Futebol em tradução

Autores

Christian Luiz Melim Schwartz

Subtítulo

narrativas impressas como tradução do acontecimento futebolístico e imaginação do estilo em comunidades locais e nacionais

Orientador

Hilario Franco Junior

Banca

Flavio de Campos, Carlos Alberto Faraco, Bernardo Borges Buarque de Hollanda, José Carlos Marques

Faculdade / Instituição

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo

Tipo

Tese

Área de concentração

Doutor em História

Ano

2014

Páginas

180

Cidade

São Paulo

Resumo (pt)

Esta tese investiga o estilo no futebol como fenômeno de significação, argumentando que o comentário ao jogo funciona como tradução do que se vê em campo. Entendemos que os estilos, em geral associados a nações, só existem pelo olhar subjetivo coletivo dos observadores (comentaristas e aficionados, mas também, por reverberação, da parcela não torcedora de uma comunidade), os quais traduzem o estilo a cada partida, a cada acontecimento futebolístico na história. Essas práticas discursivas, por sua vez, se concretizam no que chamamos narrativas do estilo – produto da tradução do que Dominique Maingueneau classifica como o “discurso primeiro” do futebol no “discurso segundo” dos observadores, acumulado sistematicamente na língua “literária” que, segundo Benedict Anderson, reúne “comunidades imaginadas” nacionais em torno de jornais (mas este trabalho considera a hipótese de que outras mídias também sirvam como esse ponto de encontro) e romances, ou seja, no chão comum das narrativas impressas. Dois estudos de caso ilustram nossa argumentação teórica, ambos baseados na análise de textos de jornais: a partir de relatos sobre turnês de clubes britânicos a Buenos Aires nos anos 1920, investigamos a construção do que Richard Giulianotti conceitua como uma oposição “sintática” entre as comunidades nacionais de Inglaterra e Argentina; num segundo momento, buscamos as variações “semânticas”, ainda nos termos de Giulianotti, envolvendo comunidades locais/regionais em sua relação com a nação – em foco, o Arsenal de Londres e, novamente, a “comunidade imaginada” inglesa. O futebol, concluímos, só ganha sentido pleno numa sequência narrativa midiática e enraizada historicamente. As narrativas do estilo constroem um enredo comum – espécie de folhetim permanente e amálgama das identidades comunitárias. Por essa tendência à “folhetinização”, tanto na “forma” (simbiose com o veículo, a mídia) quanto no “conteúdo” (o acontecimento como matéria-prima fundamental), o futebol, sugerimos por fim, está para a cultura dos modernos esportes de competição como o romance – também derivado do folhetim – para a cultura literária, ambos como linguagens traduzíveis em narrativas e estilos.

Abstract

This thesis investigates the style in football as a signifying phenomenon, arguing that the language of the game translates into the commentary on what is seen on the pitch. We consider that the styles, generally associated with nations, only exist by the observers’ collective and subjective interpretations. These observers (commentators and fans, but also the non-fan part of a community) translate the style by the event – match by match in football history. These discursive practices, in turn, take the form of what we call narratives of style, in a process that Dominique Maingueneau ranks as a translation of the “primary discourse” of football into the “secondary discourse” of the observers, systematically accumulated in the “literary” language which, according to Benedict Anderson, brings together national “imagined communities” around newspapers (but this thesis considers the hypothesis that other media might also play the same role) and novels, i.e., the common ground of printed narratives. Two case studies illustrate our theoretical arguments, both based on the analysis of press reports: firstly, from the tours British clubs took in Buenos Aires in the 1920s, investigating the construction of what Richard Giulianotti sees as a “syntactic” opposition between the national communities of England and Argentina; subsequently, we seek the “semantic” variations, still in Giulianotti’s terms, involving local/regional communities in their relationship with the nation and focusing on the Arsenal, from North London, and again the English “imagined community”. Football, we conclude, only reaches its full meaning as historically rooted media narratives. The narratives of style form this serialized and permanently renewed story that amalgamates community identities. Football’s “form” (in symbiosis with the media) and “content” (the event as a basic source of storytelling), we would like to argue at last, suggests that the game works for the culture of modern competitive sports as the novel – also originally derived from serialized stories published in newspapers – does for the literary culture at large, both of them languages translatable into narratives and styles.

Sumário

INTRODUÇÃO

Língua e estilo: hipóteses para uma analogia, 1
1. NAÇÃO versus CULTURAS, 18
1.1. Nação, 18
1.2. Culturas em tradução, 38

2. LINGUAGEM versus LÍNGUAS, 55
2.1. Língua como miragem estrutural, língua como fluxo, 55
2.2. Língua, escrita e fronteiras nacionais, 65

3. DIMENSÕES DO ESTILO, 74
3.1. Brasil: mito nas ondas do rádio, 84

4. TRADUÇÃO DO ACONTECIMENTO FUTEBOLÍSTICO, 101
4.1. “Discurso primeiro” e “discurso segundo”, 105
4.2. “Idiomas da memória”, 109
4.3. Análise de textos no discurso do futebol, 114

5. NARRATIVAS IMPRESSAS DE IMAGINAÇÃO DO ESTILO EM COMUNIDADES LOCAIS E NACIONAIS, 123
5.1. Inglaterra versus Argentina: oposição “sintática” na imaginação de comunidades nacionais, 123
5.2. O Arsenal de Londres: variação “semântica” na imaginação de comunidades locais, 137

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Futebol e romance: apontamentos para uma teoria, 156

Referências bibliográficas, 175

Referência

SCHWARTZ, Christian Luiz Melim. Futebol em tradução: narrativas impressas como tradução do acontecimento futebolístico e imaginação do estilo em comunidades locais e nacionais. 2014. 180 f. Tese (Doutor em História) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014.