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Violências, torcidas e sociedades: Invasões do CT Joaquim Grava e do estádio El Sardinero

Marco Lourenço

A relação entre clubes brasileiros e suas torcidas é das mais suspeitas, no mínimo. Em tempos de crise, com derrotas mais frequentes, revela-se uma reação truculenta de membros de sua própria torcida, como quem exige retratação de seu parceiro à quem lhe deve satisfação.

A invasão de sábado no CT do Corinthians é mais um episódio do vasto enredo de agressões cometidas por torcedores uniformizados. É lamentável, especialmente as organizadas mais tradicionais, como a Gaviões da Fiel, com um berço libertário e de lutas contra o autoritarismo e a repressão.

O futebol espanhol, por sua vez, foi palco de uma ação protagonizada pelos atletas e comissão técnica do Racing Santander, endossada por sua hinchada. Sem receber salários há mais de três meses, os atletas do Racing se recusaram a jogar a partida contra o Real Sociedad, pelas quartas-de-final da Copa do Rei.

A ação tinha um objetivo claro: a saída do presidente Ángel Lavín e todo seu conselho diretivo. O Racing atualmente disputa a Segunda División B (terceira divisão espanhola) e fazia voluntariosa campanha na Copa do Rei.

Foto: Ángel Lavín Iglesias – Talg.

 

La Gradona de los Malditos, ala de torcedores mais jovens do clube de Santander, já se manifestava ferozmente contra os dirigentes do clube. Dia oito de janeiro deste ano, houve uma invasão ao El Sardinero, estádio do Racing. Àquela ocasião, pelas oitavas-de-final da Copa do Rei, nos primeiros lances da partida os jogadores do Racing fizeram o que foi chamada de a “estátua” – se recusaram a disputar a bola com o adversário, o Almería.

O alinhamento entre jogadores e torcida tomou corpo. Como resultado da “paralisação” dos atletas foi estipulada uma multa equivalente a R$ 10 mil reais e exclusão do clube da próxima edição da Copa. Mas o objetivo foi alcançado e uma vitória importante foi assegurada na categoria: Harry, como é conhecido o presidente Ángel Lavín Iglesias, foi destituído do cargo junto de sua comissão e nenhum atleta sofreu qualquer punição ou sanção disciplinar.

O porta voz e secretário geral da Federação Espanhola de Futebol, Jorge Pérez, lamentou a partida não ter sido disputada, mas legitimou a ação dos atletas com meses de salário atrasado. Assume provisoriamente a presidência Tuto Sañudo, ex-jogador que fez sua carreira no Racing, sendo o terceiro jogador com mais partidas disputadas no clube de El Sardinero.

Foto: City of Santander. Real Club Racing de Santander – Year of the Dragon.

A coesão que sobrepujou a administração do clube do magnata indiano Ahsan Ali Syed, conhecido como Mister Ali, possui um viés político forte. O retrospecto esportivo ruim do Racing das últimas temporadas que o fez chegar na terceira divisão do futebol espanhol é apenas a imagem desagradável criada no time da província da Cantábria.

O sabor indigesto tornara-se ainda mais amargo com a administração Harry, empresário hoteleiro, acusado de corrupção e manipulação para se perpetuar no clube. O próprio aciosnista majoritário, Mister Ali, possui uma lista de acusações que transformaria num pequeno camundongo o nosso Tricky Ricky, como Andrew Jennings se refere ao ex-cartola da CBF.

A oposição estabelecida na coalisão hinchada – jugadores representa uma vitória democrática, ainda que seus efeitos estejam sucetíveis a confirmação e apoio de outros atores, como os atletas de outros clubes, a imprensa, a federação e os demais clubes da liga espanhola.

Ao nos depararmos com as ameaças e até as agressões sofridas pelos atletas corintianos que acabam de fechar aquele que talvez seja o ciclo mais vitorioso da história do clube, identificamos o mesmo componente de violência visto no El Sardinero, quando os hinchas atacaram o presidente Harry e seus acompanhantes no estádio.

A pulsão de violência é um componente de arquibancadas, de torcidas, senão mesmo encontrado em grandes massas. A criminalização das torcidas, bem como outros movimentos sociais, é recorrente nos veículos de comunicação tradicionais. Algumas leituras mais críticas traçam um paralelo entre a sociedade e o futebol.

O técnico Muricy Ramalho afirmou: “Isso não é só do futebol, é da nossa sociedade”. O goleiro Rogério Ceni seguiu a mesma linha: “O futebol é o reflexo da sociedade”. O atacante Luís Fabiano ainda acrescenta: “eu joguei na Europa e nunca vi um negócio desses”.

Bom, na Europa existe isso sim. El Sardinero foi palco de um “negócio desses”. Em outros cantos, jogadores são hostilizados, por sua religião, etnia, nacionalidade ou cor de pele.

O futebol é um componente da vida em sociedade, portanto, ele está inserido nela, carrega consigo suas ideologias, contradições e perspectivas. A truculência de um grupo de torcedores ou de uma pequena multidão não nos traz novas revelações; a razão pela qual estes ou aqueles torcedores se mobilizam e os seus respectivos objetivos, carecem, sim, de melhor observação, para afinal, compreendermos melhor do que e de quem estamos falando.