Ludopédio em casa #13: Puntero Izquierdo e Guilherme Trucco

Autores

Equipe Ludopédio

Formato do vídeo / especificação

HD

País

Brasil

Duração

120 min.

Ano

2020

Produtora

Ludopédio

Elenco

Léo Lepri

Paulo Junior

Guilherme Tucco

Raul Andreucci

Marco Lourenço

Sinopse

O Torneio de Contos Mario Benedetti dos parceiros do Puntero já tem um campeão. Mais de 200 textos de todos os cantos do Brasil disputaram o título. O sucesso do projeto abre uma discussão importante a respeito do papel da crônica e literatura esportiva na construção do imaginário do futebol.

Pensando nisso, o Ludopédio em Casa recebe nesse episódio especial Paulo e Léo (editores do Puntero Izquierdo) e Guilherme Trucco, cronista e colunista do Ludopédio.

Referência

LUDOPéDIO EM CASA #13: PUNTERO IZQUIERDO E GUILHERME TRUCCO. Direção: Equipe Ludopédio. Brasil. Ludopédio, 2020. HD.

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Literatura, ficção e futebol

Paulo Junior (jornalista)

Para mim, a coisa mais gratificante é a gente ter chegado a bastante gente. O Puntero é filho do Impedimento.

A gente sonha com o Puntero ser o lugar de promover e reunir uma produção ficcional sobre futebol.

246 textos. Fechamos em 40.

Encontramos texto com raiz literária, com história, curva narrativa e o futebol perpassando tudo.

Tem aquele relato cronista mais comuns. Relatos factuais do futebol. Pênalti.

Relato de torcedor clássico, crônica esportiva cotidiana.

Valorizamos a diversidade.

Uma chamada de ficção trouxe muita gente diferente. Alcançamos uma camada de pessoas das quais não temos muito acessos.

Queremos dar vazão a essa produção ficcional.

O número (246) fala por si só.

Quais abacaxis nesse trabalho?

PAULO

O critério nosso era subjetivo, lógico. Originalidade do texto, relação com futebol, fluência da história, qualidade em geral.

Chegamos a uns 50-60 textos acima da média. Enxugamos.

Fiquei com medo de o torneio ficar muito longo.

A gente foi enxugando e chegamos em 40. Criamos grupos e cada um ficou com 5.

Tivemos textos “cabeças-de-chave”.

O restante sorteamos para não deixar muito parecidos em cada grupo.

Fizemos um misto de nosso gosto pessoal, pensando no leitor do Puntero, e essa divisão por grupos.

Pensamos em uma votação popular para os premiados.

Não queríamos entrar com uma coisa de júri. Achava que isso engessaria um pouco. Ele teria de contemplar uma pluralidade, daí passar para o público.

Tentamos deixar uma coisa anônima.

Um autor ou outro publicava o nome e pedia votos.

Queríamos premiar o texto e não de seguidores de rede social.

Jogamos para a galera votar.

PAULO

A votação era mais dos próprios autores ou dos leitores?

Tivemos votação bem maior do que de inscritos. Alguns grupos pelos times e textos foram bem disputados.

Conseguimos criar um público fiel que acompanhou todas as votações.

Os novos contistas são reminiscentistas. Acho que tem isso. Nossa referência de relato de futebol ainda é muito masculina, do moloque de ir sempre a estádios. Pelo enredo das histórias, muitas delas são do rolê para o estádio e como o futebol influencia a vida das pessoas. Essa relação da memória do futebol com a vida. Muito masculina, de pai para filho. Tem um certo padrão.

Pessoalmente, os textos que mais gosto são aqueles que fogem disso.

Acho que tem uma coisa que somos muito influenciados pela crônica. É do épico. Do palmeirense que ama o Galeano, do corinthiano que gosta do Wilson Mano.

E tem uma característica que o futebol é metáfora do cotidiano, da vida. É algo difícil de ser feito. Os 40 textos dão conta, respondem bem a esse desafio, de trazer esse futebol e virar história.

Precisamos ver o futebol em outros lugares também. Tentar se emancipar do relato da crônica, do Mario Filho, do Nelson Rodrigues. E também se libertar dessa coisa do futebol explicando minha vida.

Se o futebol é tão importante em minha vida, onde consigo colocá-lo? Uns textos têm mais futebol, outros menos. Eu, pessoalmente, prefiro os que têm menos.

Mulheres

Tinha 15 inscritas, 6 ou 7%.

No torneio, foram selecionadas 3.

O que vem daqui em diante?

Até para completar o que falaram do livro, acho que o torneio é diferente de um livro. O torneio é uma parada. Escrever, inscrever e acompanhar o trabalho, o que o público está achando.

O torneio não teve revisão nem edição dos textos.

Obviamente, todos aqueles 40 textos teriam qualidade para virarem livro. Para mim, torneio é torneio, livro é livro. Sou bem resolvido com isso.

A gente como site não temos capacidade para isso. Nós podemos nos assumir como conteúdo de internet.

Super-entendo a importância do livro, mas acho que esse torneio na internet funcionou muito bem.

Para o futuro, terão outros torneios. O Puntero é isso. Vai seguir fazendo chamados, remunerados. Sempre é um foco do Puntero remunerar o trabalho. O caminho é continuar tentando viabilizar verba para viabilizar conteúdo.

Por que não pensar outras formas de chamado?

Sobre viés político e pautas identitárias:

Eu tenho um palpite. O lance da ficção assusta um pouco. A maioria das pessoas envolvidas não é escritor. Acho que tem uma questão de linguagem. Quando abrimos chamada de pauta, esses chamados passam muito por isso. Passam por pautas quentes, pelo que se está passando pelo futebol. Vão estar sempre falando de politização. Tivemos pautas muito lidas, sobre homofobia, sobre política, sobre a camisa do Rivellino, textos de ditadura. Tudo isso está tão presente no jornalismo.

As próprias pautas da Copa América 2019 falavam de algo paralelo. A gente como veículo independente, que em tese para o leitor, não tem vazão na grande mídia. As pessoas entendem a pegada do Puntero.

A ficção é mais difícil de trabalhar mesmo.

Isso faz sentido.

O professor Zeca Marques. A crônica tinha um sentido de relato histórico. As crônicas eram um relato da história do jogo com o resultado ao final do texto.

A crônica virou um elemento do jornal. Ela virou um lugar para reflexão.

A nossa relação com a crônica é tão grande que isso fica de lado.

O Puntero é culpado disso também, que é essa coisa do futebol que não está na grande mídia. É uma coisa vaga. A gente nega tanto o futebol pop, mainstream, temos uma síndrome do time pequeno. Vamos olhar para frente. Vamos falar do Flamengo, do Corinthians também. Não temos só que falar do Brasil de Pelotas. O freelancer independente tem de ir para o mainstream também.

Lugar do texto de futebol com olhares sensíveis:

A crônica esportiva na concepção clássica está em desuso. Ninguém vai dormir sem ver um resumo em vídeo das partidas.

Qual foi o grande texto sobre o 7 a 1? Eu sempre me apeguei aos mundiais pré-1970. A gente teve uma Copa no Brasil, mas ninguém leu textos.

Gosto do Tostão, do Mansur, do Martin… Mas eles não estão na pauta do dia. Tem uma questão de formato.

O futebol deixou de ser algo contado. Talvez ele vai acabar ser cada vez mais literário. O livro do Simas é ótimo. Ou vamos pelo caminho ensaístico, como um perfil na Revista Piauí.

Essa briga do texto estamos deixando passar no sentido de imagem ser protagonista do futebol hoje.

Não dá mais para debater.

Como contar a história do jogo resolvido no VAR? As pessoas estão cagando para seu texto.

A linguagem do celular é o da imagem. O texto fica perdido. Talvez o Puntero pudesse retomar o Impedimento. Poderíamos pegar a final da Libertadores e colocar seis pessoas escrevendo de forma original sobre ela.

Quem pauta o imaginário? A crônica está no Mauro Cézar, no PVC. O subjetivo está com eles.

Por que nas Copas do Mundo, os jornais trazem pessoas de outros lugares? Por causa disso. Para trazer pessoas de outros lugares, para falar não do factual.

Em nossa rotina, eu estou junto nesse debate. Precisamos reconquistar esse espaço. Precisamos sair da ditadura da imagem. Parar de discutir se o jogador se jogou ou não.

Pensando numa geração mais jovem, não é só a ditadura da imagem, mas o da estatística. A gente está na merda. A gente que gosta de imaginar o futebol, a objetividade pautou a discussão mesmo.

O Messi alcançar o número de gols do Pelé é simbólico nesse sentido. Isso não é pachequismo, não é coisa de brasileiro saudosista. Como argumentar que o tamanho do Pelé não foi só forjado em campeonato? Esse é um longo papo, de entender como combater a objetividade extrema.

O comentarista da TV parece o explicador de filme no início do séc. XX.

A crônica, se não falar do subjetivo, está a serviço da imagem mesmo.

Considerações finais:

Só agradecer também.

Indico o texto do Guilherme mesmo. Seu texto se alinha com o que a gente falou, de levar o futebol para outros lugares.

Vou indicar dois livros bem aleatoriamente:

“Entre as quatro linhas”

“Contos da várzea e outros blues”

“Flamengo é puro amor”, Zé Lins do Rego.

Acho que tem uma narrativa em disputa mesmo. Esse nosso movimento faz parte de tratar disso também, de inaugurar olhares. Essa coisa não se perdeu. Precisamos pôr a mão na massa. Tem a próxima geração. O futebol é muito de criança. Precisamos pegar essa juventude que sai do jogo e quer ler textos bacanas.

Léo Lepri (jornalista)

Classificação dos textos – pergunta

O que fazer com a quantidade de textos?

Ainda não sabemos o que fazer, mas queremos dar visibilidade a todos os textos enviados.

Tinha um texto sobre um mascote do Botafogo que era maravilhoso.

Fizemos quase uma defesa de cada texto.

Virão outros torneios para pessoal que faz outro tipo de produção (charges, por ex.)

O dinheiro do Apoia-se deve retornar aos leitores e produtores de texto.

Vamos ver o que vamos fazer com esse material…

Que acha da votação ser no escuro? Mudaria o resultado?

O Paulo é bem mais prático do que eu.

A gente achava que o anonimato era importante para que os autores não pedissem votos para seus seguidores.

A gente pedia boa fé das pessoas.

Acho que deu certo.

No comentário, no Twitter, no Puntero, houve a revelação das autorias de cada texto e até mesmo da escolha dos times. Teve bastante envolvimento com os leitores.

Tentamos pegar esses times sem tanta visibilidade no futebol sul-americano para fugir do estereótipo dos times tradicionais, como por ex. Colo-Colo e Racing. Mantivemos o anonimato com essa capa de anti-heróis.

Nesse sorteio, escolhemos times underground para não gerar mobilização pelo nome dos autores e também dos times dos países sul-americanos.

O que mais te chamou, o que te deixou mais contente ao ler os textos?

Gostava das histórias em que o futebol era perpendicular à história. De alguma forma, o futebol acontece, é o estopim, mas não o protagonista da história.

O que mais me surpreendeu foi a quantidade de contos que fizeram esse trabalho.

A ideia era 32 textos, mas precisamos fechar em 40 para abarcar todos os textos muito bons.

Fomos surpreendidos por ter muita gente produzindo e muita gente com qualidade.

É claro que temos nossas referências, como o Trucco falou do Sérgio Rodrigues. Até o Borges, que falava que o futebol não servia para isso. Hoje tem muita gente boa. Descobrimos que tem muita gente falando de futebol sem falar exatamente de futebol.

Mulheres

Tivemos um grande número de torcedoras do Paysandu. Acho que caiu o edital do torneio no Whatsapp dessas torcedoras.

Sobre a ausência da política:

Os textos foram muito mais suaves. Fizeram parte, mas de modo suave. Tivemos textos que falavam de homofobia, racismo, mulheres, mas acho que conseguimos equilibrar os grupos para que não caíssem esses assuntos em um mesmo grupo. Até para não ficar pesado. Queríamos que eles não competissem entre si, mas que todos eles tivessem possibilidade. Às vezes um texto aparecia como azarão e um texto com essa discussão perdia de lavada.

Conseguimos identificar a quantidade de pessoas que liam do que de votantes.

Ficamos surpresos com textos que não eram de panfletagem aberta, mas que não deixavam de abordar esses assuntos.

Falou-se de tudo.

Concordo com tudo o que o Raul já disse.

Tem o cara que quer o relato factual, tem o cara que quer a leitura de um determinado jornalista e tem aqueles que querem visões com mais dedicação aos assuntos.

O Puntero surge com a proposta de fazer uma grande reportagem por mês. Queríamos fazer a roda do jornalismo girar.

Queríamos dar vazão para alguém que tinha um tempo maior para escrever.

Existe público para tudo.

O pessoal da Trivella consegue fazer esse trabalho de modo equilibrado.

E existe vitrine para tudo.

O grande segredo é como fazer essa roda girar.

É o momento de reconhecer a produção de sites, revistas, editoras que trabalham nesse caminho do financiamento.

Eu me canso de ler crônicas que trazem um “resumo” do jogo.

As produções com mais tempo são a proposta do Puntero. Queremos diversificar não só nessa pauta de literária e de ficção e também àquilo que está para além do Boletim de Ocorrência.

Considerações finais:

Queria só agradecer mesmo.

Recomendo a gente mesmo: Ludopédio, Puntero, Trucco e Dolores.

O Puntero não tem dono. A porta está aberta.

Guilherme Trucco (colunista)

Como foi lidar com a expectativa de não poder revelar ser autor de um dos textos? Ponto de encontro com a literatura do futebol.

Vou falar de minha experiência como participante.

O esquema todo foi muito interessante, a escolha dos times.

Quando vi os times que saíram, achei muito bom.

A gente só descobria quando os grupos eram publicados.

Essa divulgação dava a oportunidade de ler os textos dos outros e com a emoção de achar o seu próprio texto. Esse sistema foi bem interessante. Criou essa integração.

Eu concordo com o Paulo.

O futebol como pano de fundo.

Sérgio Santana, Michel Lopes.

Prefiro sair desse saudosismo constante, das crônicas.

Falar do processo:

Eu tenho um projeto literário com o futebol. Eu gosto do realismo mágico, do Gabriel Garcia Marques e do Guimarães Rosa. O futebol está intrínseco na cultura brasileira. Tento juntar essas duas coisas. Tento fugir da crônica e tento trazer esse lirismo do realismo mágico. O futebol é realismo mágico. Tudo pode acontecer ali. E tem um viés político também. Meu projeto literário é encontrar histórias em que o futebol esteja como pano de fundo e que essa mágica, esse além, essa cultura seja o principal.

Tento trazer algum tipo de reflexão sobre o contexto. Esse é meu approach. Tento trazer o futebol para dentro de uma discussão. Tem tudo a ver com minha coluna no Ludopédio.

Considerações finais

O Woody Allen é um cara que gosto, mas não sei da onde veio isso.

Enfim, finalizando o tema em pauta, lançando o desafio, eu como escritor, um dos elogios mais bacanas é quando alguém diz: “Não gosto de futebol, mas gostei do seu livro”.

A literatura de futebol e essa literatura produzida no torneio tem essa capacidade de dialogar com todo mundo, com outras camadas. É onde está essa profundidade.

É difícil produzir texto nessa densidade com a internet.

Precisamos quebrar esse paradigma. Precisamos de tempo para pensar o futebol.

Meu livro é “Saída Bangu”.

Raul

Entrevista de ? para o Roberto Jardim.

“A vida é metáfora do futebol. Não o inverso.” Acho que é por aí.

Acho que o torneio de vocês fez com que muita gente se exercitasse para escrever sobre futebol ou que pelo menos compartilhasse esses textos para o público.

Pensando em literatura do futebol ficcional, eu gosto de algumas que encontro em viagens pelo Brasil. É uma literatura dispersa. O Guilherme traz mais a isso. Cenas específicas de algum assunto. A cena do punk, do dadaísmo. Está surgindo uma cena de futebol. Teve muita gente criada na virada do analógico para o digital. Tem gente que não suporta só o factual, do comentário de tv. Talvez a pandemia fez saltar isso. É a nossa sensibilidade. Alguém se vê escrevendo. Isso é cultura, arte.

Ao pensar nas crônicas em minha vida, lembrei-me que para entrar no Lance, onde trabalhei por 5 anos, a gente tinha que escrever uma crônica. Aquele romantismo de moleque começou a ser quebrado ali. Eu fiz parte de bastidor. Escrevia crônica vendo da tv, não no estádio.

Sim, tem muita gente que vai a estádio. Mas tanto está cada vez mais difícil ir a jogos, quanto massificou a transmissão de jogos.

15 anos atrás os estudantes de jornalismo tinham como teste escrever crônicas vendo pela tv.

Existia ali um padrão para se adequar a isso.

Às vezes você está fazendo o tempo real do jogo e ao mesmo tempo estávamos escrevendo a crônica do jogo. Não podíamos publicar depois de meia hora do jogo. E esse é um lado interessante também: o torcedor que via o jogo queria ler sobre ele.

Hoje há uma fragmentação tão grande também que muito empobrece as crônicas atuais. As melhores são as das crônicas de finais, de grandes jogos.

A crônica ter se perpetuado é muito ruim.

Precisamos, como no torneio, incentivar a escrever diferente. Não precisamos ler o texto no minuto seguinte do término do jogo. Quero o texto que escreva diferente. Não faz sentido o texto que só retrata o factual.

Considerações finais:

A experiência com o Guilherme tem sido bacana.

Eu entendo o depoimento meio pessimista do Paulo Júnior. Não tenho resposta imediata para o que ele trouxe. Eu provoco: vamos fazer a crônica de segunda-feira, vamos fomentar isso, incentivar as pessoas a escreverem.

Domingadas era uma pegada de ter o prazer de ler o caderno de esportes de domingo. É uma ideia. Eu espero que as pessoas se sintam provocadas a exercitar uma solução.

O torneio de vocês me animou, é muito mais qualitativo do que quantitativo, uma galera engajada.

Precisamos de pessoas que valorizem o trampo que a gente faz pelo trampo, não por nós.

Precisamos conseguir monetizar. Essa virada está para acontecer apesar dos tempos em que vivemos.

Dicas: Stanislau Pontepreta, “Bola na rede: as batalhas do Bi” e “O futebol”.