“Era uma vez um grande”

Autores

Marcus Vinícius Costa Lage

Subtítulo

o mito da decadente aristocracia americana

Orientador

João Pinto Furtado

Banca

Arlei Sander Damo, Elcio Loureiro Cornelsen, Euclides de Freitas Couto, Georgino Jorge de Souza Neto

Faculdade / Instituição

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais

Tipo

Tese

Área de concentração

Doutorado em História

Ano

2020

Páginas

306

Cidade

Belo Horizonte

Resumo (pt)

A presente tese tem como objetivo investigar os fatores que contribuíram para a inadmissão do América Futebol Clube, de Belo Horizonte, no restrito grupo dos grandes clubes do futebol brasileiro. Para tanto, parte-se da premissa de que a grandeza de um clube de futebol no Brasil é auferida não apenas pelos resultados obtidos nas competições disputadas e/ou pelo tamanho de sua torcida, mas também pelo sistema de representações simbólico articulado em torno dele, capaz de produzir sentimentos de afeição e repulsa tão caros às competições esportivas. Nesse sentido, a hipótese central desta pesquisa é a de que a identidade elitista atribuída ao América, valorizada e legitimada por seus torcedores a partir de uma narrativa memorialística ambivalente, denominada aqui como “mito da decadente aristocracia americana”, tem sido uma das responsáveis por colocar o clube à margem do jogo de representações simbólicas da capital mineira, dominado pelos pretensamente populares Clube Atlético Mineiro e Cruzeiro Esporte Clube. Como forma de atestar o status de memória coletiva dominante, essa mitologia é identificada e analisada neste trabalho a partir de diferentes momentos e documentos históricos, desde cânticos e publicações virtuais da torcida americana a campanhas de marketing do clube, passando por textos jornalísticos e manifestações historiográficas oficiais sobre o América. Mas, contraposta às fontes históricas do contexto a que se refere, essa narrativa evidencia uma série de silenciamentos e seleções do passado americano – um típico trabalho de enquadramento da memória. Dessa maneira, constata-se, ainda, que, muito embora esse mito esteja ambientado nos anos de 1920, 1930 e 1940, o seu processo de constituição, formalização e oficialização coincidiu com importantes momentos de disputa pela hegemonia político-administrativa do clube na segunda metade do século XX e no início do novo milênio.

Abstract

This thesis aims to investigate the factors which contributed to the failure of América Futebol Clube, from Belo Horizonte, in the restricted group of major Brazilian football clubs. Therefore, it is based on the premise that the greatness of a football club in Brazil is earned not only by the results obtained in competitions and/or by the number of its fans, but also by the symbolic system representations articulated around it, capable of producing feelings of affection and disgust so laborious to sports competitions. Thereby, the central hypothesis of this research is that the elitist identity attributed to América Futebol Clube, valued and legitimized by its fans from an ambivalent memorable narrative, called here as “myth of the América Futebol Clube decadent aristocracy”, has been one of the responsible for putting the club on the sideline of the set of symbolic representation from Belo Horizonte, dominated by the supposedly popular clubs Clube Atlético Mineiro and Cruzeiro Esporte Clube. In order to certify the dominant collective memory status, this mythology is identified and analyzed on this thesis from different moments and historical documents, from chants and virtual publications by fans from the club to the club’s marketing campaigns, through journalistic texts and official historiographical manifestations about the América Futebol Clube. Nevertheless, opposed to the historical sources of the context to which it refers, this narrative highlights a series of silences and selections from the club’s past – a typical memory framing job. Thus, it turns out, even if this myth is set in the 1920s, 1930s and 1940s, its constitution, formalization and officialization process coincided with important moments of dispute over the political and administrative hegemony of the club in the second half from the 20th century and the beginning of the new millennium.

Sumário

INTRODUÇÃO – TORCEDOR DO AMÉRICA, UMA ESPÉCIE EM EXTINÇÃO

CAPÍTULO 1 – NEM SÓ OS CARTÓRIOS VIVEM DE TÍTULOS
1.1 “Recordar é viver” 
1.2 O “mais querido” que acabou esquecido

CAPÍTULO 2 – UMA TORCIDA QUE CONVERSA COM AS PAREDES
2.1 O inofensivo, simpático e diferenciado “Time da Família”; ou, “Um time para poucos. Que [não] são cada vez mais”
2.2 Um protesto virtuoso como representação do “jeito elite de ser e viver”
2.3 Um retrato do “velho futebol mineiro”
2.4 “Por que sempre perdemos o bonde da história?”

CAPÍTULO 3 – “ISSO ESTÁ NAS PÁGINAS IMORTAIS DO AMÉRICA” 
3.1 Um livro de “história de histórias e glórias”
3.2 “Um clube diferente”, “especial”, “da elite”
3.3 De “1926 em diante”: a “esperança que todos americanos acreditam” 
3.4 “O América recomeça”

CAPÍTULO 4 – “NÃO SOMOS MAIS DECA???”
4.1 “As aventuras de uma excursão sportiva” 
4.2 Os ecos de uma goleada uberabense
4.3 O “protesto contra o profissionalismo” e o “time mais caro do estado” 
4.4 Enfim, a “extinção do profissionalismo”

CAPÍTULO 5 – “A TUA CLASSE ARISTOCRATA É QUEM FULMINA OS TEUS RIVAIS” 
5.1 “Quem foi para ver Pelé, viu Tostão”
5.2 “Tu és a glória do esporte nacional”
5.3 “Tua torcida feminina é demais” 
5.4 “Mantendo o nosso espírito esportivo, social e cultural” 

CAPÍTULO 6 – “ERA UMA VEZ UM GRANDE”
6.1 “1 bilhão em prêmios”, um fascículo da História do América e “um golpe na cabeça”
6.2 “Unidos estão todos os americanos de todos os tempos” 
6.2.1 Um álbum da “grande e simpática família americana”
6.2.2 “A grandeza do América começa aqui!” 
6.3 A Placar anuncia: “Era uma vez um grande” América

CONSIDERAÇÕES FINAIS: “UMA PAIXÃO QUE NÃO SE ACABA”

REFERÊNCIAS 
APÊNDICE A – Anúncios de América – O deca-campeão 
ANEXO A – Tabela com a posição dos clubes nas pesquisas de torcidas
ANEXO B – Tabela com a porcentagem de torcedores por clubes segundo as pesquisas de torcidas
ANEXO C – Tabela com o número de vezes que cada clube disputou a Primeira Divisão do Campeonato Brasileiro
ANEXO D – Fac-símile da matéria do Estado de Minas de 16 de janeiro de 1931, p. 6

Referência

LAGE, Marcus Vinícius Costa. “Era uma vez um grande”: o mito da decadente aristocracia americana. 2020. 306 f. Tese (Doutorado em História) - Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2020.