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Viva a Argentina!

Paulo Nascimento

Talvez tenha sido parte da preparação pra Copa do Mundo e pros Jogos Olímpicos com sede no Brasil que estão por vir e foram poucos os avisados. Fato foi que grande parte da imprensa brasileira – bem como os que assentam sua visão de mundo nos mesmos princípios que ela para depois replicar isso em lugares como o Facebook – tratou de dar à recente escolha para papa ares de Copa do Mundo. Assim que o alemão Joseph Ratzinger anunciou sua retirada do posto de maior autoridade da Igreja Católica, passaram a ser anunciados por esta imprensa nomes dos supostos cardeais favoritos, as normas que operam nas eleições, as chances dos cardeais brasileiros, as simbologias do ritual. E o patriotismo rastaquera, como de costume, imperou. Como se o que estivesse sendo discutido fossem times, escalações, esquemas táticos, jogadas ensaiadas e aquilo que se discute, por exemplo, em Copas do Mundo. A expectativa criada sobre a tal fumaça foi a de um gol. E assim, foi escrito mais um capítulo de como nós, brasileiros, temos facilidade em enxergar o mundo pela linguagem do futebol.

Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Sim, porque parece claro que esse nariz torto pros argentinos, instituído quase que como um patrimônio nacional, tem relação íntima com o futebol. Antes das primeiras conquistas brasileiras em Copas do Mundo, foram os argentinos, junto dos uruguaios, os que protagonizaram as grandes disputas entre seleções na América do Sul. Após o tricampeonato e a consolidação do “futebol-arte”, vieram as conquistas de Copa pelos argentinos, igualadas em quantidade à dos uruguaios. Uma das conquistas uruguaias, inclusive, foi sobre o Brasil, no Maracanã, ainda hoje recuperada como “aquilo que não podia ter sido e foi” – como se do outro lado não tivessem jogadores à altura, vontade e empenho equivalentes aos dos brasileiros para ganhar, enfim, como se do outro lado não tivesse um time. No caso específico de Brasil e Argentina, tratam-se de equipes com resultados expressivos no futebol ao longo da história, com jogadores que fazem parte da lista de qualquer torcedor de futebol sobre os melhores de todos os tempos. E não surpreende que a disputa pelos primeiros lugares nos campeonatos de futebol, somadas à proximidade geográfica e as diferenças, por vezes antagônicas, na história dos dois países, gerassem uma rivalidade protagonizada entre ambos. Sabendo que essa rivalidade não se trata de dado natural mas sim construção simbólica, discursiva e de poder, essa história de papa argentino me resgatou uma especulação que faço já há algum tempo. Afinal, a serviço de quais interesses está essa conversa furada?

Me chama a atenção, por exemplo, a grande quantidade de pessoas que tem para si uma visão pejorativa sobre Argentina sem nunca terem visitado o país ou alguém que lá tenha nascido. Logo, esta visão é alimentada por alguma fonte que não a experiência pessoal dessas pessoas. É segredo de polichinelo que os a linguagem oferecida pela publicidade na maioria das vezes lida com o lugar-comum, preenchido em grande parte por estereótipos, e flerta com o que temos de pior em cada um de nós. Essa publicidade sabe que, além do massacrante contingente de pessoas que assinam embaixo dessa perspectiva, há também uma parte considerável de pessoas que, embora neguem, também se sentem contempladas por uma perspectiva tosca sobre diversos assuntos, e só não a assumem para efeitos de manutenção de falsos bom-senso, equilíbrio e habilidade em respeitar o diferente – repito, falsos. No meio disso tudo há uma, digamos, falta de vontade, disposição ou comprometimento para verticalizar a discussão sobre alguns temas – como o lugar que as mulheres ocupam nos comerciais de cerveja – ou inverter a chave da discussão em outros – como aquela que reza que todo argentino é um grande filho da puta. Ao final do conclave que elegeu o Papa Francisco, para além dos trocadilhos fáceis e das piadas tolas, não faltaram discursos e tom de lamento à “vitória” dos “hermanos”.

Papa Francisco. Caricatura: Baptistão Caricaturas.

Não será uma zebra caso a Argentina alcance um bom desempenho e vença a Copa de 2014. Os prognósticos, aliás, são de pessoas de maior credibilidade do que aqueles que afirmavam, sabe-se Deus baseado em quê, que eram grandes as chances de finalmente (?) termos um papa brasileiro1. E caso venha uma vitória argentina, reagiremos com essa mesma grita que houve aqui com a nomeação do Papa Francisco? Insistiremos na ideia de que Deus é brasileiro? Vamos falar que o resultado foi injusto, desonesto, que um argentino deu água batizada pro Neymar, instauraremos uma CPI para averiguar por quanto a Nike vendeu a Copa aos argentinos, declararemos guerra à Messi, seus colegas de time, seu compatriotas e demais simpatizantes?

No atual momento histórico em que vivemos no Brasil, começa a ganhar corpo um debate sobre como estender os avanços econômicos que parte da população brasileira têm pela primeira vez experimentado em melhor capital humano, social e educativo. O futebol pode ser uma boa plataforma para discutirmos, por exemplo, que empoderamento pra valer é termos autonomia para questionarmos as groselhas que querem nos enfiar goela abaixo com o intuito de vender xampu, conta no banco ou jogo de futebol, sedimentando a falsa impressão nos colonizados de que escolher essa ou aquela marca, ou sustentar chavões, é a parte mais importante do viver. Um país onde nasceram Jorge Luís Borges, Mercedes Sosa e Ricardo Darín merece mais respeito dos lados de cá. Se existem argentinos com forte característica de arrogância e cinismo, não me parece que isso seja predicado exclusivo a esta ou aquela nação, ou que nos faltem exemplos brasileiros de pessoas a quem falta, digamos, modéstia. O que me parece ser sim uma característica diretamente associada aos argentinos e de difícil contestação é o índice elevado de leitura em sua população, e uma prontidão para manifestações públicas de insatisfação política e repúdio à corrupção. Não creio que nos cairia mal termos em horizontes brasileiros algo próximo disso. Sabemos de cor e salteado os nossos problemas, equívocos e omissões que realizamos na parte que nos cabe nessa comunidade imaginada. Mas tudo pode ficar pra depois na hora de falarmos mal da Argentina. Que coisa…

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[1] Sobre os equívocos cometidos pela imprensa brasileira de um modo geral, e pela “Folha de S. Paulo” em específico, ver SINGER, Susana. “O papa do fim do mundo”. Folha de S. Paulo, 17/03/2013.