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Washington: um homem de coração artilheiro e valente

Jaqueilton Gomes

Com uma das mais conhecidas histórias do futebol brasileiro nas últimas décadas, o ex-atacante Washington Cerqueira acumulou fãs e empilhou gols por onde passou em sua carreira de quase 20 anos. Apesar dos feitos dentro de campo, viveu sua maior batalha fora das quatro linhas, quando um problema cardíaco o afastou dos gramados e quase colocou um trágico ponto final na carreira do homem que mais tarde seria chamado de “Coração Valente”.

Dedicação ímpar e um faro artilheiro apurado. Por esses predicados, Washington é conhecido como um autêntico centroavante, aquele camisa 9 que quase não vemos mais no futebol moderno, mas que sempre dividiu o protagonismo com a mágica camisa dez.

Natural de Brasília, Washington começou sua carreira profissional longe da capital federal. Foi no interior do Rio Grande do Sul que o artilheiro marcou os primeiros gols, vestindo a camisa grená do Caxias. Entre os anos de 1993 e 1997, o instinto artilheiro do jovem candango chamava a atenção nos frios campos gaúchos. Ainda vinculado à equipe do interior, foi jogar num dos grandes do estado e, por empréstimo, vestiu a camisa do Internacional em 1997, quando disputou três jogos e balançou as redes um vez, em partida válida pela primeira fase da Copa do Brasil, na goleada contra o Guará-DF.

No ano seguinte, o atacante voltou ao Caxias e foi novamente emprestado, dessa vez para a Ponte Preta, onde, numa segunda passagem, ele viria a ganhar ainda mais destaque. Washington jogou ainda pelo Paraná em 1999. Em 2000 o artilheiro voltou para a Ponte Preta, onde fez história ao entrar para a lista de maiores goleadores do time, com 82 gols, somadas todas as passagens pela Macaca.

A boa fase o lançou a outro desafio. Em 2002 a Ponte Preta vendeu seu homem gol para o Fenerbahçe-TUR. O sonho de jogar no velho continente estava se realizando, contudo, não demorou muito até a passagem pela Turquia se tornar o maior pesadelo da história do jogador, então, com 27 anos. Após alguns meses na equipe, um grave problema de saúde foi diagnosticado no coração e o impediu de praticar futebol.

Operado às pressas, Washington passou mais de um ano até poder voltar aos gramados. Quando isso aconteceu, ele já estava mais perto de casa, o Atlético Paranaense foi o clube que lhe abriu as portas do futebol novamente. Um susto nos exames médicos iniciais jogou um balde de água fria nos planos do artilheiro, mas um fio de esperança restava, e foi suficiente para trazer o goleador de volta ao futebol em 2004. E ele voltou fazendo história.

Washington antes da final da Libertadores de 2008

Washington se tornou ídolo do Fluminense, onde conquistou o Campeonato Brasileiro e ficou a um passo de vencer a Libertadores – Foto: Wikimedia/Pedro Kirilos

A campanha do Atlético no Campeonato Brasileiro daquele ano foi muito honrosa. Acabando a competição na segunda colocação, o time viu o bicampeonato brasileiro escapar nas últimas rodadas e ficar com o Santos. Mas nem tudo foi decepção ao fim da temporada. Aquele homem que veio da Turquia com um diagnóstico que quase encerrou sua carreira, resolveu entrar para a história do futebol brasileiro. Marcando 34 gols naquela edição do Campeonato Brasileiro, Washington superou Dimba, que em 2003 havia marcado 31 gols pelo Goiás, e se tornou o maior artilheiro do Brasileirão em uma única edição, feito que nunca mais foi superado.

Desde então, Washington passou a ser conhecido, de forma muito justa, como Coração Valente. Sua superação na mesa de cirurgia e depois dentro de campo, o credenciou a entrar para a história do futebol e o colocou na galeria dos grandes craques do futebol nacional.

Após seu histórico retorno, o artilheiro resolveu tentar a sorte novamente além oceanos, desta vez, ainda mais longe, no Japão, onde defendeu duas das mais tradicionais equipes do futebol asiático, o Tokyo Verdy e Urawa Red. Lá, conquistou o Campeonato Japonês, a Supercopa Japão e Liga dos Campeões da Ásia e depois de todo o sucesso voltou ao Brasil para se tornar ídolo do Fluminense, colocando o tricolor carioca novamente na rota de títulos nacionais.

Em 2008 fez parte da histórica campanha do Flu na Libertadores, e foi responsável por um gol que até hoje ecoa na cabeça dos torcedores, nas quartas de final da competição, contra o São Paulo, nos minutos finais do jogo, garantindo a passagem da equipe para a semifinal continental.

Apesar da bela campanha, o título não chegou, o Tricolor das Laranjeiras foi derrotado na grande final dentro do Maracanã, e de quebra, ao fim da temporada o Fluminense perdeu seu artilheiro, que foi defender justamente o São Paulo. Pelo Tricolor paulista, Washington disputou 86 jogos e marcou incríveis 45 gols, entrando para o grupo dos dez maiores goleadores do time no século XXI.

Após a passagem no futebol paulista, o artilheiro voltou para o Fluminense no segundo semestre de 2010 e ajudou o clube na conquista do Brasileirão. Aquele foi o último ato da carreira do grande artilheiro, que no início de 2011 convocou a imprensa para anunciar o fim da carreira dentro de campo, em decorrência dos problemas de saúde, que poderiam voltar a complicar sua vida. Junto com equipe médica, Washington decidiu que mais um ano não faria diferença para sua carreira, e assim colocou o ponto final na trajetória do Coração Valente nos gramados.

Como citar

GOMES, Jaqueilton. Washington: um homem de coração artilheiro e valente. Ludopédio, São Paulo, v. 143, n. 3, 2021.