Dos velhos aos novos “cartolas”

Autores

Aldo Antonio de Azevedo

Subtítulo

uma Interpretação do Poder e das Suas Resistências nos Clubes, Face ao Impacto das Relações Futebol-Empresa

Orientador

Sadi Dal Rosso

Banca

Maria Stela Grossi Porto, Sérgio Carvalho, Bráulio Tarcísio Porto de Mattos, Roberto Sabato Cláudio Moreira, Laura Maria Goulart Duarte

Faculdade / Instituição

Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília

Tipo

Tese

Área de concentração

Doutorado em Sociologia

Ano

1999

Páginas

344

Cidade

Brasília

Resumo (pt)

Neste estudo, de modo geral, abordo a questão do poder e das suas resistências no futebol brasileiro. De modo específico, analiso os efeitos das relações futebol-empresa sobre a estrutura de poder dos clubes, tendo como ponto de partida a gênese dessa estrutura.
Na construção deste processo de gênese ou genealogia, dentre outros elementos formadores, descrevo os aspectos simbólicos e ideológicos da cultura do futebol no Brasil, o exercício do poder, o perfil dos dirigentes, o papel do Estado, a legislação e a crise financeira e administrativa dos clubes. Aponto também o que considero um novo momento da instrumentalização econômica do futebol, ou seja, a globalização dos seus negócios, especialmente as relações entre as empresas e os clubes.
Esses cenários demarcam momentos da história social e política do futebol brasileiro, em que assume relevância uma Velha estrutura” de poder que vem se mantendo nos clubes, representada por um personagem chamado pejorativamente de “cartola”. Com o surgimento das relações futebol-empresa na década de 80 e sua intensificação na década de 90, por meio de estratégias de marketing aplicadas ao esporte, como os patrocínios e as parcerias, a empresa passou a ser um novo ator nos negócios e a interessar-se pela gestão do futebol nos clubes, gerando resistências locais.
No plano teórico, a partir da preocupação em interpretar e criticar o modelo tradicional da administração do futebol nos clubes brasileiros, face às relações futebol-empresa, recorro às contribuições de Marx, Weber e Bourdieu, no sentido de complementaridade conceituai. Estabeleço relações entre as noções de ideologia, ação social e habitus, considerando o futebol como um espaço de poder e de produção de resistências nos clubes.
Na perspectiva empírica, analiso a prática das relações futebol-empresa e coloco em questão “Se” e “como” os patrocínios e as parcerias provocam mudanças e “quais” mudanças se verificam nos clubes. As evidências extraídas de entrevistas feitas em 1997 com empresários, dirigentes de clubes, jogadores de futebol, jornalistas e outros informantes-chaves, tendo como referências três grandes clubes da capital paulista (o São Paulo Futebol Clube, o Sport Club Corinthians Paulista e a Sociedade Esportiva Palmeiras) e seu relacionamento com empresas, refletiram apenas uma modernização parcial na estrutura de poder num desses clubes. Que forças e interesses teriam impedido sua transformação radicai para uma gestão moderna e empresarial?
Os resultados da pesquisa demonstram ainda tensões, conflitos, acomodações e adaptações nessa estrutura, colocando frente a frente um modelo “tradicional”, “paternalista” e “amador”, típico dos clubes, e um modelo “moderno”, “empresarial” e ‘profissional”, próprio das empresas capitalistas.
Enfim, em razão das resistências da “velha estrutura”, concluo que as relações futebol-empresa têm-se orientado mais para o mercado do que para a gestão dos clubes. Desse modo, as tendências apontam não apenas uma reprodução ou permanência dos “velhos cartolas” no poder, mas a produção de um “novo cartola” do futebol: a empresa capitalista.

Abstract

Generally, in the present study, I address the issue of power and resistance in the Braziiian SGoccer. Specifically, my analysis invotves the effects of soccer-enterprise relations on the power structure of clubs viewed from its very origin. While developing this origin or genealogy process, among other forming elements, symbolic and ideological aspects of the soccer culture in Brazil, use of power, leader profiles, State role, legislation, as weil as the financial, administrative crises experienced by clubs, are described. A new eeconomic moment that in my opinion is involving soccer, namely, globalization of its business affairs, sppecially enterprise-club relations, is discussed here. Such scenarío highlights events in the social and political history of the Braziiian soccer, w/vhere an “old structure’ of power in the clubs gains importance, represented by a character poejoratively called “cartola” (a Braziiian Portuguese term for soccer club leaders). With the emengence obf soccer-enterprise relations in the 1980’s, and its intensification in the 1990’s by means of sportooriented marketing strategies, such as sponsorships and partnerships, enterpríses have become new
bousiness agents and have developed an interest in soccer management on the part of clubs, thus ggenerating local resistance. Theoretically, from an interest in irrterpreting and criticizing the traditional model used in SGoccer management by Braziiian clubs, in the face of soccer-enterprise relations, Marx’s, Weber’s, and Bourdieu’s contributions for concept complementation are evoked. Taking into account soccer as aan expression of power and a producer of club resistance, relations between notions of ideology, ssocial action, and habitus were established. Empirically, soccer-enterprise relations are analyzed, and a question is raised as to aiT and “f*how” sponsorships and partnerships cause changes. “What” changes take place in dubs is also düiscussed. Having three major São Paulo soccer dubs—São Pauto Futebol Clube, Sport Club CCorinthians Paulista, and Sociedade Esportiva Palmeiras—and their relationship with enterpríses as a reeference, evidence coHected from inteiviews conducted in 1997 with busínesspeople, club leaders, soccer players, joumalists, and other key informarrts reflected only a partial power structure mnodemization in one of the above-mentioned clubs. What forces and interests coukJ have prevented tlíhem from undergoing a radical transformation into modem, entrepreneurial management? Research results reveal the presence of tension, conflicts, and adaptation in this structure, by cconfronting a “traditional,’ “patemalistic,” “amateurish” model typical of soccer dubs and a “modem,” Yentrepreneuríal,” “professional” model peculiar to capüalist enterpríses. Therefore, in view of the “old structure” resistance, I conclude that as far as dubs are cconcemed soccer-enterprise relations are more market-oríented than management-oriented. Thus, ali sseems to indicate not only a reproduction or permanence of the “old cartolas” in power but also the pproduction of a “new cartola” : capitalist enterpríses.

Resumo (outro idioma)

Dans cet étude, d’une manière générale, j’aborde 1’aspect du pouvoir et de ses résistances Idans le football brésilien. De manière spécifique, j’analise les effets des relations football-entreprise uur Ia structure du pouvoir des clubs, ayant comme point de départ Torigine de cette structure. Dans 1’établissement de ce procès d’origine ou de généalogie, entre autres éléments qui se oormes, je décris les aspects simboliques et idéologiques de Ia culture du football au Brésil, 1’exercice Idu pouvoir, le préfil des dirigents, Ia fonction de 1’Etat, Ia législation et Ia crise financière et iQdministrative des clubs. Je nome aussi ce que je considère un nouveau moment de transformation léconomique du football, s’est-à-dire, Ia globalisation de ces négoces, spécialement es relations entre 3es entreprises et les clubs. Ces scénarios marquent les moments de 1’histoire sociale et politique du football brésilien, ou iune u vieille structure ’ de pouvoir prend de Timportance et maintient nos clubs, representée par un >oersonnage, appelé péjorativement de cartola (dirigent de club de football). Avec 1’apparition des eelations football-entreprise dans les années 80 et son intensification dans les années 90, par des fctratégies de marketing apliquées au sport, comme les parrainages et les sociétés, l’entreprise est Idevenu un nouvel acteur dans les négoces et s’est interesée par Ia gestion du football dans les clubs >provoquant des résistances locales. Dans un plan de téorie, à partir de Ia préocupation d’interpréter et de critiquer le modèle rtraditionel d’administration du football dans les clubs brésilíens, face aux relations footbaH-entreprise, ^e me sers des contributions de Marx, Weber et de Bourdieu, pour faire le compfément des concepts. ’J’établis des relations entre les notions de 1’ldéologie, action sociale et habitus, considérant le football :comme une expression de pouvoir et de producttons de résistences dans les clubs. Dans Ia prespective empirique, j‘anatíse Ia pratique des relations football-entreprise et je mets >en question le a si ” et le * comment” les aides et les sociétés provoquent les changements et * quelles ” changements se verifient dans les clubs. Les évidences extraitent des entrevues fartes en 1997 lauprès d’hommes d‘affaires, de dirigents de dubs, de joueurs de football, de joumalistes et d’autres rinformateurs-clefs, ayant comme références trois grands clubs de Ia capítale de São Paulo (le SSo *Paulo Futebol Clube, le Sport Club Corinthians Paulista et Ia Sociedade Esportiva Palmeiras) et leurs arelationement avec les entreprises, ont revelé seulement une modemisation partielle de Ia structure du )pouvoir dans un de ces clubs. Quelles forces et quels intérêts auraient empéché sa transformation aradicale pour une gestion modeme et administrative. Les résultats de Ia recherche démontrent encore quelques tensions, conflits, convenances et ladaptations dans cette structure, mettant face-à-face un modèle “traditionel”, “patemaliste”, et (“amateur”, tipiques des clubs, et un modèle “modeme”, “administratif et “profissionel”, apartenent aux ^entreprises capitalistes. Enfin, en raison des résistances de Ia “vieille structure”, je déduit que les relations footballíentreprise s’est dirigée plus vers le marché que vers Ia gestion des clubs. De cette manière, les (tendances montrent non seulement une reproduction ou pennanence des vieux cartolas au pouvoir, imais aussi Ia production d’un nouveau cartola du football: Tentreprise capitaliste. 

Sumário

INTRODUÇÃO, 1

PARTE I – GENEALOGIA DA ESTRUTURA DE PODER DO FUTEBOL BRASILEIRO, 10
CAPÍTULO I – HISTÓRICO E REVISÃO DA LITERATURA, 11

CAPÍTULO II-CULTURA, IDEOLOGIAS E TRADIÇÕES, 20
2.1 – A Ideia de Cultura, 20
2.2 – A Cultura do Futebol, 22
2.3 – O Código Simbólico, 24
2.4 – Os Símbolos do Poder nos Clubes, 30
2.5 – O Código Ideológico, 32
2.6 – Ideologias do Poder nos Clubes, 35
2.7 – Ideologias em Conflito: amadorismo versus profissionalismo, 40
2.8 – Metamorfoses do Dirigente, 41
2.9 – A Tradição Elitista, 44

CAPÍTULO III – PODER, ESTADO E LEGISLAÇÃO, 50
3.1 – A Estruturação do Poder no Futebol, 50
3.2 – O Exercício do Poder e os Clubes, 52
3.3 – A Relação Estado e Futebol no Brasil, 57
3.3.1 – Retrospectiva, 57
3.3.2 – O Papel de Legitimação, 63
3.3.3 – O Papel de Acumulação, 65
3.4 – A Legislação, 67

CAPÍTULO IV – CRISE E GLOBALIZAÇÃO, 75
4.1 – A Crise Administrativa, 75
4.2 – A Noção de Globalização, 82
4.3 – A Dinâmica do Processo de Globalização, 88
4.4 – Mercantilização e Consumo, 91
4.5 – A Racionalização do Futebol, 95

CAPÍTULO V-OS NOVOS “CARTOLAS” DO FUTEBOL, 100
5.1 – A Grande Jogada das Empresas, 100
5.2 – O Patrocínio no Futebol Brasileiro, 103
5.3 – As Parcerias do Poder, 104
5.4 – Os Novos Donos da Bola, 108
5.5 – Estratégias e Táticas, 109

PARTE II – ABORDAGEM TEÓRICA E METODOLÓGICA, 111
CAPÍTULO VI – OS MODELOS TEÓRICOS, 112
6.1 – Modelo de Análise, 112
6.2 – Modelos Interpretativos, 115
6.2.1 – O Modelo Marxista, 115
6.2.1.1 – A Mercadorização do “Pé-de-Obra”, 115
6.2.1.2 – A Instrumentalização Ideológica, 126
6.2.1.3 – A Instrumentalização Empresarial, 127
6.2.2 – O Modelo Weberiano, 132
6.2.2.1-Tradição e Ação Social,132 
6.2.2.2 – O Modelo Tradicional dos Clubes, 136
6.2.2.3 – O Patrimonialismo, 140
6.2.2.4 – O Amadorismo, 142
6.2.2.5 – Paternalismo, Associação e Paixão, 143
6.2.2.6 – O Modelo Moderno das Empresas, 145
6.2.2.7 – Tradicional versus Moderno,  148
6.2.3 – O Modelo de Bourdieu, 152
6.2.3.1 – “Campos” e “Habitus”, 152
6.2.3.2 – O “Campo Esportivo”, 155 
6.2.3.3 – O “Habitus”dos Clubes, 158
6.2.3.4 – O Poder Simbólico e as Relações de Poder, 160
6.2.3.5 – As Relações Futebol-Empresa no “Campo Esportivo”, 163

CAPÍTULO VII-O PROBLEMA, AS HIPÓTESES E A EMPIRIA, 167
7.1-0 Problema e as Hipóteses, 167
7.2 – Os Procedimentos da Análise Empírica, 170
7.3 – A Análise de Conteúdo, 174

PARTE III – A PESQUISA, 178
CAPÍTULO VIII – RELAÇÕES FUTEBOL-EMPRESA: O contexto da prática, 179
8.1 – Caracterização Histórica dos Clubes, 179
8.2 – A..Dinâmica do Poder nos Clubes, 183
8.3 – Relações Futebol-Empresa, 196
8.4 – A Globalização, 197
8.5 – As Raízes dos Clubes, 200
8.6 – Interesses das Empresas, 202
8.7 – Interesses dos Clubes, 206
8.8 – Tipologia das Relações, 208
8.9 – Mudanças nos Clubes, 213
8.10 – Profissionalização Externa, 215
8.11 – Profissionalismo e Resistências, 220
8.12 – Modernização e Resistências, 221
8.13 – O Estatuto do Poder nos Clubes, 230
8.14 – A Estrutura Tradicional do Poder no Futebol, 235
8.15 – Tensões e Conflitos, 247
8.16 – Mecanismos de Controle, 253
8.17 – A Reprodução da Dominação, 255
8.18 – A Mercadorização do “Pé-de-Obra”, 256
8.19 – A “Nova” Mercantilização, 259
8.20 – A Lei Pelé, 260
8.21 – O Passe e as Empresas, 261
8.22 – O Clube – Empresa, 263

CAPÍTULO IX – SÍNTESE DOS RESULTADOS, 267
9.1 – Análise dos Grupos Entrevistados, 267
9.2 – Quadros Comparativos, 276

CAPÍTULO X – VELHOS E NOVOS “CARTOLAS”, 293
10.1 – A Gênese das Tradições, 297
10.2-0 Diálogo Teórico, 304
10.3 – A Discussão das Hipóteses, 311

ANEXOS, 320
BIBLIOGRAFIA, 336

Referência

AZEVEDO, Aldo Antonio de. Dos velhos aos novos “cartolas”: uma Interpretação do Poder e das Suas Resistências nos Clubes, Face ao Impacto das Relações Futebol-Empresa. 1999. 344 f. Tese (Doutorado em Sociologia) - Departamento de Sociologia da Universidade de Brasília, Brasília, 1999.