‘A várzea é imortal’

Autores

Raphael Piva Favalli Favero

Subtítulo

abnegação, memória, disputas e sentidos em uma prática esportiva urbana

Orientador

José Guilherme Cantor Magnani

Banca

Jose Paulo Florenzano, Gilmar Mascarenhas, Luiz Henrique de Toledo

Faculdade / Instituição

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo

Tipo

Dissertação

Área de concentração

Mestrado em Antropologia Social

Ano

2019

Páginas

128

Cidade

São Paulo

Resumo (pt)

Essa pesquisa teve como ponto de partida a ameaça de extinção de um espaço que reúne seis campos de futebol de várzea na cidade de São Paulo. Trata-se do Complexo de Campos de Futebol do Campo de Marte, instalado em um terreno que há décadas é disputado pela Aeronáutica (União) e pela Prefeitura da cidade. Inicialmente, buscou-se articular esse conflito específico a uma questão mais ampla: o  que fazia com que o futebol de várzea, prática cuja trajetória é marcada pelo fim de vários de seus espaços, continuasse ocupando um papel relevante como modalidade de lazer e associativismo popular na cidade de São Paulo? Partindo da perspectiva dos varzeanos que construíram os seus campos nesse terreno a partir dos anos 1960 e que, desde então, lidam com a possibilidade de terem que deixar esse espaço, chegou-se a apreensão de uma lógica interna que rege essa prática e sua profunda conexão com o contexto social em que se inserem. O futebol de várzea, para esses varzeanos, só seria viável pela abnegação de seus personagens, uma postura necessária para a conquista e manutenção de um universo que se constrói, sobretudo, a partir de ações de autoconstrução e de constantes negociações. Tanto em sua dimensão espacial, onde a figura do abnegado ocupa um papel central por resolver, dentro de seu clube e no campo varzeano como um todo, muitas das questões impostas pela política do Estado de não proporcionar o direito ao lazer e ao esporte, assumindo, por um lado, as vezes de instância auto reguladora, e por outro, de provedor de infraestrutura e mediador de interesses. Como em sua dimensão esportiva, onde sem a presença de uma instituição ou entidade que tenha se estabelecido ao longo de sua trajetória como organizadora e reguladora dessa prática, essa tarefa foi levada a cabo pelos próprios varzeanos a partir de múltiplas alianças e referências.

Palavras-chave: futebol de várzea; São Paulo; antropologia do esporte; antropologia urbana; autoconstrução.

Abstract

This research had as a starting point the threat of extinction of a space that gathers six football fields of várzea in the city of São Paulo. It is the Complexo de Campos do Campo de Marte, installed in a land that has been disputed for decades by the Aeronautics (Union) and by the town council. Initially, we tried to articulate this specific conflict to a broader question: what made várzea football, a practice whose trajectory is marked by the end of several of its spaces, continued to play a relevant role as a leisure modality and popular associativism in Sao Paulo City? Starting from the perspective of the Varzeans who built their fields on this terrain from the 1960s onwards, and since then they have dealt with the possibility of having to leave this space, we came to the apprehension of an internal logic that governs this practice and its deep the social context in which they are inserted. Várzea football, for these Varzeans, would only be viable due to the abnegation of their characters, a posture necessary for the conquest and maintenance of a universe that is built, above all, by actions of self-construction and constant negotiations. Both in its spatial dimension, where the self-sacrificing figure occupies a central role within his club and the Varzean camp as a whole, many of the issues imposed by the State’s policy of not providing the right to leisure and sport, , on the one hand, sometimes as a self-regulatory body, and on the other as an infrastructure provider and mediator of interests. As in its sporting dimension, where without the presence of an institution or entity that has established itself along its trajectory as organizer and regulator of this practice, this task was carried out by Varzeans themselves from multiple alliances and references.

Keywords: várzea football; São Paulo; anthropology of sport ; urban anthropology; self-build

Sumário

Introdução, 11
O futebol de várzea na cidade de São Paulo: um breve panorama histórico, 11
Entrando em campo, formulando o problema: de varzeano a pesquisador, 13
“Nada acontece… e agora?”: ninguém joga sozinho, 15
De pesquisador à militante: Parque Campo de Marte, reviravolta ou mais um novo capítulo?, 19
Pressupostos teórico-metodológicos, 21

Capítulo 1: Campo de várzea: artefato da impermanência, 23
Um oásis do futebol de várzea em São Paulo: o Complexo de Campos do Campo de Marte, 23
O quintal da Casa Verde, 26
Moradia versus futebol: o surgimento dos campos, 29
Arranjo inseguro de posse: nas relações incertas com o Estado, 41

Capítulo 2: À beira da dissolução ou lutando contra o fim: os abnegados da várzea, 47
“Quem fez isso aqui foi o amor pelo clube”: os abnegados da autoconstrução, 49
Samba, política e futebol: o abnegado que articula a luta, 55
Entre expulsões e deslocamentos: o abnegado que não deixa o clube morrer, 61
Do Parque do Povo ao Campo de Marte, 68

Capítulo 3: O futebol que se autoconstrói: as fronteiras da várzea de São Paulo, 72
Amistosos, 82
“Não tem essa de amistoso na várzea”: o compromisso dentro dos clubes, 87
“A glória de um time era a invencibilidade”, 91
Os juízes “da casa”, 95
Jogando fora do “pedaço”: as fronteiras simbólicas dos amistosos, 98
A Liga do Daniel ou como se encontrar para jogar, 101
Campeonatos e torneios, 107
Pedaços em um mesmo espaço: fronteiras negociadas, 107
Super Copa Pioneer, a Champions League da várzea, 113
A profissionalização da várzea?, 116
Do futebol profissional à várzea: a trajetória de um torcedor organizado, 119

Considerações finais, 121
A várzea é imortal ou o meu medo maior é o espelho se quebrar, 122
Bibliografia, 126

Referência

FAVERO, Raphael Piva Favalli. ‘A várzea é imortal’: abnegação, memória, disputas e sentidos em uma prática esportiva urbana. 2019. 128 f. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2019.