Nas controvérsias da várzea

Autores

Mauro Myskiw

Subtítulo

Trajetórias e retratos etnográficos em um circuito de futebol da cidade de Porto Alegre

Orientador

Marco Paulo Stigger

Banca

Antonio Jorge Gonçalves Soares, Arlei Sander Damo, Luiz Carlos Rigo, Vicente Molina Neto

Faculdade / Instituição

Ciências do Movimento Humano, Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Tipo

Tese

Área de concentração

Doutorado em Ciências do Movimento Humano

Ano

2012

Páginas

415

Cidade

Porto Alegre

Resumo (pt)

Seguir o futebol na cidade foi a peculiaridade desta pesquisa etnográfica multi-situada num circuito de futebol de Porto Alegre, referido como o municipal da várzea. Isto foi realizado na esteira de estudos sobre a heterogeneidade das vivências e dos significados das práticas esportivas, com foco naquelas objetivadas e subjetivadas pelas pessoas comuns nos contextos urbanos das suas vidas cotidianas. Ao segui-las nos campos de futebol, nas salas de reuniões, em bares, residências e salões de festas, em distintas regiões e regimes urbanos, deparei-me com a necessidade de pensar e problematizar os significados do futebol não apenas em face da circunscrição de um circuito e suas lógicas, mas também em relação à circulação e à trajetória de vida das pessoas. Disso resultou o interesse em estudar a atribuição de significados imbricada (e imbricante) nas tramas urbanas, implicada (e implicante) numa construção multi-local e polifônica, tributária de distintas trajetórias de socialização e possibilidades concretas de circulação das pessoas e grupos, porém, sem que isso deixe de lado, em maior ou menor medida, a constituição do circuito como um espaço simbólico particular, institucionalizado (e institucionalizante). Como modo de pesquisa, procurei seguir as pessoas em ação (dirigentes, jogadores, torcedores, familiares, amigos, etc.), estando atento para como os significados de práticas e de artefatos se alteravam conforme transitava nos distintos espaços-tempos da cidade e do circuito de futebol. Como estratégia de análise-interpretação, recorri às principais controvérsias observadas e registradas, compreendendo que elas deixavam importantes rastros simbólicos do que estava “em disputa” na circulação-construção do futebol. Mapeei 4 controvérsias que, então, serviram como categorias de análise (“aqui é a várzea, não é o profissional”; “o clube de hoje é um jogo de camisas”; “o que incomoda é a pressão que vem de fora”; e “hoje eles foram só para jogar bola”). A partir dessas categorias, apresentei descrições (na forma de retratos) e interpretações relacionadas à atribuição dos significados, tendo como foco a problematização de categorias que são clássicas ao se pensar as configurações esportivas (a “organização”, os “times”, os “torcedores” e a “disciplina”). Estas problematizações, ao final, me possibilitaram concluir que os significados do futebol implicam e estão implicados num paradoxo: de um lado um movimento de purificação no sentido de que o circuito funcione enquanto uma arena relativamente fechada; de outro, um movimento de hibridização, de mistura, onde as tramas e as trajetórias de vida não são e nem se poderiam ser deixadas de lado. Quem “se movimenta” na cidade nos múltiplos espaços-tempos da várzea certamente estará diante desses dois movimentos.

Abstract

Following amateur football in this city was the peculiarity of this ethnographic study, multi-situated in the football circuit of Porto Alegre, referred to as the town of amateur football. This was carried out in the wake of studies of the heterogeneity of experiences and meanings of the practice of sport, with a focus on those targeted and subjectified by ordinary people in the urban contexts of their everyday lives. By following them on the football fields, in meeting rooms, in bars and in their homes, in distinct urban regions and regimes, I began to feel the need to think about and discuss the meaning of football, not only with regards to the circuit division and its logic, but also in relation to the movement and trajectory of people‟s lives. This has resulted in the interest of studying the allocation of overlapping (and overlapped) meanings in urban schemes, implicated (and implicating) in a multi-site and polyphonic construction, tributary to distinct socializing trajectories and concrete possibilities of the circulation of people and groups, however, without setting aside, to a greater or lesser extent, the circuit constitution as a symbolic private institutionalized (and institutionalizing) space. As a research method, I followed people in action (managers, players, fans, family, friends, etc.), paying attention to how the meaning of the practices were altered as they moved within different time-spaces of the city and in the football circuit. As an analysis-interpretation strategy, I have used the principal controversies observed and registered, understanding that they have left important symbolic traces of what was “in dispute” in the circulation-construction of the football. I have mapped four controversies which have served as categories for analysis (“here it‟s amateur, not professional”; “nowadays the club is a game of shirts”; “what bothers me is the pressure comes from outside”; and “today they came only to play ball”). From these categories, I presented descriptions (in the form of portraits) and interpretations related to the attribution of meaning, having in focus the problem of classifications which are traditional when considering sporting configurations (the “organization”, the “teams”, the “fans” and the “discipline”). Discussing these problems finally led me to conclude that the meanings of football imply, and are implied in, a paradox: on the one hand, a purification movement in the sense that the circuit works as a relatively closed arena; on the other hand, a hybridization movement, of mixture, where the schemes and trajectories of urban life are not life and cannot be left out. Whoever circulates in the city in the multiple space-time of amateur football, certainly faces these two movements.

Sumário

INTRODUÇÃO, 19
SEGUINDO O FUTEBOL NA CIDADE 19

CAPÍTULO I, 28

1 RETRATOS DE UM CIRCUITO E DE UMA TRAJETÓRIA, 28
1.1 A VÁRZEA COMO UM CIRCUITO PARTICULAR 29
1.1.1 As ligas de futebol: os donos e suas competições 31
1.1.2 A SME e a Gerência de Futebol: o projeto do municipal 37
1.1.3 Os times da várzea: entre clubes e ajuntamentos 41
1.1.4 As equipes de arbitragem: trios, paulistinha ou a pé 45
1.2 A VÁRZEA COMO UMA TRAJETÓRIA PARTICULAR 50
1.2.1 Nas salas da Gerência de Futebol 51
1.2.2 Nos regionais de ligas 56
1.2.3 Nos campos do municipal de 2009 59
1.2.4 Numa liga exemplar do centro 65
1.2.5 Numa liga da periferia da cidade 73
1.2.6 Noutra liga da periferia, a maior da cidade 78
1.2.7 No curso de arbitragem comunitária 93
1.2.8 Numa liga de boleiros veteranos 95
1.3 SEGUINDO CATEGORIAS-CONTROVÉRSIAS 101

CAPÍTULO II, 104

2 AQUI É A VÁRZEA, NÃO É O PROFISSIONAL, 104
2.1 NA GERÊNCIA DE FUTEBOL 106
2.2 NOS CAMPOS DE LIGAS EXEMPLARES 128
2.3 NUMA LIGA DE VILA, CIRCULANDO COM O MIRANDA 136
2.4 AS COERÊNCIAS ENTRE FAZER CUMPRIR E SABER LEVAR 168

CAPÍTULO III, 171

3 O CLUBE HOJE É UM JOGO DE CAMISAS, 171
3.1 DE FORA DOS GRUPOS E DOS ALAMBRADOS 173
3.2 CONVERSANDO DENTRO DOS ALAMBRADOS 178
3.3 SEGUINDO GRUPOS DE CONHECIDOS NOS CAMPOS E NAS VILAS 187
3.3.1 Dos conhecidos aos grupos 188
3.3.2 A produção e a circulação nas redes de conhecidos 198
3.3.3 A movimentação do grupo-times para os jogos 218
3.3.4 O valor da rede de conhecidos 232
3.4 ENTRE CONHECIDOS, GRUPOS, REFORÇOS E TIMES 245 18

CAPÍTULO IV, 249

4 O QUE INCOMODA É A PRESSÃO QUE VEM DE FORA, 249
4.1 OS CAMPOS COMO ESPAÇOS DO FUTEBOL 251
4.2 OS CAMPOS COMO ESPAÇOS DAS COMUNIDADES 280
4.2.1 A comunidade nos campos das vilas: compromissos e trajetórias cotidianos 286
4.2.2 Os campos das vilas nas comunidades: trabalho, política e tráfico 306
4.2.3 As comunidades fora dos campos das vilas: objetivando a separação 319
4.3 DO FUTEBOL (DOS TORCEDORES) AOS CAMPOS (À COMUNIDADE) 325

CAPÍTULO V, 328

5 HOJE ELES VIERAM SÓ PARA JOGAR BOLA, 328
5.1 DOIS JOGOS DE UM JOGO: NA BOLA E/OU NO CORPO 331
5.2 DESLIZAMENTOS: A PRODUÇÃO DA PRESSÃO-EMOÇÃO 345
5.3 GOVERNAR-SE: RECIPROCIDADE E CIRCULAÇÃO 363
5.4 JOGO PEGADO, PRESSÃO E GOVERNAMENTO 388

CONSIDERAÇÕES FINAIS, 391
NAS CONTROVÉRSIAS DA VÁRZEA 391

REFERÊNCIAS, 401

APÊNDICES, 409

Referência

MYSKIW, Mauro. Nas controvérsias da várzea: Trajetórias e retratos etnográficos em um circuito de futebol da cidade de Porto Alegre. 2012. 415 f. Tese (Doutorado em Ciências do Movimento Humano) - Ciências do Movimento Humano, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2012.