27.6

Visibilidades, belezas e futebois

Giovana Capucim e Silva

No mês de junho alguns de nós viram a eliminação precoce da seleção brasileira de futebol de um importante torneio. Não, não me refiro à Copa América, mas sim à Copa do Mundo de Futebol. Quando o professor Osmar Moreira de Souza Junior escreveu que o Brasil é o país do futebol masculino1, só pude aplaudi-lo. Afinal, por que outra razão a Copa América seria mais importante que a Copa do Mundo? Todos vimos tantos “especiais”, memórias, dentre outros programas temáticos na imprensa brasileira sobre o torneio continental, enquanto nem sei mesurar o espaço alcançado pelas meninas na imprensa. Lembro-me de quando a zagueira Érika marcou um golaço sobre a Guiné-Equatorial e o lance apareceu no principal noticiário televisivo em âmbito nacional (aliás, acabo de descobrir que o Word reconhece a palavra “zagueiro”, mas não “zagueira”). Porém, não houve nele mais nenhuma fala a respeito da seleção. Aliás, é justamente por essa atleta que gostaria de começar minha reflexão.

Érika é protagonista de uma reportagem do portal “Globo.com” que se propõe a discutir se a “musa” da seleção seria ela ou a lateral Maurine. Apenas ao final da reportagem é que sobram algumas linhas para se falar de futebol, o resto (ou o principal) da longa reportagem, para os padrões observados no site, é sobre maquiagem, cabelo, vaidade, namoro, assédio, a “disputa” pelo posto de musa, enfim. Nenhum assunto pertinente à vida delas como atletas. A reportagem é acompanhada de fotografias em estúdio, em poses sensuais. Como sabemos, exatamente igual se faria numa reportagem com um jogador.

Para que ninguém diga que estou sendo injusta, coloquei a palavra “muso” (que o Word também não reconhece, ao contrário de “musa”) na barra de busca do mesmo site. A reportagem mais atual é de janeiro de 2010, quase dois anos atrás, na qual aparecem fotografias do jovem zagueiro Dalton, do Fluminense. Porém, ao contrário das meninas, fora dos estúdios, no campo e em treinamento. Típica reportagem de quando não há nenhum campeonato em andamento e os jornalistas preenchem o espaço com reportagens sobre todo tipo de coisa. Após algumas linhas a respeito do assédio que sofre, creio que o mesmo número destinado ao futebol no caso das meninas, o texto fala sobre a carreira dele e suas expectativas de jovem promessa.

Erika (13), zagueira, no jogo contra a Noruega pela Copa do Mundo de 2011. Foto: Allan Patrick.

Nesse ponto, trago para a discussão um artigo de Johanna Coelho Von Mühlen2 no qual ela discute a beleza de atletas (homens e mulheres) nas fotografias disponíveis em meio digital (particularmente do site Terra) durante os jogos olímpicos de Pequim. Ela observa o mesmo que tentei mostrar na comparação das reportagens nas fotografias: enquanto o que é exaltado para as mulheres é a beleza e a sensualidade, no caso dos homens, o que é mostrado é a força atlética, o vigor físico e seu alto rendimento como atletas. Além disso, ela ressalta que as “musas” foram escolhidas somente pelos atributos físicos, mesmo não tendo nenhuma expressão no meio esportivo, enquanto na a seção dos “musos” figuram apenas atletas que obtiveram alto rendimento na competição.

Para a autora, a maneira através da qual as fotografias são tiradas e selecionadas “reforça[m] a representação de mulher ligada a sua potencialidade de ser bela, em nenhuma imagem ou palavra aqui é lembrada que a mulher bela também possui potencialidades enquanto atleta”3. Mais adiante ela desenvolve: “Enxergo aqui a sempre necessidade – talvez sutil, mas nem por isso menos eficiente – de se representar os atletas homens a padrões hegemônicos de masculinidade”4. E, finalmente, conclui: “Baseada nas imagens e nos textos que apresento, digo que a mídia e, em específico o Site Terra, reforça as distinções de gênero presentes na sociedade, tanto para mulheres quanto para homens. E quando se discute beleza, parece não haver “escapes”. O Site não borra fronteiras, reiterando padrões de masculinidade e feminilidade ligadas à beleza”5.

Volto, então, para o futebol, Érika e Maurine. Como pudemos ver, não foi de interesse do portal ou do repórter investigar sobre as expectativas das atletas com relação à carreira ou ao futebol feminino no Brasil, um esporte que ainda vive nas sombras6, mas, sim, sobre aspectos que são, de acordo com a nossa cultura, facilmente associados às mulheres.

Interessante chamar a atenção também, a respeito da visibilidade7 do futebol feminino no site “Globo.com”, um dos mais visitados sobre esportes no país8. Não há no portal atalho para o futebol feminino, só é possível encontrar informações sobre ele (mesmo sobre o mundial) quando se coloca na barra de busca do site (e mesmo assim é difícil). No entanto, há no site seções destinadas a esportes de menor expressão no país como tênis, atletismo, corrida de rua, fórmula futuro (categoria sem expressão nenhuma no automobilismo nacional, mas que é promovido pelas Organizações Globo) e até mesmo rodeio.

Maurine (02), lateral, no jogo contra a Noruega pela Copa do Mundo de 2011. Foto: Allan Patrick.

Nesse ponto, retomo a reportagem sobre o zagueiro do Fluminense, de janeiro de 2010. Essa foi a última vez que o site terra utilizou a palavra “Muso”. Ao elencar as seções do site “globoesporte.com”, não pude deixar de notar que há uma chamada “musa do brasileirão”, uma competição na qual os freqüentadores do site votam na mais bela moça que representa sua equipe. Elas desfilam num programa de televisão das Organizações Globo semanalmente. Elas são modelos ou torcedoras comuns. Mais uma vez, a relação com o clube e com o esporte fica para trás quando se fala da beleza feminina, em favorecimento da estética, beleza física.

Há outro ponto importante nesse fato que apontei: o limite da presença das mulheres no esporte. A imprensa coloca as mulheres em exposição, ligadas ao futebol, desde que estejam dentro de determinado padrão de beleza e limitem-se a torcer, como ouvimos por vezes alguns comentaristas dizer “embelezar, enfeitar as arquibancadas”. Quando se trata da mulher praticando o futebol, a mídia prefere manter a cobertura marginalizada.

Entretanto, não se pode deixar de lado que sites com altos índices de acessos como esses colocam a disposição do internauta aquilo que ele quer ver, no limite, aquilo que “vende”. Desta maneira, pode-se apontar uma última questão para essa reflexão: esse tipo de desigualdade de cobertura, abordagem e análise só ocorre, pois há uma demanda social para que a relação entre beleza feminina e esporte seja assim. Portanto, para que ocorra uma mudança no sentido de tornar menos desiguais as questões de gênero na cobertura do futebol na imprensa brasileira, é necessário, antes, uma mudança de mentalidade e postura dos freqüentadores desse site, no limite, dos “consumidores” dessas notícias.

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[1] CASELLATO, F., DE SOUSA, M., DOS SANTOS, D. , MENDES, F. B., RANGEL, R. M., ROSA, A. S., SOUZA JÚNIOR, O. M., VIDUAL, M. B. de P. “A bola rola mais que as mulheres: a difícil busca de identidade no país do futebol (masculino).“ Trabalho apresentado no I Simpósio de Estudos sobre Futebol, São Paulo, maio de 2010.

[2] MÜHLEN, Johanna Coelho Von. Musos e Musas: a beleza dos atletas “rouba a cena” nos jogos olímpicos de Pequim. Disponível em meio digital em: http://www.fazendogenero.ufsc.br/9/resources/anais/1278295335_ARQUIVO_FazendoGeneroMusosMusasModeloPadrao.pdf

[3] Ibidem, idem, p. 6.

[4] Ibidem, idem, p. 8.

[5] Ibidem, idem, p. 9.

[6] Expressão emprestada de GOELLNER, Silvana V. “Mulheres e futebol no Brasil: entre sombras e visibilidades”. In: Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v.19, n.2, p.143-51, abr./jun. 2005.

[7] Expressão também utilizada no título do trabalho da nota anterior. Conforme informações disponíveis em meio digital, como em http://centralmidia.org/forum/showthread.php?tid=3303 ou em http://cssfuncional.wordpress.com/2011/03/02/100-sites-mais-visitados-do-brasil/ acessados em 02/09/2011.