Ludopédio em casa #11: Breiller Pires e Marco Sirangelo

Autores

Equipe Ludopédio

Formato do vídeo / especificação

HD

País

Brasil

Duração

93 min.

Ano

2020

Produtora

Ludopédio

Elenco

Breiller Pires

Marco Sirangelo

Marco Lourenço

Sérgio Settani Giglio

Sinopse

A despeito da crise do Covid-19, a bola já está rolando em diversas ligas mundo afora. O retorno que é discutível mesmo em países que já controlaram a pandemia, modula perigosamente parte da opinião pública brasileira e fortalece a volta aos treinos de algumas equipes.

No episódio que abre a segunda temporada, o jornalista Breiller Pires e o gestor do esporte Marco Sirangelo, que também é colunista do Ludopédio, analisam os riscos da flexibilização da quarentena e as expectativas para as próximas semanas.

Referência

LUDOPéDIO EM CASA #11: BREILLER PIRES E MARCO SIRANGELO. Direção: Equipe Ludopédio. Brasil. Ludopédio, 2020. HD.

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O Ludo Em Casa abriu a segunda temporada tabelando com Breiller Pires e Marcos Sirangelo. Na 11ª edição do programa, na última terça à noite, com transmissão ao vivo pelo Youtube, o papo começou pela pauta mais atual, a irresponsável volta do futebol (já assinou o manifesto do Ludopédio, aliás?), e passou pelo papel da CBF, o uso político do esporte, esquentou com a polêmica de clube empresa e fechou na esperança de maior democratização e renovação da organização e pensamento dos clubes brasileiros. 

Não custa sonhar, né? E estamos aqui pra ajudar a pensar, divulgar e pressionar.

O Ludo Em Casa fica gravado e na nossa biblioteca lá no Youtube. Dá para assistir a qualquer hora, inclusive os antigos. Basta clicar aqui. Abaixo, adiantamos os principais momentos do debate para dar um gostinho do que rolou.

A VOLTA PRECIPITADA DO FUTEBOL

Breiller Pires: “Vejo com muita apreensão essa forçada de barra dos clubes. Acho natural discutir protocolos. Faz parte tentar elaborar documentos. O que não faz nenhum sentido é se reunirem com políticos. Ainda mais pelo momento vivido pelo país. Eles [os presidentes dos clubes] não enxergam a dimensão social do futebol. Deveriam servir de exemplo e não se prestar a esse papelão de ir a Brasília. Não deveriam deixar seus clubes virarem massa de manobra para o presidente [da República].”

O PAPEL DA CBF

Marcos Sirangelo: “A CBF inevitavelmente terá de financiar os clubes, pelo menos dar um suporte aos clubes menores. A grande contribuição seria tentar organizar o futebol. Só que não está funcionando. Cada estado está criando seus próprios protocolos.”

O USO POLÍTICO DO FUTEBOL

Breiller Pires: “Eu sempre me revolto muito com essa tentativa de despolitizar o futebol. A essência do futebol é política. Não dá para analisar o futebol de forma asséptica. Os torcedores não estão representados nessa [atual] estrutura do futebol. É muito difícil entrar em conselho deliberativo. É fundamental um movimento de democratização dos clubes. Fiquei muito esperançoso com esse movimento na Avenida Paulista [domingo, com torcidas antifascistas lutando por democracia e denunciando o fascismo crescente].”

CLUBE EMPRESA

Breiller Pires: “Eu não demonizo. Pode funcionar, desde que bem gerido e com a participação dos torcedores. Mas sou cético. Depende dos clubes. O que mais tem no futebol é oportunista. Tem de ter pé atrás. Gestores podem destruir clubes. A empresa vai abraçar causas se achar que aquilo é lucrativo. As empresas trabalham pela lógica do lucro.

Marcos Sirangelo: “No Brasil, [o projeto de clube empresa] tem de ser melhor debatido. A partir do momento em que tiver um dono, ele não vai sair. Você aceita entregar totalmente um clube [a um proprietário], as identidades correm risco.”

Marcos Sirangelo: “Tem dois projetos de lei sobre clube empresa no Congresso. Acho que vão fazer um bem bolado, um meio termo. Os clubes estão à mercê. Cada um vai ser livre para tomar suas próprias decisões.”

A ESPERANÇA PÓS-PANDEMIA

Breiller Pires: Os clubes precisam frear a elitização do futebol. É esse torcedor [com menos poder aquisitivo] quem vai salvar o clube. O primeiro passo é contemplar todas as camadas de torcedores. A economia pós-pandemia vai possibilitar isso. Toda a economia do futebol deverá ser revista: salários, preço de ingressos… Daí que os clubes vão tirar recursos. Tenho em vista uma economia social do futebol.”


Ludo em casa é um programa semanal do Ludopédio. Entramos no ar pelo YouTube toda terça-feira, a partir de 21h, sempre com dois convidados. Inscreva-se no canal. E você for mais de podcast, aproveita para curtir a versão apenas em áudio lá no Spotify.


ASPAS

Breiller Pires

VOLTA DO FUTEBOL

Eu vejo com muita apreensão essa forçada de barra dos clubes. Acho natural discutir protocolos. Faz parte dos clubes tentar elaborar documentos. Não faz nenhum sentido para mim dirigentes se reunirem com políticos. Ainda mais pelo momento vivido pelo país.

Pra mim é muito emblemático que o presidente do Vasco seja um médico e o do Flamengo, um empresário.

Eles não enxergam a dimensão social do futebol.

Eles [Flamengo, Vasco e seus presidentes] deveriam servir de exemplo, não prestar esse papelão de ir à Brasília. Não deveriam deixar seus clubes serem massa de manobra para o presidente.

Acho que essa situação de SP é emblemática, porque o governador tomou as medidas necessárias. Esse lado foi assimilado pelos dirigentes, tanto que as primeiras entrevistas deles já foram nessa linha. Não se trata de bairrismo, mas de fazer valer a responsabilidade social.

Muita gente está em casa esperando um pretexto para sair.

A Alemanha não serve de parâmetro para a sociedade e os clubes brasileiros, pela estrutura dos clubes e pela testagem da sociedade.

Não dá para esperar a volta do futebol no curto prazo.

O PAPEL DA CBF

A CBF já disponibilizou 19 milhões. Ano passado teve mais de 1 bi de lucro. Os clubes menores estão sob seu guarda-chuva. Eles estão com pires na mão, já demitiram muita gente. É uma situação dramática, de desespero.

Muitos clubes nunca viveram uma situação dessas, mesmo jogando só alguns meses do ano.

A CBF neste momento deveria ter uma postura mais dura de salvar o futebol. Sobretudo, os pequenos que servem para manter o poder e a estrutura da CBF. É preciso ver como essa verba [de R$ 19 milhões] será distribuída.

O USO POLÍTICO DO FUTEBOL

É notável o uso político do futebol pelo presidente da República. Lembro da Copa América do ano passado em que ele entrou no intervalo e saudou os torcedores. E também o presidente entregando e segurando com os jogadores do Palmeiras a taça do Brasileirão. Essa relação próxima faz com que os clubes se sintam à vontade para fazer pedidos. A bancada da CBF está encorpadíssima pelos interesses da CBF e com essa linha direta com o governo federal.

A pior saída é querer se apoiar no governo e esperar benesses, como PROFUT.

Eu sempre me revolto muito com essa tentativa de despolitizar o futebol. A essência do futebol é política. Não dá para analisar o futebol de forma asséptica.

O exemplo do Cruzeiro é emblemático. Foi um clube gerido por um político, Zezé Perrela, foi senador de MG. Tem trânsito fácil em todas as instituições mineiras. A coisa explodiu lá porque vinha de muito tempo. O Cruzeiro foi sendo usado por esse grupelho. Não representa seus 8 mi de torcedores.

Mostra como os torcedores não estão representados nessa estrutura do futebol. É muito difícil torcedor de organizada conseguir entrar em um conselho deliberativo. Acho que é fundamental um movimento de democratização dos clubes. Fiquei muito esperançoso com esse movimento na Av. Paulista. É inimaginável termos um presidente negro nos maiores clubes. Mesmo o Bahia tem pouquíssimos negros em sua estrutura. Só vamos conseguir essa mudança com democratização e movimento social de torcedores.

E QUANDO VOLTAR, HEIN?

A preocupação é física (Alemanha).

Sem torcida, sem ambiente é outro esporte.

Acho que seria justo que todos de um mesmo campeonato ou estado voltem ao mesmo tempo.

Se analisar a situação de pandemia, faz parte de haver mais alterações. Mas esse é um lobby até da FIFA. É um movimento para aproveitar para “passar a boiada”, beneficiar o poder econômico. Torcedores do Flamengo querem, os do Botafogo sofrem.

CLUBE EMPRESA

Eu não demonizo. Pode funcionar, desde que bem gerido e com a participação dos torcedores. Mas sou cético. Depende dos clubes.

Eu não vejo por que o Flamengo, por ex., entrar por esse caminho.

O Vasco tem causas muito claras. Aí esse clube-empresa querendo lucrar. O CEO diz: Não vai dar porque acho isso aí mimimi.

Não é uma coisa simples. Precisa ser feito com muito estudo. O Botafogo ainda não chegou em um projeto confiável. É preciso deixar isso fora do espectro de políticos oportunistas.

Há muitos problemas nessa estrutura associativa dos clubes. Mas mesmo com problemas é possível funcionar. Com tempo, debate e com as torcidas, pode dar certo.

Um bom gestor pode não entender de futebol.

O que mais tem no futebol é oportunista. Tem de ter pé atrás. Gestores que podem destruir clubes. A empresa vai abraçar causas se achar que aquilo é lucrativo. As empresas trabalham pela lógica do lucro.

O Rayo Vallecano é um bom exemplo. O clube foi comprado por um milionário. A principal torcida do clube está em pé de guerra com o dono. Ele contratou um ucraniano fascista e a torcida o expulsou. É preciso um projeto que envolva a comunidade do clube.

O Palmeiras se aproximar do Bolsonaro é um acinte à história do clube. Eu vejo o Vasco com muito desalento. O máximo que faz são campanhas insossas contra o racismo. É preciso gerar mobilização.

Vejo com muito bons olhos o Flamengo da Gente, que prega que o clube se envolva com suas raízes populares. Os dirigentes devem ter essa visão social do futebol. É só um exemplo que os clubes são poucos democráticos.

Não levo fé só por ver a situação da pandemia atual. Sou cauteloso com reformas e regulamentação, principalmente com esse governo. Agora é um risco enorme.

O QUE PRECISAMOS FAZER?

Os clubes precisam frear a elitização do futebol. É esse torcedor [com menos poder aquisitivo] quem vai salvar o clube. O primeiro passo é contemplar todas as camadas de torcedores. A economia pós-pandemia vai possibilitar isso. Toda a economia do futebol deverá ser revista, salários, preço de ingressos. Vai ser daí que os clubes retirará seus recursos. Tenho em vista uma economia social do futebol.

A responsabilidade social no futebol é meramente decorativa. Não só no futebol, nas empresas também. É dessa cultura. O futebol não se envolve politicamente, de não tomar partido. É muito fácil campanha de marketing nas redes sociais. Onde estão os LGBTs nos clubes? A ação transformadora é mostrar LGBTs dentro dos clubes. Isso é transformador.”

Consigo enxergar isso no Bahia. Tem um Núcleo de Ações Afirmativas. Que bom que o clube está lucrando com suas ações. A partir do momento que a Nike banca o Collin Kaepernick, isso sim é responsabilidade social.

Fazer post e o dia a dia do clube não ser diferente, isso não me ilude, não.

Esse trabalho sobre abuso sexual vem de longo tempo. Todo mundo sabe que isso é comum nas categorias de base. Isso envolve homofobia. Desde os primeiros tempos na Placar, sabia que poderia tocar nesse tema. Depois de um ano levantando, trouxemos 22 [ou 21…] casos. Pela primeira vez a CBF falou que isso é um problema. Teve CPI. Os dirigentes da CBF foram convocados em 2014.

Continuo apurando e investigando esses casos. Em 2013, eram 22. Esse número passa de mil em um cálculo raso.

Em clubes que não têm estrutura, é muito arriscado para uma criança. Abuso sexual, estelionato…

Infelizmente, é algo muito comum.

_____

Marco Sirangelo

VOLTA DO FUTEBOL

É uma discussão complicada. É quase impossível voltar o futebol agora. História triste: massagista do Flamengo que faleceu. Não tem condição de voltar pela condição sanitária. 

Entendo o lobby dos clubes, pelas finanças. Não é a hora certa, principalmente no Brasil.

Acho que é uma notícia legal os clubes paulistas não pressionarem. É uma surpresa até interessante. É uma forma de os clubes voltarem a assumir seu papel.

O PAPEL DA CBF

A CBF inevitavelmente terá de financiar os clubes, pelo menos dar um suporte aos clubes menores. A grande contribuição seria tentar organizar o futebol. Só que não está funcionando. Cada estado está criando seus próprios protocolos.

O USO POLÍTICO DO FUTEBOL

A gestão no futebol poucas vezes foi tratada de forma técnica.

Receita zero dos clubes hoje, já que a maior parte vem da mídia e da bilheteria. É natural a relação política.

O Corinthians, pra mim, é um exemplo claro. Que mais precisa para tomar atitude?

Essa estrutura está caducando. O clube-empresa tem mil problemas. Não estou dizendo que é a salvação, mas pode levar à democratização dos clubes.

A menos que haja algo excepcional, acho muito difícil o Cruzeiro voltar como os outros grandes.

E QUANDO VOLTAR, HEIN?

Por mais que se cuide, o jogador profissional tem um limite físico para isso. Acho que lesão muscular vai acontecer adoidado.

O sonho do presidente da Juventus é fazer uma grande liga europeia. Já tem um movimento muito grande para deixar os maiores cada vez maiores e os menores, menores.

CLUBE EMPRESA?

A Roma e o Arsenal são empresas bem geridas, mas dentro de campo estão num certo ostracismo. Só que o futebol tem esse papel. O que prefere: um clube bem gerido ou um clube campeão.

No Brasil, tem de ser melhor debatido. A partir do momento que tiver um dono, ele não vai sair. O Newcastle é um exemplo.

O Hull City é um exemplo clássico. Os americanos adoram mudar a cor, a cidade.

A partir do momento que você aceita a entregar totalmente um clube, as identidades dos clubes correm risco.

Os torcedores do United vivem em pé de guerra com o dono. Daí eles fundaram um novo clube. Eu entendo muito mais como um movimento de protesto. É quase um pedido de socorro: resgatar o clube que não existe mais.

Tem dois projetos de lei sobre clubes-empresa no congresso. Acho que vão fazer um bem bolado, meio termo.

Os clubes estão à mercê. Cada clube vai ser livre para tomar suas próprias decisões. Regulamentações quanto a isso não acho que vai acontecer.

ARENIZAÇÃO

A atmosfera dos estádios caiu muito. Não falo de 20 anos atrás, mas de 5.

O Brasil tem a oportunidade de usar isso com um poder de vender isso.

Eu odeio assistir a jogos sentado.

Claro, tem uma questão de violência.

Podemos unir esses dois aspectos: democratização e modo de torcer. Ex. Argentina. Podemos usar isso a nosso favor.

Do ponto de vista fiscal, eles conseguem ter uma série de benefícios. Eles poderia ser vanguarda em usar a responsabilidade social para isso.

A Outfield, uma consultoria esportiva, me fez um convite para ser responsável pea área de conteúdo. Minha produção fica voltada para isso. Essa é a notícia boa mesmo tendo voltado no meio dessa pandemia.

Meu grande objetivo era aplicar o que estudei fora no esporte brasileiro