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Yashir: filho da diáspora e esperança palestina

Bruno Núñez

As crises migratórias criam diásporas ao redor do mundo. Na atualidade, os problemas no Oriente Médio são os protagonistas destes deslocamento nas quatro partes do mundo. No passado, guerras e outras tragédias levaram milhares de pessoas a abandonar suas terras natais para conseguir uma vida melhor. A Palestina é um desses territórios que mais viu seu povo deixar o seu chão e ultrapassar fronteiras. Tanto na atualidade, quanto em outros tempos, os palestinos se espalharam e criaram raízes em diversas partes.

O Chile foi um desses países que receberam uma quantidade considerável de palestinos. Os tempos eram outros. No começo do século XX, o território onde hoje é a Palestina estava sob o domínio do Império Otomano. O serviço militar obrigatório imposto por essa nação potencializado pela Primeira Guerra Mundial acabou por provocar uma imigração massiva de jovens, estimulados por suas famílias a buscar novos ares, além de outros indivíduos motivados pela desestabilização política e econômica que levou ao fim a monarquia turco otomana em 1923.

Foto: Reprodução.

Os palestinos no começo enfrentaram problemas para se integrar à sociedade chilena, que os tratou com preconceito no início dessa imigração. Os “turcos”, como foram chamados por terem passaporte otomano, chegaram ao país “murado” pelos Andes em um grande número para a época, cerca de 5 mil, em um total de 10 mil árabes (contando com imigrantes do Líbano e da Síria, que preferiram se instalar em outras nações da América do Sul, como o Brasil e a Argentina). Com o tempo, na segunda metade do século XX, os descendentes dessa diáspora se destacaram no comércio e ocuparam posições importantes na indústria, na política e na cultura, conseguindo sua total integração ao seu novo lar.

O futebol foi importante para reforçar o orgulho dos palestinos que vivem no Chile. Em 1920, foi fundado o Club Deportivo Palestino. Foram 32 anos no amadorismo até debutar no profissionalismo. Em 1955, o elenco árabe conquistou o seu primeiro Campeonato Chileno com um grande time. Em 1978, o clube foi liderado pelo histórico zagueiro Elías Figueroa ao seu segundo campeonato nacional. Com os anos, a agremiação parou de representar apenas a colônia local e passou a ser um símbolo pela liberdade da Palestina diante de Israel, sendo considerado como um símbolo de resistência pelos próprios palestinos que ainda vivem na Faixa de Gaza e na Cisjordânia.

Atualmente são estimados cerca de 400 mil chilenos de origem palestina. É o lugar mais palestino fora do Oriente Médio, superando até vizinhos próximos à Faixa de Gaza que receberam muitos refugiados, como o Egito e o Líbano. Dentre esse grande número, mora a esperança da seleção palestina.

O próximo camisa 9 da seleção chilena

Yashir Pinto Islame. Nascido em Santiago, o jogador surgiu na base do maior clube do Chile, o Colo-Colo. Se destacou entre os jovens e logo ganhou oportunidades nas seleções juvenis do país. Entre o sub-18 e o sub-20 da Roja, o atacante marcou 17 gols em 31 jogos. Chegou a ser convocado por Marcelo Bielsa para um jogo amistoso contra o México pouco antes da Copa do Mundo de 2010, mas acabou não entrando no gramado. Ainda assim, “um dos momentos mais lindos da minha carreira”, segundo o próprio em conversação com o Gandulla. Em declaração recente ao jornal El Mercúrio, o atleta revelou que o experiente técnico argentino havia lhe dito que ele podia ser o próximo camisa 9, posto que já foi ocupado pelo lendário Ivan Zamorano.

Yashir Pinto Islame em jogo pela seleção chilena sub-18 durante o Festival Olímpico da Juventude Australiana, em 2009, ocorrido em Sydney, Austrália. Foto: Wikipedia.

As projeções de Bielsa acabaram não se confirmando. Com poucas oportunidades no Colo-Colo, Yashir acabou virando um andarilho do futebol. Canadá, Alemanha e Hungria. Quando estava no Újpest FC, de Budapeste, o rumo da carreira do atacante começou a mudar. “Recebi uma ligação da Federação de Futebol da Palestina. Eles perguntaram se eu queria defender a camisa da seleção nacional. Não tive dúvidas e comecei os trâmites”, revela.

Yashir despontou na base do Colo-Colo. Foto: Reprodução/PhotoSport.

A ligação de Yashir com a Palestina estava em seu nome. O bisavô materno do atacante nasceu em solo palestino e dava todas as condições para o atacante vestir a camisa da seleção asiática. O processo demorou pouco mais de um ano, quando ele já havia voltado ao futebol chileno, vestindo a camisa do Curicó Unido, na época um elenco da segunda divisão nacional. Com a chamada ao time nacional, a carreira do jogador foi impulsionada. Ele teve seu melhor ano como profissional, balançando a rede 11 vezes em 22 jogos pelos Torteros. “É o time no qual eu melhor me senti, só tenho palavras de agradecimento para a torcida”, diz.

Em março de 2016, Pinto Islame finalmente foi convocado para defender a Palestina em um jogo oficial. Yashir sentiu logo de cara que seria difícil defender a seleção de um lugar que sofre muito com sanções políticas. “Eu cheguei com o passaporte chileno e quando você entra na Palestina é necessário passar por um ponto de controle israelense. A diferença entre ser um turista chileno e um atleta palestino é enorme. O tratamento muda na hora. Pessoalmente, já tive que esperar até cinco horas no aeroporto por causa disso”, relata.

Yashir com a camisa da seleção palestina. Foto: Wikipedia.

Em campo, Yashir causou uma boa impressão em seu primeiro jogo. O atacante debutou pelos árabes em uma partida válida pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2018. O público do estádio de Hebron se empolgou com o palestino que veio de tão longe. O nascido em Santiago marcou duas vezes na goleada por 7 a 0 diante de Timor Leste.

Diáspora espalhada pelo mundo se reflete na seleção

Yashir não é o único palestino que nasceu fora da Faixa de Gaza e da Cisjordânia a defender o selecionado nacional. A diáspora palestina se espalhou com os diversos problemas já relatados neste texto e isso se reflete nas convocações atuais. Do Chile, além de Pinto Islame, vieram Jonathan Cantillana, Pablo Tamburrini, Alexis Norambuena, Matías Jadue e Rodrigo Gattas. O argentino Carlos Salom completa a legião sul-americana palestina. Os suecos Ahmed Awad, Mahmoud Eid, Hosam Aiesh, e o esloveno Jaka Ihbeisheh são os representantes europeus da equipe árabe.

Yashir ao lado de Jonathan Cantillana, outro chileno que defende a Palestina. Foto: Reprodução/maldivesfootball.com.

A relação de um time tão multicultural acaba sendo complexa. “Não falo árabe, mas a comunicação é boa já que a maioria fala inglês. Não existem problemas entre os jogadores (locais e estrangeiros) porque todos colaboram para conseguir alcançar os objetivos da seleção”, relata Yashir. Os objetivos acabaram sendo cumpridos. A Palestina conseguiu o seu melhor ranking histórico desde que entrou na FIFA em 1998 e de quebra se classificou pela segunda vez consecutiva para a Copa da Ásia, principal competição do continente, com cinco vitórias em cinco jogos. Nas Eliminatórias para a Copa, o selecionado conseguiu fazer frente à potências asiáticas, como a Arábia Saudita.

Para um andarilho do futebol que já passou por tantos países, a seleção palestina acabou apresentando paisagens inimagináveis. “O lugar mais estranho que eu já joguei foi o Butão”, conta Yashir. O atacante participou da vitória árabe por 2 a 0 em Thimphu, marcando um gol no estádio de Changlimithang que parece mais um templo budista do que um recinto esportivo. O vínculo com a Palestina ainda levou Pinto Islame ao campeonato da Malásia, onde foi campeão da segunda divisão com o Melaka United, para depois vestir a camisa de um time tradicional do país, o Perak. “A verdade é que eu me sinto sortudo por ter jogado em diversas partes do mundo. Convivi com muitas culturas e aprendi muito com cada uma delas”, reflete.

Agora, Yashir tem outras metas. Gostaria de disputar uma Copa do Mundo com a seleção asiática. A próxima parada dos palestinos é a Copa da Ásia 2019. Para a participação na competição continental, a federação apresentou um novo técnico: o boliviano Júlio César Baldivieso. Ídolo na Bolívia na época em que era jogador (disputou a Copa do Mundo de 1994 pelos altiplânicos), o técnico coleciona uma extensa passagem por clubes de seu país natal, onde foi campeão do Clausura 2008 pelo Aurora de Cochabamba. Ultimamente, ele estava no Carabobo, da Venezuela. “Falei com ele uns dias atrás e estou super motivado por ser dirigido por ele. Como atleta, teve muito êxito. Como técnico já acumula muita experiência. Vou dar o máximo de mim para que consigamos ter bons resultados”, afirma o atacante da Palestina.

Representando com orgulho a Palestina, o atual atacante do Curicó Unido, da primeira divisão chilena, mostra que a missão dele e dos outros filhos desta diáspora é mais do que esportiva, já que o futebol e a política sempre andaram de mãos dadas. “Sempre estive atento ao que acontecia na Palestina antes de jogar lá. Agora, tenho uma responsabilidade maior. Acredito que através do futebol podemos mostrar os abusos que o povo palestino sofre, além de dar um pouco de alegria para essas pessoas que estão constantemente sob repressão. Mesmo por 90 minutos, vamos mostrar que somos uma nação que luta e que pode ser feliz”, finaliza Yashir Pinto, ou como dizem pela ruas de Beit Jala e Hebron, Yasir Islame.

Nota

Reportagem escrita em março de 2018. Atualmente, Yashir Islame é jogador do PKNP da Malásia e tem 18 jogos e 7 gols pela seleção palestina.