Presente etnográfico e “presente museográfico”: o caso do Museu do Futebol visto por um antropólogo urbano

Autores

Luiz Henrique de Toledo

Periódico / Revista

cadernos de campo

Cidade

São Paulo

Volume

v. 28

Número

n. 1

Páginas

p. 249-272

Ano

2019

ISSN

0104-5679

Resumo (pt)

Este artigo articula sugestões de método, formuladas a partir do acúmulo de experiências etnográficas há décadas no âmbito das práticas torcedoras, com os trabalhos mais recentes de Daniela do Amaral Alfonsi, diretora técnica do Museu do Futebol, que defendeu tese de doutorado no Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da USP, ocasião na qual participei como um dos avaliadores. Da noção de pessoa antropológica em contexto urbano, discutida na primeira parte do artigo, extraio a noção de “memória outra”. Na segunda parte estabeleço interlocução com a tese a partir da arguição que foi escrita para a ocasião da defesa. Entre outras coisas, Alfonsi aborda o lugar do Museu do Futebol no contexto de experiências museológicas que tematizam esportes e da minha parte estabeleço um diálogo com sua pesquisa e em parte com a condição profissional vivenciada “de perto e de dentro” pela antropóloga museóloga. A discussão sobre o Museu do Futebol no cenário da museologia se oferece criticamente em relação à concepção de que museus seriam centros indutores de memória na invenção daquilo que adapto aqui por “presente museográfico”, em franca analogia às implicações inquietantes contidas na expressão “presente etnográfico”. Museu sem acervo permanente, portanto desprovido de uma “coleção”, de relíquias ou memorabilia, essa instituição e a prática museológica ali implementada colocam várias questões pertinentes tanto para antropólogos quanto para aqueles que pensam o papel político que uma instituição desse caráter desempenha na contemporaneidade. Museologia aparecerá menos como um campo de saber autônomo, pois pretendo com esse exercício de reescrita da arguição (“etnografia parcial” do ritual de defesa) discutir jogos de classificação presentes tanto no estatuto epistemológico fundante do pensamento antropológico quanto na atuação política de museólogos. Assim, espero por fim alcançar a discussão sobre os desafios de levar torcedores ao museu como parte das metaforizações que definem o lugar do futebol na Cultura, bem como discutir tal fruição como objeto antropológico, e por último problematizar a produção da pessoa de museólogo e antropólogo implicados em questões de memória e identidades ao trabalharem temas menos ambientados na museologia.

Abstract

This paper articulates method suggestions formulated from the accumulation of ethnographic experiences during decades in the field of the fan practices with the most recent work of Daniela do Amaral Alfonsi, technical director of the Museu do Futebol (Soccer Museum), who was awarded with a doctoral title in the Postgraduate Program on Social Anthropology at USP, and whose final evaluation I took part. From the notion of anthropological person in urban contexts, which is discussed in the first part of the article, I have extracted the concept of “memory other”. In the second part, I establish kind of dialogue with the thesis taking my argument that was written in the occasion of her defense. Among other things, Alfonsi approaches the locus of the Museum in the context of “museological experiments” in sports, and from my point of consideration, I establish a debate with her research and the professional condition experienced “up close and inside” by the anthropologist-museologist. Such debate about the “Soccer Museum” in the museology scene offers itself critically in relation to the conception that museums would be memory – inducing centers in the invention of what I call here “museographic present”, in analogy to the disturbing implications contained in the current expression of “ethnographic present”.

Referência

TOLEDO, Luiz Henrique de. Presente etnográfico e “presente museográfico”: o caso do Museu do Futebol visto por um antropólogo urbano. cadernos de campo. São Paulo, v. 28, n. 1, p. 249-272, 2019.