A Copa do Mundo de 2014

Autores

Mauricio Costa de Carvalho

Subtítulo

Brasil entre cidades de exceção e cidades rebeldes

Orientador

Ricardo Mendes Antas Junior

Banca

Fabio Betioli Contel, Adriana Maria Bernardes da Silva

Faculdade / Instituição

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo

Tipo

Dissertação

Área de concentração

Mestrado em Geografia Humana

Ano

2014

Páginas

169

Cidade

São Paulo

Resumo (pt)

Esta dissertação tem por objetivo analisar a realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014 no Brasil, levando em consideração não apenas seus legados e impactos mais evidentes, mas principalmente compreendendo-a como parte substantiva da dinâmica mais geral do modo de produção capitalista em sua relação com as cidades-sede, os lugares. Como maiores eventos do planeta, as Copas apresentam-se como veículos passageiros e particulares do processo de totalização do capitalismo, sendo simultaneamente matrizes parciais do tempo e do espaço desse período histórico marcado pela crise econômica internacional. Nesse movimento, tendo os lugares como espaços finais de sua realização, esses megaeventos deixam marcas profundas; promovem a qualificação de uma determinada fração do tempo no qual ocorrem, determinados pelas necessidades do capital de se reproduzir lucrativamente, algo complexo nesse momento crítico. A totalidade, essa “trama de eventos” emaranhada entre as necessidades e possibilidades concretas dos lugares, ganha novos desenhos nas cidades a partir do contato com a agenda estabelecida pelo megaevento. Desde 2007, quando o Brasil foi escolhido como sede do Mundial e a crise econômica já aparecia no horizonte dos Estados Unidos e da Europa, as cidades brasileiras vivem a realidade desta agenda crítica pautada pela Federação Internacional de Futebol (FIFA). Tendo como pano de fundo as estratégias rígidas das corporações patrocinadoras e interessadas no evento, promove-se um verdadeiro estado de emergência para o atendimento das normas e “padrões FIFA”. Tomadas por uma avalanche de obras e negócios imobiliários desvinculados de planos estratégicos associados às necessidades mais sentidas da população, as cidades-sede tornam-se experimentos de novas formas de privatização e espoliação, sob o regime de leis de exceção e violações de direitos. Tal dinâmica – imposta às cidades da Copa como um todo – é manifesta de forma evidente na elaboração de uma nova centralidade na Região Metropolitana de Recife por meio da construção do grande empreendimento imobiliário “Cidade da Copa”, a partir do novo estádio construído para o evento. Trata-se pois, da eclosão no Brasil de uma crise fundamentalmente urbana que, se por um lado estrutura verdadeiras “cidades de exceção”, no outro vértice promove também a força criativa das resistências. Como demonstraram as manifestações urbanas multitudinárias de junho de 2013 e os protestos ininterruptos que se seguiram a elas, a revanche dos lugares à agenda da Copa pode estruturar também “cidades rebeldes” como legados.

Abstract

This dissertation aims to examine the implementation of the World Cup 2014 in Brazil, taking into consideration not only its legacy and most obvious impacts, but mostly understanding it as a substantive part of the wider dynamics of the capitalist way of production in its relationship with the host cities, the places. As some of the biggest events on the planet, the World Cups are presented as individual and transitory vehicles of the aggregation process of capitalism, while being simultaneous matrices of time and space during this historical period marked by global economic crisis. In this movement, having spaces as the places of their full realization, these mega events leave deep marks; they promote the qualification of a certain fraction of the time in which they occur, determined by the needs of capital to play profitably, something complex during this critical moment. The totality, this “web of events” tangled between the concrete needs and possibilities of places, gains new designs in cities from contact with the agenda set by the mega event. Since 2007, when Brazil was chosen to host this event and the economic crisis had already appeared on the North American and European horizon, Brazilian cities are living the reality of a critical agenda guided by the International Football Federation (FIFA). In the background of the rigid strategies of the sponsors and corporations interested in the event, a true state of emergency is promoted to meet norms and “FIFA standards”. Taken by an avalanche of construction sites and real state negotiations unrelated to strategic plans that take into account the needs of the population, the host cities become experiments in new forms of privatization and dispossession, under the regime of emergency laws and rights violations. Such dynamics – imposed on the World Cup cities as a whole – is clearly manifested in the drafting of a new central location in the metropolitan area of Recife through the construction of large real estate project called “Cidade da Copa”, around the stadium built for the event. This is the outbreak in Brazil of a fundamentally urban crisis, where on the one hand “cities of exception” are structured, and in another vertex a creative power of resistance is also promoted. As demonstrated in the multitudinous urban protests of June 2013 and the uninterrupted protests that followed them, the requital that took places in host cities can also structure “rebellious cities” as legacies.

Sumário

Introdução, 17

1. Geografia Política da Copa do Mundo em tempos de crise, 21
1.1.Evento e megaevento, 21
1.1.1. Geografia e evento, 23
1.1.2. Uma abordagem geográfica dos megaeventos, 28
1.2.Crise econômica e a nova geopolítica das Copas, 38
1.2.1. O “novo imperialismo”: da política dos Estados à política das Empresas, 40
1.2.2. O papel das finanças e a “porosidade” dos territórios nacionais, 43
1.2.3. Capital, Crise e a Nova Geopolítica da FIFA, 46

2. Cidades da Copa, 53
2.1.Apontamentos para uma economia política das cidades da Copa e o
discurso dos legados, 53
2.1.1. Experiências históricas e crítica aos métodos oficiais de mensuração dos impactos dos megaeventos, 64
2.1.2. Apontamentos acerca das transformações da Copa na infraestrutura, 74
2.1.2.1. Estádios, 75
2.1.2.2. Mobilidade Urbana, 81
2.1.2.3. Aeroportos e Portos,83
2.1.2.4. Distribuição do custo global dos investimentos, 86
2.2.O padrão normativo da Copa no Brasil, 92
2.2.1. Normas e Território, 92
2.2.2. Pluralismo jurídico e esvaziamento da política na globalização, 94
2.2.3. Leis da Copa, 98
2.2.3.1. Garantias Governamentais, 102
2.2.3.2. Lei Geral da Copa, 103
2.2.3.3. Contrato das Cidades Sede, 104
2.2.3.3.1. Fan Fest, 109
2.2.3.4. Regime Diferenciado de Contratações, 111
2.2.3.5. Endividamento e isenções fiscais, 111
2.3.Crise econômica e Crise urbana, 113
2.3.1. Acumulação por espoliação e as cidades, 115
2.3.2. Cidades de exceção versus cidades rebeldes, 119

3. A Cidade da Copa, 128
3.1.Projetos iniciais e a “Opção Metropolitana”, 130
3.2.Smart City da Copa,138
3.3.Arranjos normativos e “excepcionalidades”, 143
3.4.Qual “Novo Recife”?, 151

CONSIDERAÇÕES FINAIS, 154

REFERÊNCIAS, 157

Referência

CARVALHO, Mauricio Costa de. A Copa do Mundo de 2014: Brasil entre cidades de exceção e cidades rebeldes. 2014. 169 f. Dissertação (Mestrado em Geografia Humana) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.