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Zezé Procópio, do Sul de Minas Gerais, e o mundo da bola

Eduardo Bueno Fontes

Você se lembra de quando o futebol era jogado pela paixão de se jogar e não pelo dinheiro? O sul de Minas já estava no mapa das Copas do Mundo de futebol.

É sobre aquela época que este breve texto tem por objetivo analisar, no intuito de enfocar a trajetória histórica de um jogador específico daquele período romântico do futebol e tentar fazer uma releitura na história sobre o que é, normalmente, contado a respeito desse jogador, que foi Zezé Procópio.

Mas qual seria a importância de Zezé Procópio para o futebol? Provavelmente, pouca no que se refere à história do futebol brasileiro, mas muita para a história do futebol do Sul de Minas Gerais e, mais especialmente, da cidade de Varginha.

José Procópio Mendes, mais conhecido como Zezé Procópio, foi um jogador de futebol brasileiro que atuou em sua carreira na lateral direita e no meio campo. Era considerado bem melhor na marcação do que no apoio, algo raro para aquela época.  Ele nasceu em Varginha (MG) em 10 de abril de 1913, cabendo aqui uma correção histórica em relação a tal data. Em vários livros sobre Copas do Mundo, revistas e periódicos, aparece a informação de que o jogador havia nascido em 12 de agosto de 1913, e, em algumas fontes, de que seu local de nascimento teria sido Varginha (MG) enquanto, em outras, aparece a cidade de São Lourenço (MG). De acordo com a certidão de nascimento, Zezé Procópio realmente nasceu em Varginha (MG), filho de Joaquim Procópio Mendes e Francisca Cândida Pereira, em 10 de abril de 1913 e faleceu em 08 de fevereiro de 1980, em Valença (RJ). Seu corpo foi sepultado em São Lourenço (MG), terra natal de sua esposa.

Certidão de Nascimento Zezé Procópio

Cópia da reedição da Certidão de Nascimento de Zezé Procópio. Foto: Imagem cedida pela Fundação Cultural de Varginha.

Segundo José Aloisio Paione – um apaixonado pelo futebol de Varginha – Zezé Procópio, inicialmente, era padeiro de profissão e trabalhava na Padaria Fenoci, em meados dos anos 1920, e jogava em um time amador da cidade.

Durante os 16 anos em que jogou futebol, teve uma pequena passagem pelo Guarani da Lagoinha (BH), defendeu o Villa Nova Atlético Clube de Nova Lima (MG), o Clube Atlético Mineiro (MG), além de Palestra Itália (SP) por duas vezes distintas (no período em que houve a mudança no nome para Sociedade Esportiva Palmeiras em 1942, no contexto da Segunda Guerra Mundial), Botafogo de Futebol e Regatas (RJ) e São Paulo Futebol Clube (SP). Zezé Procópio foi campeão mineiro em 1933, 1934 e 1935 pelo Villa Nova (MG), e em 1936 e 1937 pelo Atlético (MG), sendo que, em 1937, também ganhou a Copa dos Campeões pela FBF (Federação Brasileira de Futebol). Fora dos gramados de Minas Gerais, o jogador também foi campeão paulista pelo Palmeiras em 1940 e 42, e pelo São Paulo em 1943. A título de estatística, Zezé atuou pelo São Paulo em 49 jogos com 36 vitórias, 07 empates e 06 derrotas. No Palmeiras, atuou em 107 jogos com 74 vitórias, 18 empates e 15 derrotas. Infelizmente, não foi possível, neste momento, obter esses dados dos outros clubes onde o jogador atuou. Algumas fotos da passagem de Zezé Procópio pelo São Paulo Futebol Clube ao lado do legendário Leônidas da Silva na década de 1940.  

Figura 3

Pelo São Paulo, década de 1940. Em pé: Zarzur, Piolim, Virgílio, King, Zezé Procópio e Noronha. Agachados: Luizinho, Sastre, Leônidas da Silva, Remo e Pardal. Foto: Imagem cedida pela Fundação Cultural de Varginha.

Entretanto, foi durante sua passagem pelo Botafogo (RJ) que ocorreu sua convocação para defender a Seleção Brasileira na Copa na França, em 1938. Segundo o livro Seleção Brasileira − 90 Anos (2004), de Antônio Carlos Napoleão e Roberto Assaf, Zezé Procópio disputou 20 jogos com a camisa do Brasil, com 10 vitórias, 04 empates e 06 derrotas. Conquistou o terceiro lugar inédito na Copa de 1938, na França, e a Copa Roca em 1945.

A passagem de Zezé Procópio pela seleção brasileira é o principal aspecto tratado neste artigo. Muito antes de o Brasil conquistar um título mundial de futebol, na Copa da Suécia, em 1958, até então, a Copa de 1938 disputada na França revelara-se como a melhor participação do país na competição, com um honroso terceiro lugar, com um time que havia empolgado a Europa. Curiosamente, foi a primeira copa com transmissão pelo rádio, na voz de Gagliano Neto, único speaker (à época, não se usava o termo locutor) a transmitir os jogos para o Brasil. Max Gehringer, informa que foi o primeiro jogo que teve transmissão direta por rádio para o Brasil (GEHRINGER, 2010, p. 61), sendo que Gagliano Neto narrou o jogo em pé, à beira do gramado, sem comentarista e sem repórter de campo (GEHRINGER, 2010, p. 61). O jogo foi um dos mais disputados na história das copas do mundo, o Brasil derrotou a Polonia num jogo movimentado pelo placar de 6 x 5, sendo que o Diamante Negro, Leônidas da Silva, companheiro de Zezé Procópio na seleção e mais tarde no São Paulo, marcou 3 gols e viria a ser o artilheiro daquela copa “com sete gols marcados em quatro jogos (três contra a Polonia, dois contra a Tchecoslováquia e dois contra a Suécia)” (GEHRINGER, 2010, p. 83).  

Portanto, na Copa de 1938, 20 anos antes da estreia de Pelé em copas do mundo, o Sul de Minas levara a uma copa do mundo de seleções não apenas um representante, mas dois: além de Zezé Procópio, oriundo de Varginha (MG), Hércules, que era jogador do Fluminense Football Club e proveniente de Guaxupé (MG).

Por esse motivo, o Sul de Minas, principalmente a cidade de Varginha (MG), se orgulha por ter tido o primeiro representante da região em uma Copa de Mundo com alguma repercussão.

Infelizmente, essa repercussão não se deu da melhor forma possível. Na segunda partida da Copa de 1938, o Brasil tinha como adversário a Tchecoslováquia, no dia 12 de junho. Foi um jogo dramático e tumultuado, que terminou empatado em 1 a 1, mesmo depois da prorrogação. O jogo ficou conhecido como “A batalha de Bordeaux”, por ter sido tão violento (GEHRINGER, 2010, p. 70).  O fato inusitado desta partida envolve nosso personagem. Numa disputa de bola um tanto ríspida, Zezé Procópio entrou duro na dividida e acabara por ser expulso pelo árbitro da partida, Pál Von Hertzka (Hungria) aos 14 min. de jogo, que considerou a falta violenta, um chute sem bola no jogador Nejedlý da Tchecoslováquia. Ainda não existiam os cartões amarelo e vermelho como instrumentos de sinalização da arbitragem, e a expulsão se dava por gestos e pela fala do árbitro, o que geralmente causava problemas de comunicação em competições internacionais. Mais uma curiosidade, a falta aconteceu aos 11 minutos da partida, mas com toda dificuldade imposta pela falta de cartões e da barreira da língua, apenas 3 minutos após a falta que se entendeu que Zezé havia sido expulso pelo árbitro, e que durante aquela partida, mais duas expulsões aconteceriam.

Zezé Procópio seleção brasileira

Pela Seleção de 1939 – Copa Roca. Foto: Imagem cedida pela Fundação Cultural de Varginha.

Zezé Procópio, naquele momento, tornava-se não só o primeiro representante do Sul de Minas a defender a seleção brasileira de futebol em uma Copa do Mundo, mas também o primeiro jogador da seleção a ser expulso em uma Copa do Mundo. Outro aspecto relevante em sua participação na Copa de 1938 foi o fato de não ter marcado nenhum gol e, de acordo com alguns relatos, de praticamente não ter chegado perto do gol adversário. Ele só não disputou uma partida durante a copa, nas outros que disputou, atuou muito bem, mas marcar gols nunca foi o seu forte. Algumas fotos de sua passagem pela seleção brasileira de futebol.

Zezé ainda tentaria a carreira de técnico de futebol nas décadas de 1950 e 1960. Como destaque, foi técnico do Botafogo de Ribeirão Preto de novembro a dezembro de 1962. Dirigiu a Esportiva de Guaratinguetá em 1963 e, em 1967 e 1968, foi o técnico do São Carlos Clube, sem nenhum sucesso como técnico de futebol.

Referências Bibliográficas

GEHRINGER, Max. Almanaque dos mundiais por Max Gehringer: os mais curiosos casos e histórias de 1930 a 2006. São Paulo: Globo, 2010.

NAPOLEÃO, Antônio Carlos; ASSAF, Roberto. Seleção Brasileira – 90 Anos. Rio de Janeiro: Editora Mauad, 2004.

Sites

Blog do Madeira. Acesso em: dez. 2020.

Memórias do Esporte. Acesso em: dez. 2020.

Palmeiras. Acesso em: out. 2018.

Terceiro Tempo. Acesso em: out. 2018.

Thing Link. Acesso em: out. 2018.

Estado de Minas. Acesso em: out. 2018.

Sul Minas. Acesso em: out. 2018.

Stadium Varginhense. Acesso em: out. 2018.


Como citar

FONTES, Eduardo Bueno. Zezé Procópio, do Sul de Minas Gerais, e o mundo da bola. Ludopédio, São Paulo, v. 141, n. 18, 2021.