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Violência das Torcidas Organizadas: qual futebol queremos?

Ary José Rocco Júnior

O homem errado, no lugar errado e na hora errada. Quis o destino que José Sinval Batista de Carvalho, de 53 anos, nascido na cidade de Paripiranga, na Bahia, estivesse passando pela Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra, em frente à estação São Miguel Paulista da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), às 10 horas da manhã do domingo, dia 3 de abril de 2016.

Neste exato momento, cerca de 50 torcedores de Corinthians e Palmeiras iniciaram uma briga generalizada. Durante a confusão, um disparo de arma de fogo atingiu Carvalho no coração. José Sinval, que passava pelo local e não pertencia a nenhuma das torcidas organizadas, morreu na hora, aumentando a estatística das vítimas fatais provocadas por este tipo de agrupamento social.

Ainda neste mesmo dia, em que o Palmeiras derrotou o Corinthians por 1 a 0, no Pacaembu, pelo Campeonato Paulista de Futebol, outras três zonas de conflito, espalhadas pela cidade de São Paulo, entre os torcedores da Mancha Verde e da Gaviões da Fiel foram detectadas pela Polícia Militar do estado. No total, mais de 60 pessoas foram detidas.

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Escoltada pela polícia a Torcida Gaviões da Fiel chega para o clássico contra o Palmeiras que foi disputado no Pacaembu. Foto: Fábio Soares / futeboldecampo.net.

Desde 2010, já são 114 vítimas fatais confirmadas pelas autoridades paulistas em confronto entre torcedores de agrupamentos organizados. Os acontecimentos do dia 3 de abril e o elevado número de mortos em brigas de torcidas demonstram a fragilidade das ações tomadas por clubes de futebol, federações e, em especial, pelo poder público para coibir este tipo de acontecimento.

Prova concreta da falta de entendimento do poder público da complexidade do problema foi dada pelo Ministério Público (MP) Paulista, um dia após a morte de José Sinval. Em atitude simplista e populista, o MP solicitou à Federação Paulista de Futebol que, até o fim deste ano, todos os clássicos disputados no estado de São Paulo envolvendo Corinthians, São Paulo, Palmeiras e Santos sejam disputados com apenas uma torcida no estádio, a da equipe mandante.

A medida é simplista uma vez que, como foi possível perceber nos fatos ocorridos em 3 de abril, os conflitos entre os torcedores organizados não acontecem nos estádios e sim em regiões distantes dos locais das partidas. José Sinval, por exemplo, morreu a 30 quilômetros de distância do estádio do Pacaembu, onde aconteceu o jogo entre Palmeiras e Corinthians.

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Torcedor do Palmeiras exibe tatuagem da Torcida Organizada Mancha Verde. Foto: Fábio Soares / futeboldecampo.net.

O MP transfere, assim, o problema para os estádios, em geral, espaços privados, onde não está localizado o problema. Livra, assim, a responsabilidade da Polícia Militar do Estado de São Paulo que não consegue garantir nas ruas, ou seja, no espaço público, a segurança do cidadão comum. José Sinval que o diga.

Medidas de inteligência e punições efetivas representam o principal caminho para o poder público retomar o controle da situação. A Inglaterra fez isso, com excelentes resultados, no final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Importante frisar que, entre os detidos do dia 3 de abril, dois foram presos na Bolívia, em Oruro, após participação na morte do torcedor Kevin Espada, de 14 anos. A impunidade reforça e estimula a violência.

Vários dos conflitos entre torcedores organizados são, hoje, agendados nas redes sociais. Fotos das brigas e da destruição provocada pelos componentes destes agrupamentos organizados estão exibidas, para quem quiser ver, no universo das mídias sociais. Mostrar para os colegas os seus feitos no “campo de batalha” é fator de distinção dentro da estrutura militarizada destas instituições. Um serviço de inteligência, que simplesmente acompanhasse as redes sociais, ajudaria na identificação dos torcedores violentos e na adoção de medidas preventivas para evitar conflitos.

O poder público falha, também, ao não entender o papel das torcidas organizadas em nosso contexto social. Para alguns torcedores, a maioria, não necessariamente violentos ou agressivos, pertencer a um agrupamento desta natureza é a única forma de se sentir aceito dentro de uma sociedade marcada pela desigualdade e pela falta de oportunidades. Os bandidos existem dentro das organizadas, mas nem todos os seus membros são bandidos. Criminalizar as torcidas organizadas não resolve o problema.

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Membros da Torcida Organizada Gaviões da Fiel chegam para o clássico contra o Palmeiras no Pacaembu pelo Campeonato Paulista de 2016. Foto: Fábio Soares / futeboldecampo.net.

Em um momento em que o futebol é cada vez mais enxergado como negócio, elitizando a frequência aos estádios, impossibilitando os torcedores menos favorecidos economicamente de adquirir uma camisa de seu clube de coração, as torcidas organizadas representam uma forma de aceitação e pertencimento que não pode ser desprezada pelas autoridades.

Porém, e não podemos deixar de falar sobre isso, é sabido hoje que os dirigentes das principais torcidas organizadas do Estado de São Paulo estão ligados a negócios ilegais e, por vezes, servem de base de apoio para políticos nas esferas municipal, estadual e federal. Fato semelhante acontece nas barras da Argentina e estão bem descritos no livro La Doce, de Gustavo Grabia, que relata as ligações “perigosas” dos dirigentes da maior torcida do Boca Juniors com o tráfico de drogas e os “cartolas” do clube.

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A Polícia Militar durante o clássico entre Palmeiras e São Paulo pelo Campeonato Paulista de 2016. Foto: Fábio Soares / futeboldecampo.net.

A mídia, por outro lado, cobra ações das autoridades, mas não cumpre adequadamente seu papel, nem assume a parcela de responsabilidade que cabe a ela no problema.

A Rede Globo, por exemplo, detentora dos direitos de transmissão dos principais campeonatos do país, deu provas concretas disso. Na ânsia de angariar audiência, cada vez mais difícil em função do produto ruim que se tornou o futebol brasileiro, realizou aproximações perigosas com a Gaviões da Fiel.

Em 2008, por exemplo, na vitoriosa campanha do Corinthians na Série B do Campeonato Brasileiro, a emissora carioca legendou as imagens da torcida corintiana cantando que “aqui tem um bando de loucos”. Para a empresa de comunicação, naquele momento, a torcida representou espetáculo melhor do que as partidas mostradas pela emissora. Por outro lado, e de forma inconteste, fortaleceu o papel da agremiação e sua identidade como um “bando de loucos”.

Em 2013, no voo de volta da Bolívia, que trouxe os torcedores corintianos detidos naquele país pela morte de Kevin Spada, a TV Globo destacou a repórter Delis Ortiz, a época correspondente da emissora para a América Latina, para acompanhar os torcedores na viagem de retorno, ainda no avião. Este tipo de postura da empresa carioca é adotada somente para governantes, autoridades e/ou atletas vitoriosos. Um enorme equívoco da emissora.

Por outro lado, os demais veículos de comunicação, que não são os “donos” do produto futebol no Brasil, contam, em suas fileiras, com jornalistas que cultivam, hoje, o péssimo hábito de fazer o chamado jornalismo seletivo. Sentem orgulho quando as facções organizadas escancaram suas posições políticas (na realidade dos políticos que com elas mantêm ligações perigosas) em manifestações livres e abertas, mas se calam por completo quando a violência aflora e as organizadas matam inocentes.

É inegável que, historicamente, a Gaviões da Fiel, por exemplo, desempenhou importante papel no processo de democratização do país, ocorrido nas décadas de 1980 e 1990. A Gaviões, e a torcida do Corinthians em geral, foram as responsáveis pela maior ocupação do espaço público do país nos anos 1970, época da ditadura militar, com a célebre invasão do Maracanã e da cidade do Rio de Janeiro, em 1976.

Também foi no seio da Gaviões que uma faixa pelas “Diretas Já” foi aberta, em público, pela primeira vez, em uma arquibancada, no anos 1980. Porém, e é importante lembrar, os tempos eram outros e a torcida organizada também era outra. A Gaviões nasceu, em 1969, como uma agremiação política, fundada por jornalistas que faziam, a época, oposição ao então presidente do clube Wadih Helu. De lá para cá, a instituição mudou muito e sua atuação também.

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No clássico contra o Palmeiras a Torcida Organizada Gaviões da Fiel trouxe a faixa “CPI da Merenda”. Foto: Fábio Soares / futeboldecampo.net.

Por tudo o que foi mencionado acima, o problema da violência das torcidas organizadas é algo complexo e que demanda ações que envolvam medidas judiciais, políticas e sociais. O problema reflete o momento atual do futebol brasileiro, que demanda um posicionamento claro de todos os envolvidos – clubes, federações, confederação, poder público, mídia e outros interessados – sobre o que queremos e, principalmente, como enxergamos o nosso futebol.

A realização da Copa do Mundo no Brasil e a construção e a reforma de diversos estádios e arenas para a competição trouxeram ao país um dilema. Pesquisas demonstram que um “novo público” foi aos jogos da Copa do Mundo e gostou do espetáculo proporcionado pela competição e pelas novas instalações inauguradas para o Mundial.

Porém, este “novo público”, com poder aquisitivo mais elevado e maior grau de exigência, não está disposto a frequentar estes novos espaços ao lado dos “violentos e agressivos” torcedores organizados. Por outro lado, as novas instalações demandam maior custo de manutenção e necessidade de elevação da qualidade dos serviços que oferece. A viabilidade do futebol brasileiro como negócio está em seu momento crucial. Como realizar a convivência entre o “novo torcedor” (agora consumidor) e os torcedores organizados?

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Torcedores do São Paulo são escoltados pela Polícia Militar na chegada ao Pacaembu para o clássico contra o Palmeiras. Foto: Fábio Soares / futeboldecampo.net.

Em todo o mundo, em especial nos países aonde os eventos esportivos são tratados como negócio, como os Estados Unidos e a Inglaterra, a segurança dentro das instalações esportivas é de responsabilidade da inciativa privada, daqueles que organizam e promovem o evento. O poder público fica com a responsabilidade de fazer a segurança no espaço público, fora dos estádios e arenas, no transporte público e nas ruas que levam às instalações esportivas. Tal sugestão, comum em todo o mundo, encontra restrições aqui no Brasil.

Boa ou não a sugestão, o fato é que estamos em um momento crucial do nosso futebol. A violência e a presença das torcidas organizadas é apenas uma parte deste problema. Estamos preparados para gerenciar o nosso futebol enquanto negócio ou ainda enxergamos o principal esporte do país como elemento apenas de identificação cultural e social do brasileiro? É isso, no fundo, o que efetivamente precisamos resolver.

Como citar

ROCCO JúNIOR, Ary José. Violência das Torcidas Organizadas: qual futebol queremos?. Ludopédio, São Paulo, v. 82, n. 5, 2016.