A bola, os “brancos” e as toras

Autores

Fernando de Luiz Brito Vianna

Subtítulo

futebol para índios xavantes

Orientador

Beatriz Perrone-Moisés

Banca

Dominique Tilkin Gallois, Nadia Farage

Faculdade / Instituição

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo

Tipo

Dissertação

Área de concentração

Mestrado em Antropologia Social

Ano

2001

Páginas

459

Cidade

São Paulo

Resumo (pt)

A parcela do povo indígena Xavante (família lingüística jê) que vive na área de Sangradouro (sudeste do estado do Mato Grosso) está no centro da situação etnográfica abordada neste trabalho. Cambiante e “expansionista”, a situação confere sentido à própria relação com o pesquisador: trata-se de xavantes que atravessam processo de fissão política resultante na criação de nova aldeia, que ampliam seus laços de sociabilidade em São Paulo, que formam uma “ong” sediada nesta capital e que convidam o autor, ex-jogador profissional, a conciliar seus próprios interesses etnológicos com uma espécie de “assessoria futebolística” a eles. É esse o ponto de engate entre a investigação aqui resumida e a específica realidade xavante de Sangradouro. Com base numa aproximação inicial dessa realidade que assim se condicionou, a dissertação vasculha caminhos para o tratamento teórico de fenômeno de larga recorrência mas pouco estudado até o presente: a atração de povos indígenas pelo conhecido esporte de penetração mundial. Esforça-se por situar o futebol em termos históricos e desde o ponto-de-vista desses xavantes, e descreve a multi-facetada presença da prática esportiva na sua vida contemporânea. O futebol organizado, praticado e assistido cotidianamente, campeonatos dentro da terra indígena e nas cidades vizinhas, encontros inter-aldeias, o horizonte do profissionalismo e a relação estabelecida com o pesquisador integram, com diferentes níveis de aprofundamento etnográfico, o texto apresentado. Seus destaques, porém, vão para: (1) os modos como os xavantes formam equipes esportivas, (2) os nexos de sentido, por eles sugeridos, entre a corrida de toras, célebre instituição dos Jê, e a atividade física que aprenderam e têm aprendido com não-índios (3) o lugar que o futebol ocupa, já há algum tempo, no universo de relações sociais estabelecidas com os “brancos” e outros índios. Um tripé de meio-campo que leva a repensar a circunscrição etnográfica e os parâmetros comumente utilizados para analisar a entidade chamada “sociedade xavante”.

Sumário

DEPOIS DE TUDO; ANTES DE MAIS, 1
1. A pesquisa e o texto: percurso e esclarecimentos iniciais, 3
2. A equipe e a torcida, 7
3. O texto: convenções e esclarecimentos adicionais, 12
CAPÍTULO I – O TRATAMENTO DO OBJETO, 14
1. Índios e futebol, o caso xavante, 15
2. Aquecimento, 20
2.1. Xavante, povo jê, 20
2.2. A bola, as regras e os ameríndios, 24
2.3. As noções de “jogo” e “esporte”, 27
2.4. Esporte na sociedade xavante: futebol e corrida de toras, 33
3. Preleção, 40
3.1. Futebol para índios xavantes, 41
3.2. Da pesquisa realizada ao texto apresentado, 43
CAPÍTULO II – VISITAS, DESLOCAMENTOS, ENCONTROS, 48
1. A área de Sangradouro, 49
1.1. Características gerais, 50
1.2. O universo regional, 56
2. Com os salesianos, 59
2.1. Salesianos na ribalta, 60
2.2. Vício, ópio?, 62
2.3. Lugares do futebol, 63
3. Entrando em campo, 65
3.1. Do internato salesiano para São Paulo, 69
3.2. Trajetos dum xavante, 72
3.3. Pesquisador-futebolista, 74
4. A criação da Abelhinha e sua “embaixada” paulistana, 80
4.1. A “Associação”, 84
4.2. Os amigos e a figura de Hipa, 86
4.3. A área de esportes, 89
4.4. O pólo paulistano da “Associação”, 91
5. Um pouco de história, 94
CAPÍTULO III – XAVANTES NOS ANOS 1990, 96
1. Economia e ecologia, 98
2. Descendência patrilinear e exogamia, 100
2.1 Clãs e metades, 100
2.2 Linhagens, 105
3. Facciosismo político, 108
3.1 Parentesco e política, 108
3.2 Dualismo e facciosismo, 109
4. Casamento, 112
4.1 Um experimento, 113
4.2 Irmãos, primos e cônjuges, 116
4.3 A relação “watsiní“, 118
5. Residência e relações entre aldeias, 123
6. Classificações etárias, 126
6.1 Categorias e classes de idade, 127
6.2 O danhõno,130
6.3 Decorrências, 134
7. Sistema de harmonia e sistema de desarmonia, 137
8. Modelos anteriores e pesquisa recente, 141
 

CAPÍTULO IV – BOLA ROLANDO, 142
1. O futebol em vários planos de sociabilidade, 143
1.1 Cotidiano, 143
1.2 A presença do pesquisador, 147
1.3 Campeonatos internos, 157
1.4 Encontros inter-aldeias, 174
1.5 Na cidade, 177
2. Algumas faces do futebol xavante, 186
2.1 Material esportivo, 187
2.2 Os espaços de jogo, 190
2.3 Futebol assistido, 194
2.4 Vitória/ derrota, 199
2.5 Um “terceiro tempo” e a exortação à busca da vitória, 202
3. Formação de equipes, 206
3.1 Os times do cotidiano: critérios de constituição, 207
3.2 Jogadores, dirigentes e times de campeonatos, 213
CAPÍTULO V – FUTEBOL NA CABEÇA, 221
1. O tempo passa, 223
1.1 Visões xavantes da chegada do futebol, 225
1.2 A posição dos velhos, 228
1.3 A simbologia dos wapté. e o mito de pirinai”a, 231
1.4 Tempo, espaço e qualidade de relações com os “brancos”, 236
1.5 Passado, presente e futuro, 246
2. O vivido e o concebido, 258
2.1 Futebol ao pé da letra, 258
2.2 Associações nem tão livres assim, 261
2.3 As toras e a bola, 262
3. Volver às toras, 268
3.1 Prática antiga, velhas questões, 270
3.2 Corridas xavantes, 273
3.3 Xavantes da Abelhinha e “os Xavante” de Maybury-Lewis, 277
3.4 Mudança?, 279
CAPÍTULO VI – ELES E NÓS: RELAÇÕES FUTEBOLÍSTICAS E OUTRAS QUE
                               TAIS, 283
1. “Brancos”: uma incerta figura, 287
1.1 A “meta-sociedade”, 289
1.2 O interior e o exterior, o si-mesmo e o outro, 292
1.3 “Exterior” e “outro” em que sentidos?, 295
1.4 Esporte, guerra e política: excurso ao Alto Xingu, 299
1.5 A posição de waradzu, as relações com não-índios, 301
1.6 Intervalo especulativo: xamanismo e futebol, 310
1.7 Identidade/ alteridade étnica no futebol xavante?, 316
1.8 Um tipo particular de rito, 321
2. Contraponto panará, 327
2.1. Relações pacíficas com um inimigo ambivalente, 327
2.2. O dualismo jê e o “branco” na aldeia, 328
2.3. Instabilidade sociocosmológica e atividade futebolística, 329
2.4. “Alojar” a alteridade e “projetar-se” em sua direção, 332
2.5. A “cultura” e a “sociedade” dos “brancos”, 333
2.6. Corporalidade e profissão, 338
3. Comentários mais gerais, 339
DESTAQUES DA PARTIDA, 343
REFERÊNCIAS, 348

Referência

VIANNA, Fernando de Luiz Brito. A bola, os “brancos” e as toras: futebol para índios xavantes. 2001. 459 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.