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Vou ali, não tenho hora para voltar

Leandro Marçal

A cena do marido contando à esposa que vai ali, na padaria, comprar cigarros, nunca me saiu da cabeça. A dedicada mulher toma conta de alguma tarefa doméstica para o amado mimado, que não liga para nada além do próprio umbigo. Irritada, sequer dá atenção ao cafajeste e só se dá conta da fuga quando já é tarde demais.

Está abandonada, largada à própria sorte e em vias de ser julgada pelo pecado alheio. E os filhos não terão um pai presente, que depois de décadas ensaiará um retorno com a maior cara de pau do mundo pedindo um abraço nos rebentos já crescidos.

Por mais que eu tenha sérios problemas com as despedidas, prometi desde muito cedo que jamais sairia para comprar cigarros. Diria meu destino, anunciaria estar indo embora, deixaria bem claro que nunca mais voltaria, mesmo com a voz embargada e as lágrimas nos olhos.

Ou, quem sabe, com os dedos trêmulos, como os meus ao digitar a derradeira crônica neste Ludopédio. Me sinto como um torcedor que sai da arquibancada, vai para casa e vai continuar torcendo por aquele time. Só vai deixar de frequentar aquele setor pela necessidade de dar atenção a outras coisas e prioridades que não o campeonato ali disputado.

Foto: Bruno Domingos/Mowa Press.

É o meu caso. Aqui, na Arquibancada do Ludopédio, foram dezenas de crônicas publicadas. Primeiro a cada 15 dias, depois, semanalmente. Cada uma delas serviu de embrião para meu primeiro livro, publicado em abril deste 2018 sombrio que termina na próxima esquina. De Letra: o futebol é só um detalhe foi o nome mais apropriado para rememorar esta coluna, para deixar claro que a bola rolando sempre foi o menos importante para mim.

Prefiro me atentar às margens do campo, passo os 90 minutos pensando no que só um cronista presta atenção em meio aos golaços, às jogadas inesquecíveis, a tudo o que seduz crianças e adultos no esporte mais influente do mundo.

Por aqui, tentei produzir literatura com o mundo da bola como pano de fundo. Espero não ter me esgotado e tenho medo de me esgotar. Sinto a necessidade de abrir a porta da sala, deixar o sol bater à face e andar por aí, vou atrás de outros projetos literários – vejam, enquanto frequentava essa Arquibancada, lancei até outro livro que não tem nada a ver com futebol, sabiam? – e rumos profissionais desafiadores. Afinal, o que não é desafiador neste Brasil de 2018, o que não será assustador em nosso país em 2019 e nos anos seguintes?

Muito obrigado a todos os que leram cada linha por mim escrita neste espaço. Muitíssimo obrigado à toda a equipe do Ludopédio que sempre apostou em mim e entendeu minha vontade de respirar, andar por aí, ir para outros lugares, desde quando avisei dos meus últimos passos já há alguns meses.

Seguirei daqui, acompanhando o trabalho importantíssimo deste portal que me acolheu quando dava meus primeiros passos literários. Ele seguirá contribuindo com novas e muito importantes formas de encarar esse esporte que amamos. Lutando pelo futebol e pela democracia, como batalha desde sempre.

Desejo a todos um ótimo Natal e um novo ano muito melhor que este em seus últimos minutos.

Que o jogo siga, meus amigos, que a bola role, minhas amigas!