dia do aniversário de um ano do atentado terrorista contra as torres gêmeas World Trade Center, que, àquela altura, havia se convertido em bárbaro símbolo anticapitalista. Ainda nesse sentido, sua mascote seria um “coelhão” de olhos vermelhos, portanto inebriado, e de longas barbas brancas, como uma espécie de Bin Laden americano. E seu lema, “América até o além”, também fazia menção aos discursos terroristas de fundamentalistas islâmicos tão em voga naquela virada de século. Dessa maneira, a Seita nasceu simbolicamente associada ao anti-establishment, uma torcida organizada pronta para o “combate” de todo dia.

Embora a “família americana” seja extremamente conservadora, orgulhosa de sua identidade “aristocrata”, cantada até mesmo no hino oficial do clube, a Seita Verde demorou pouco mais de uma década para se converter na principal torcida organizada do América, assumindo o posto antes ocupado pela Torcida Desorganizada Avacoelhada. De uns dois a três anos pra cá, ela passou a ocupar o território antes dominado pela Avacoelhada no portão 3 da rua Pitangui, se posicionando ao centro do gramado do Independência. De lá, ela comanda a festa americana com sua charanga, seus cânticos, suas bandeiras e faixas.

Seguindo o pathos das demais organizadas brasileiras surgidas nos anos 1960[1], volta e meia a Seita tem organizado protestos na porta do Centro de Treinamento Lanna Drumond, como forma de pressionar a diretoria e os jogadores do clube. Ainda nesse sentido, após a reinauguração dos novos “estádios-arenas” da capital mineira, ela empunhou uma das principais bandeiras das torcidas organizadas Brasil a fora, traduzida pelo lema “não ao futebol moderno”[2]. Com frequência, vemos ela reivindicar a redução do preço dos ingressos e a utilização de artefatos tradicionais nos estádios brasileiros, como as bandeiras com mastros, as faixas e os sinalizadores.

Seita Verde protestando contra Minas Arena, atual administradora do Mineirão. Fonte: globoesporte.com

Acompanhando outras importantes manifestações políticas nos estádios de futebol do Brasil, no dia 14 de abril de 2018, durante o jogo entre América e Sport Recife, válido pela primeira rodada do Brasileirão deste ano, alguns americanos anônimos levaram para o portão 3 do Independência duas bandeiras altamente simbólicas. Uma delas, com o rosto de Marielle Franco, ativista dos direitos humanos brutalmente assassinada em março deste ano, foi amplamente repercutida, sendo flagrada pelas objetivas da grande imprensa tremulando em meio às bandeiras das torcidas Seita Verde, Avacoelhada, Batom Verde e Vale Verde. Já a segunda delas, que reproduzia uma foto do ex-presidente Lula jogando futebol com a camisa do América sobre um fundo vermelho, ficou estendida sobre as cadeiras do estádio, sendo destacada apenas pelas mídias sociais lulistas, como o Twitter da deputada federal carioca pelo PCdoB, Jandira Feghali. Ambas as iniciativas foram duramente criticadas pelos americanos conservadores, que, mesmo votando em dirigentes americanos para cargos legislativos estaduais e federais, ainda acreditam que política e futebol não se misturam, ou não devem se misturar. Até hoje nenhuma das duas bandeiras pôde voltar, com segurança, para a “casa” americana, mesmo não tendo sido atacadas pela Seita, “dona” do portão 3.

Foto com as bandeiras do Lula e de Marielle Franco nas cadeiras do Independência. Fonte: Twitter de Jandira Feghali.

Mesmo frente a essa violenta escalada conversadora, para não dizer reacionária do nosso país, que também reverbera nas hostes americanas, poucos dias antes do 1º turno das eleições presidenciais de 2018, a Seita não se acovardou e, através de sua conta oficial no Twitter, publicou a seguinte mensagem: “Não apoiamos opressão, preconceito, racismo, tortura! E não compactuamos com o fascismo.”. Abaixo do texto, o escudo da torcida vinha adaptado à ocasião. Ao redor do tradicional Coelhão símbolo da Seita, lia-se: “Torcida Seita Verde não vota em OPRESSOR. [sic]”

Escudo da Seita Verde contra o presidenciável de extrema-direita.

Como seria de se esperar, a postagem rendeu, mais uma vez, críticas contundentes, várias delas formuladas, agora, por eleitores do presidenciável eleito de extrema-direita. “Isso é coisa de comunista, petista, negro, esquerdista, homossexual, pobre, intelectual, artista maconheiro…”, diziam eles. Mas, me pergunto: e daí? Enquanto tivermos democracia, comunista, negro, esquerdista, homossexual, pobre, intelectual, artista maconheiro e o “diabo a quatro” ainda tem direito a se expressar, seja onde quiser. Até no “Indepa”!

Não se intimide Seita Verde! Parafraseando o democrático presidenciável derrotado no segundo turno, Fernando Haddad: “Nós estaremos aqui. Nós estamos juntos. Nós estaremos de mãos dadas com vocês. Nós abraçaremos a causa de vocês. Contem conosco. Coragem, a vida é feita de coragem. Viva o Brasil!”. Viva a Torcida Seita Verde! Vida longa à Seita do Coelhão!

Democracia até o além!

Dá-lhe Coelho!


[1] Sobre o pathos das tradicionais organizadas brasileiras, ver livro de Bernardo Buarque de Hollanda, O clube como vontade e representação.

[2] Sobre a bandeira “não ao futebol moderno”, ver interessante artigo de Victor Figols aqui nessa Arquibancada, intitulado “Futebol e Política: a revolução virá das arquibancadas”.