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Young Boys: de trocadilho à potência local

Dyego Lima

Com aparições recorrentes nas últimas edições da Champions e da Europa League, o Young Boys chama atenção justamente pelo seu nome. Você, caro leitor, com certeza já deve ter se perguntado qual a origem da nomenclatura. Portanto, convido-lhe a desvendar o mistério. Fundado no dia 14 de março de 1898, o Young Boys é um clube natural da cidade de Berna, capital da Suíça. O batismo foi uma espécie de “piada” com o BSC Old Boys, da Basileia. Este, por sua vez, é assim chamado por ter sido criado a partir de um já existente Clube de Ginástica, sendo, naturalmente, mais antigo do que a equipe recém-formada. Dessa forma, “meninos velhos”.

Desde 1925, o Young Boys joga no histórico Wankdorf Stadium, com capacidade atual para pouco menos de 32 mil torcedores. O estádio foi palco de confrontos históricos como o “Milagre de Berna”, onde a Alemanha Ocidental venceu a favorita Hungria por 3 a 2 na final da Copa do Mundo de 1954. Além dele, teve também a final da Copa dos Campeões de 1961, que consagrou o Benfica, de Eusébio e companhia, com seu primeiro título do mais importante torneio de clubes europeus, batendo ninguém menos que o Real Madrid na decisão por 5 a 3.

Demolido em 2001, o estádio foi reinaugurado em 2005 com o nome de Stade de Suisse. Descontentes com a mudança, os torcedores do Young Boys chegaram a fazer uma petição antes de sua reabertura para que o nome Wankdorf, de caráter histórico e área onde o palco está situado, fosse mantido. Porém, tiveram de esperar por isso durante 15 longos anos. A CSL Behring, uma indústria de biotecnologia, comprou, no fim de 2019, os naming rights do estádio pelos próximos cinco anos, e presenteou a torcida aurinegra com a volta da nomenclatura original. O que acabou sendo bom para ambas as partes, pois a empresa conseguiu fazer um marketing positivo sem precisar apelar a um exibicionismo. O nome “Wankdorf” foi retomado no início de 2020.

Young Boys

Fonte: Wikipédia

Alvorecer surpreendente

O sucesso do Young Boys veio de maneira repentina. Um empate por 2 a 2 com o Lausanne, somado a um 7 a 0 contra o Fortuna Basel, fizeram o clube sair rapidamente da sombra do FC Bern. Em 1903, após vitórias sobre o rival de Berna por 3 a 1, além de um sonoro 5 a 0, as Abelhas foram campeãs da Central League, e convidadas a disputar as finais do Campeonato Suíço. Em 22 de março, o clube bateu o FC Zurich por 3 a 1 e conquistou a divisão Leste. Uma semana depois, a finalíssima contra o FC Neuchâtel, campeão do Oeste. O adversário, por já ter batido o Young Boys anteriormente por 4 a 1, era favorito. Entretanto, cometeu o erro de subestimar os aurinegros. Com um contundente 5 a 0, o time bernense conquistou o seu primeiro título suíço, apenas cinco anos após sua fundação.

Nas temporadas seguintes, o clube não venceu o campeonato, mas esteve sempre entre os três primeiros no grupo regional. Demorou seis anos para a equipe atingir o sucesso novamente. Porém, quando alcançou, foi perfeito. O Young Boys conseguiu o inédito tricampeonato consecutivo entre os anos de 1909 e 1911. De 1910 até 1912, as Abelhas também venceram consecutivamente a Anglo-Cup, antecessora da atual Swisscom Cup, a Copa da Suíça. Foi nessa época que os torcedores aurinegros batizaram os últimos 15 minutos das partidas de YB Quarter Hour, tão temido pelos adversários. O clube conseguia manter seu ritmo veloz durante todo o jogo, enquanto os oponentes cansavam em meados do minuto 75. Era quando o Young Boys aproveitava para decidir seus duelos. Um dos confrontos das finais de 1910, por exemplo, foi vencido dessa forma.

O período de guerras

Em 1914, quando a Primeira Guerra Mundial estourou, Spitalacker-Platz, a antiga casa do Young Boys, foi convertida num terreno para plantio de batatas. Assim, por 1.400 francos por ano, o clube alugou um espaço na área de Kirchfeld para mandar seus jogos. E mesmo com todas as dificuldades, o time acabou campeão da Liga em 1920. Após a Grande Guerra, Spitalacker-Platz voltou ao domínio do Young Boys, mas o campo de jogo já estava gasto e não agradava. Com a decisão da diretoria em buscar outro lugar para atuar, alternativas começaram a ser estudadas. Enfim, um espaço foi encontrado no nordeste de Berna, em Wankdorf, e a construção do novo estádio teve seu início.

Em 1925, a instituição mudou seu nome de FC Young Boys, para Berner Sport Club Young Boys. Também foi o ano do último jogo no antigo Spitalacker-Platz. Em outubro, o novo Wankdorf Stadium foi inaugurado, servindo como casa para os aurinegros, o Old Boys e o Servette Geneve. O novo estádio intensificou a rivalidade das Abelhas com o FC Bern, já que o rival ainda jogava no pequeno Neufeldplatz.

Em 1929, o Young Boys se fez presente no triangular final do Campeonato Suíço mais uma vez. Depois de empatar por 0 a 0 contra o Urania Geneva Sport na primeira partida e ver o Grasshopper-Club Zurich bater o mesmo adversário por 3 a 0, os aurinegros chegaram ao duelo decisivo precisando da vitória. Para o confronto de 30 de junho, por falta de jogadores, Erich Jung, goleiro reserva das Abelhas, foi escalado como meia-ofensivo. O time venceu por 2 a 0, foi campeão e impediu a terceira conquista consecutiva dos adversários.

No ano seguinte, o clube conquistou sua primeira Copa da Suíça, iniciada em 1926 após o fim da Anglo-Cup. Diante de 30 mil torcedores, bateu o FC Aarau por 1 a 0. Foi o último título da equipe antes de um período de seca que durou 15 anos. Com a crise econômica mundial acentuada em meados do fim da década de 1930, o futebol suíço sentiu os efeitos. O número de participantes na Liga caiu, tendo temporadas com apenas 12 clubes. Ao início da Segunda Guerra Mundial, o Young Boys cogitou vender seu estádio, mas uma ajuda financeira da Prefeitura de Berna, em 1943, ajudou a reduzir as dívidas.

Durante a 2° Grande Guerra, houve disputa da Liga, mas os títulos foram apenas “simbólicos”. Dado os conflitos, ela passou a ser regionalizada e, por vezes, não aconteceram rebaixamentos. Somente em 1945, com o fim das batalhas, que o Young Boys obteve sucesso novamente. Venceria sua segunda Copa da Suíça, batendo o FC St. Gallen na final por 2 a 0. Duas temporadas depois, o clube acabaria rebaixado à segunda divisão: penúltimo lugar, com apenas 18 pontos somados em 26 jogos. Levaria três anos até o retorno à elite.

O período dos sonhos

No início de 1951, Norbert Eric Jones foi demitido do cargo de treinador após um ano, sendo substituído pelo até então desconhecido Albert Sing. Naquele ponto, ninguém apostava que o Young Boys viveria seus anos mais vitoriosos sob o comando do alemão. Sing assinou para ser treinador-jogador, para só depois tornar-se exclusivamente técnico. Jogadores de alto nível, como Eugene Meier, Walter Eich, Heinz Schneite e Ernest Wechselberger, passaram a integrar o elenco aurinegro.

Em 1953, o clube conquistou a Copa da Suíça novamente. Após empatar por 1 a 1 contra o Grasshopper Zurich, uma partida desempate foi realizada cinco semanas depois, com vitória aurinegra por 3 a 1. No verão daquele ano, a equipe foi convidada a viajar pela América do Norte. Além de jogar contra alguns times locais, as Abelhas empataram por 1 a 1 com o Liverpool e venceram a Seleção Irlandesa por 4 a 1. O Young Boys foi recebido com entusiasmo ao retornar a Berna. Entre 1957 e 1960, o clube foi campeão suíço quatro vezes seguidas, tornando-se uma das equipes de maior sucesso na Europa. Em 1958, venceu mais uma Copa, novamente contra o Grasshopper.

Torcida do Young Boys

Torcida do Young Boys. Foto: Wikipédia

Desbravando a Europa

Sob o comando de Sing, o clube conseguiu grandes resultados no cenário continental. Na Copa dos Campeões de 1957–58, primeiro torneio europeu da equipe, o adversário inaugural foi o húngaro Vasas SC. Após empatar por 1 a 1 na ida, problema para o jogo de volta: por desavenças com a Hungria, alguns políticos decidiram que os clubes suíços não podiam ter contato com instituições futebolísticas húngaras, principalmente em Berna. Assim, o Young Boys teve de mandar o jogo no Charmilles Stadium, casa do Servette FC, localizado na cidade de Genebra. Apesar do apoio de 20 mil torcedores, os aurinegros foram desclassificados.

Pelo mesmo torneio, mas na temporada seguinte, a equipe alcançou o melhor resultado de um time suíço na competição, feito que seria igualado pelo FC Zurich somente em 1964. As Abelhas deixaram MTK Budapest e SC Wismut Karl-Marx-Stadt, da Alemanha Oriental, pelo caminho, e alcançaram as semifinais. Uma eliminação para o forte Stade Reims, da França, acabou com o sonho. Já em 1961, a equipe fez sua última aparição no torneio antes de um longo período de ausência. Depois de eliminar o Limerick, da Irlanda, na primeira fase, a rodada seguinte marcou o encontro com o Hamburgo, do ótimo atacante Uwe Seeler. No primeiro jogo em Berna, atropelo alemão por 5 a 0. Na volta, o placar em 3 a 3 de nada adiantou. Albert Sing deixou o comando do Young Boys em 1964, e segue sendo o treinador de maior sucesso na história do clube aurinegro.

A vida pós-Sing

O sucessor de Sing não teria vida fácil. O desempenho médio já não era mais aceitável. Heinz Bigler e Hans Grüter tentaram, mas foi Hans Merkle quem ganhou sobrevida no cargo de técnico do Young Boys. Contudo, mesmo com os jogadores da era vitoriosa ainda no clube, novas conquistas não aconteceram. Otto Messerli, que depois se tornaria capitão da equipe, comentou sobre a situação e o novo técnico:

“Havia muitas boas ideias, mas o Basel e o Zurich continuaram inatingíveis para nós”.

E não foi diferente para os sucessores de Merkle: Skiba, Schneiter, Brülls, Peters… Nada! Com o vice nacional na temporada 1974–75, o Young Boys, enfim, retornou às competições europeias. Na Copa Uefa, novamente o Hamburgo pelo caminho. E nova eliminação. Demorou até 1977 para os aurinegros comemorarem um título outra vez. Sob o comando de Kurt Linder, a Copa Nacional foi ganha pela quinta vez, após vitória de 1 a 0 sobre o FC St. Gallen. Com a conquista, veio uma vaga na Cup Winner’s Cup. A desclassificação aconteceu diante de um intimidante Rangers.

E eis que o clube resolve trocar de técnico novamente. René Hüssy substituiu Linder. Em 1979, mesmo tendo perdido a final da Copa para o Servette FC, os aurinegros participaram mais uma vez da Cup Winner’s Cup. A eliminação para o Dínamo Bucareste foi dolorida, incluindo um 6 a 0 na Romênia. O período turbulento continuou. Após várias mudanças no comando, em 1984, Alexander Mandziara foi oficializado como novo treinador. O polonês era conhecido por seu estilo de jogo ofensivo e intenso. No seu primeiro ano, as Abelhas ficaram apenas na nona colocação. No entanto, já na temporada seguinte, a redenção.

Com o incremento do sueco Georges Bregy no meio-campo, o Young Boys ia, pouco a pouco, diminuindo a enorme vantagem do Neuchâtel Xamax na liderança. No dia 24 de maio de 1986 aconteceu o confronto direto, válido pela penúltima rodada. Fora de casa, os aurinegros fizeram 4 a 1 e se igualaram aos rivais em pontos. No último jogo, o primeiro título suíço depois de 26 anos seria confirmado. Em 1987, a Copa da Suíça foi ganha pela sexta vez, com vitória por 4 a 2 contra o Servette FC. Na Cup Winner’s Cup, eliminação nas quartas de final diante do Ajax.

Novos problemas

No final da década de 1990, a antiga força do futebol europeu começou a ter problemas. Com dificuldades financeiras, o clube foi rebaixado para a segunda divisão em 1997. O primeiro descenso desde a temporada 1946–47. Já na época seguinte, a equipe conseguiu voltar à elite. E apesar de uma vitória surpreendente contra o atual campeão Grasshopper na primeira rodada, a realidade do Young Boys era totalmente diferente. As várias derrotas condenaram o time a um novo descenso.

A situação econômica delicada aproximou-o da falência, que acabou sendo evitada pela injeção de dinheiro por parte da Lucerna, uma empresa de investimentos. Na temporada 2000–01, já com um elenco mais forte, com nomes como Harutyun Vardanyan e Gürkan Sermeter, os aurinegros retornaram à primeira divisão. Já em seu primeiro ano após a volta à elite, as Abelhas voaram aos play-offs pelo título nacional. Acabaram no sétimo lugar. A equipe também alcançou as semi-finais da Copa, sendo eliminada nos pênaltis contra o Basel.

Young Boys

Campeão da liga nacional em 2018. Foto: Wikipédia

Estádio novo! Vida nova?

Na temporada de 2005, já jogando no novíssimo Wankdorf Stadium, ou Stade de Suisse, o Young Boys surpreendeu. Gernot Rohr chegou para comandar a equipe. Adotando um estilo de jogo mais defensivo, o time chegou à final da Copa, mas acabou perdendo nos pênaltis para o Sion. Já na Liga, terceira colocação. Nas competições europeias, as campanhas continuavam ruins, com eliminações nas primeiras fases. Em 2009–10, os aurinegros terminaram o Nacional com o vice-campeonato, três pontos atrás do Basel, mesmo tendo perdido apenas um jogo como mandante.

Avançando no tempo, na temporada 2017–18, enfim, comemoração. O primeiro título da Liga em 32 anos foi ganho. A confirmação veio no dia 28 de abril de 2018, com vitória por 2 a 1 sobre o Luzern. O Young Boys quebrou uma sequência de oito conquistas consecutivas do Basel. O posto de campeão acabou sendo mantido nas últimas duas temporadas. Em 2019-20, os aurinegros também venceram a Copa da Suíça.


Como citar

LIMA, Dyego. Young Boys: de trocadilho à potência local. Ludopédio, São Paulo, v. 140, n. 43, 2021.