“Da visão que eu tenho, do que eu vivi, não sei muito no que acreditar”

Autores

Maria Thereza Oliveira Souza

Subtítulo

atletas da seleção brasileira feminina e as memórias de um futebol desamparado

Orientador

André Mendes Capraro

Banca

Marcelo Moraes e Silva, Silvana Vilodre Goellner

Faculdade / Instituição

Setor de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Paraná

Tipo

Dissertação

Área de concentração

Mestrado em Educação Física

Ano

2017

Páginas

128

Cidade

Curitiba

Resumo (pt)

O futebol, que pode ser considerado um símbolo da identidade brasileira, é atrelado à figura masculina no país. Há uma grande inconstância do futebol competitivo de mulheres no Brasil e, apesar de significativos resultados recentes do selecionado brasileiro, além da reconhecida trajetória da jogadora Marta, eleita por cinco vezes consecutivas a melhor jogadora do mundo entre 2006 e 2010, o Brasil ainda se encontra em um estágio embrionário de desenvolvimento referente às estruturas de clubes e competições. Por essa razão as seguintes perguntas norteadoras foram elaboradas: como atletas que já atuaram pela seleção brasileira de futebol feminino constituem e representam suas memórias a respeito de sua prática? De que maneira elas se posicionam frente aos problemas, dificuldades e possibilidades que este esporte apresenta no país? E ainda, de que forma são representadas as diferentes formas de feminilidade por meio de suas reminiscências? Para responder aos questionamentos propostos, recorreu-se à metodologia de História Oral, que serviu como base de elaboração e análise de entrevistas produzidas no encontro com atletas e ex-atletas de futebol feminino. Para a delimitação das entrevistadas utilizou-se como critério principal de inclusão a confirmação de passagens pela seleção brasileira a partir da década de 2000. Por se tratar de uma pesquisa que tem foco nas experiências das participantes em relação as suas práticas no futebol, foi utilizada a subdivisão metodológica de entrevistas temáticas. As entrevistas permitiram aferir que as interdições em relação às meninas no futebol não se dão necessariamente ou exclusivamente por seu sexo, mas sim pela diferença de habilidade técnica apresentada em relação à maioria dos meninos. Foi notável ainda que algumas atletas, ao mesmo tempo em que se sentem prejudicadas por algumas pressões exercidas, agem elas mesmas na consolidação dos padrões que, aparentemente, deveriam ser seguidos, já que defendem uma mudança na aparência das jogadoras de futebol para que possa haver um desenvolvimento e uma aceitação maior das mulheres na modalidade. As construções de memória também apontaram para a existência de diferentes formas de se sentir feminina, ou seja, não há uma forma de ser mulher e sim várias maneiras de se viver e entender sua própria feminilidade. Além disso, pôde-se identificar em suas narrativas que a estrutura oferecida pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) para a seleção brasileira parece ser uma grande exceção em meio ao universo caótico que a modalidade vive no país e que o panorama do futebol praticado no Brasil é totalmente diverso em relação àquele que é desenvolvido em países europeus nos quais algumas atletas jogaram. Para o desenvolvimento da modalidade, as atletas descreveram algumas alternativas, das quais se destacam um maior investimento nas categorias de base e a maior participação das próprias atletas na organização do futebol. Por fim, é importante frisar como as narrativas evocadas pelas atletas foram influenciadas pelas condições encontradas durante o diálogo com os pesquisadores, pelas características destes últimos e pelo trabalho da memória – aspectos que apontam para a necessidade de não tratá-las como a visão geral de uma categoria, mas sim como as diferentes formas de retratar as vivências dentro de um grupo com características símiles.

Abstract

Football, which can be considered a symbol of Brazilian identity, is linked to the male figure in the country. There is an inconstancy of women’s competitive soccer in Brazil and, despite significant recent results of the Brazilian national team, in addition to the well-known trajectory of the player Marta, elected five consecutive times the best player of the world between 2006 and 2010, Brazil is still in an embryonic stage of development regarding structures of the clubs and competitions. For this reason the following guiding questions have been elaborated: how athletes who have already played for the Brazilian women’s soccer team constitute and represent their memories about their practice? How they stand about the problems, difficulties and possibilities that this sport presents in the country? Also, how the different forms of femininity are represented by their reminiscences? To respond to the proposed questions, it was used the Oral History methodology, which served as basis for the elaboration and analysis of interviews produced in the encounter with athletes and former athletes of female soccers. For the delimitation of the interviewees, it was used as main criterion, the confirmation of passages by the Brazilian team in the 2000s. Because it is a research that focuses on participants’ experiences in relation to their practices in soccer, was chosen thematic interviews as methodological subdivision. The interviews made possible to verify that the prohibitions about girls playing soccer do not necessarily or exclusively occur because of their sex, but because of the difference in technical ability presented in relation to the majority of boys. It was also notable that some athletes, while feeling pressured by some pressures exerted, act themselves in the consolidation of the standards that, apparently, should be followed, since they defend a change in the appearance of the soccer players to happen development and acceptance of women in the sport. Memory constructions have also pointed to the existence of different ways of feeling feminine, that is, there is not a way to be woman, but several ways to live and understand your own femininity. In addition, it was possible to identify in their narratives that the structure offered by the CBF (Brazilian Football Confederation) for the brazilian team seems to be a exception in the middle of the chaotic universe that the modality lives in the country and that the panorama of the soccer practiced in Brazil is totally diverse in relation to eropean countries in which some athletes played. For the development of the modality, the athletes described some alternatives, of which stand out a bigger investment in the basic categories and the participation of the athletes in the organization of the soccer. Finally, it is important to emphasize how the narratives evoked by the athletes were influenced by the conditions encountered during the dialogue with the researchers, by the characteristics of them and by the work of memory – aspects that point to the need of not to treat them as the general view of a category, but as the different ways of portraying the experiences within a group with simile characteristics.

Sumário

PRÓLOGO – EU E O FUTEBOL, 7

1. INTRODUÇÃO, 9
1.1 O FUTEBOL FEMININO E O CAMINHO IRREGULAR PERCORRIDO NO BRASIL,10
1.2 CAMINHOS METODOLÓGICOS – um diálogo com fontes vivas, 24
1.2.1 Memória, 30
1.2.2 Dados técnicos da pesquisa,32

2. FUTEBOL E FEMINILIDADE – uma aproximação necessária?, 39
2.1 “O QUE VOCÊ ‘TÁ’ FAZENDO AQUI?” – intrusas conquistando representatividade, 42
2.2 “VOCÊ NASCEU MULHER E VOCÊ É MULHER” – feminilidade e pressão estética, 53
2.3 CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES, 70

3. CONFEDERAÇÃO BRASILEIRA DE FUTEBOL E O UNIVERSO FEMININO
DA MODALIDADE NA ÓTICA DAS COLABORADORAS, 74
3.1 “CHEGAR A UM LUGAR QUE TODO MUNDO QUER IR” – formato das convocações e
orgulho em representar o país, 76
3.2 “[LÁ] EU SÓ ERA JOGADORA DE FUTEBOL” – amadorismo nacional x profissionalismo
europeu, 89
3.3 “O BRASIL PRECISA DE MUITA COISA AINDA” – caminhos para o desenvolvimento do
futebol feminino no país, 106
3.4 CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES, 112

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS – para além de deduções científicas, 116

5. REFERÊNCIAS, 121

ANEXOS, 128

Referência

SOUZA, Maria Thereza Oliveira. “Da visão que eu tenho, do que eu vivi, não sei muito no que acreditar”: atletas da seleção brasileira feminina e as memórias de um futebol desamparado. 2017. 128 f. Dissertação (Mestrado em Educação Física) - Setor de Ciências Biológicas, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2017.