Carta aberta III Simpósio Internacional Futebol: “Linguagem, Artes, Cultura e Lazer”

Nós, representantes de torcidas organizadas, ativistas dos Direitos Humanos e estudiosos(as) do futebol, apresentamos algumas medidas para a transformação, criativa e pacífica, dos conflitos no futebol brasileiro, a partir das discussões realizadas no III Simpósio Internacional Futebol: “Linguagem, Artes, Cultura e Lazer” e no II Seminário: “Futebol nas Gerais”, organizados pelo Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT) da UFMG, em Belo Horizonte, nos dias 13, 14 e 15 de setembro de 2018. Antes, todavia, é preciso destacar que esses conflitos não são ruins em si mesmos. O conflito é parte intrínseca da sociedade. Não é uma patologia, uma “excrescência” que deve ser eliminada do “corpo social”. Com efeito, o problema está, na verdade, nas orientações violentas que alguns desses conflitos tomam na sua resolução.

Também é preciso destacar que esses caminhos não são o resultado da ação de pervertidos(as) patológicos(as), que encarnariam a própria maldade. Um(a) torcedor(a) possui múltiplas condutas. A do(a) violento é apenas uma delas. Ademais, TODOS(AS) os(as) envolvidos(as) com o futebol, de alguma forma, fomentam a violência, dado que a cultura do futebol celebra a humilhação do(a) rival. Os(as) torcedores(as) não pertencentes às associações torcedoras, por exemplo, retratados(as) pela imprensa como “pacíficos(as)”, habitualmente legitimam a violência por meio de cantos e gritos de guerra.

Tampouco devemos incorrer no erro de reduzir a violência no futebol à questão da pobreza. Há manifestações violentas em todas as classes sociais. Da mesma forma, não devemos conceber essa violência como irracional. Ao contrário, é justamente porque possui uma lógica que pode ser explicada e transformada. Compreender sua lógica, todavia, não significa justificá-la, mas ir a suas raízes mais profundas, a fim justamente de transformá-la.

Outro equívoco recorrente é o de desconsiderar as particularidades históricas e sociais da violência no futebol. Esta é o produto de uma sociedade, de uma história, de uma cultura. Ocorre que diferentes grupos sociais rotulam variados fenômenos como violentos. Não há consenso sobre o que seja violência, portanto. Por essa razão, é preciso entender a violência no plural. Trata-se de violências no futebol. E, se estamos falando de violências, não podemos iluminar algumas e deixar outras na penumbra, condenando-as ao silêncio. Entre as violências silenciadas, destacamos o machismo, a homofobia e o racismo. Estes estão tão arraigados na estrutura da sociedade brasileira que, com frequência, passam desapercebidos.

Em relação aos embates corporais, que costumam ganhar amplo destaque nos meios de comunicação e despertar a atenção das autoridades públicas, não podemos perder de vista que são, para alguns(mas) torcedores(as), excitantes. Consequentemente, o envolvimento nesses embates não pode ser lido apenas como um meio para obtenção de status, para a inserção numa rede de favores e para ascender na hierarquia da torcida, mas, também, como um fim em si mesmo. Tampouco podemos perder de vista que esses embates são motivados, em parte, por um princípio de masculinidade heterossexista, que diz que, para “ser homem de verdade”, é preciso aguentar as adversidades. Tal princípio é reproduzido em outros espaços de socialização, como a família e o mundo do trabalho, e, com frequência, é legitimado pela própria mídia esportiva.

Diante do exposto, recomendamos que:

  • – O Poder Público fomente a democratização do processo de construção de políticas de segurança para os eventos futebolísticos, criando o maior número possível de canais de participação, como comissões locais que possam alimentar os trabalhos da Comissão Nacional de Prevenção da Violência e Segurança nos Espetáculos Esportivos (CONSEGUE);
  • – O Poder Público crie a figura do ombudsfan. Essa figura poderia ser indicada pelas entidades representativas de torcedores, como a ANATORG e o AGIR, e deveria ter direito à voz e a voto na CONSEGUE;
  • – O Poder Público fomente a democratização da gestão dos clubes, das federações estaduais e da CBF;
  • – O Poder Público invista na criação de espaços de trabalho, discussão e apresentação de projetos para os(as) integrantes das torcidas organizadas;
  • – O Poder Público empenhe-se na aplicação efetiva do Estatuto de Defesa do Torcedor, responsabilizando também as forças dominantes do futebol por possíveis violações de seus artigos, e não apenas as torcidas organizadas;
  • – O Poder Público altere os artigos problemáticos do Estatuto de Defesa do Torcedor, como o 39, que autoriza punir toda a torcida organizada por conta da ação violenta de um ou alguns de seus(uas) integrantes;
  • – O Poder Público, a CBF e as federações estaduais ampliem o diálogo com as entidades e as torcidas organizadas, investindo em ações socio-pedagógicas nos seus espaços de convivência e na capacitação de seus(uas) líderes;
  • – O Poder Público, a CBF, as federações estaduais e os clubes invistam no combate ao machismo, à homofobia e ao racismo, mediante punição rigorosa no curto prazo e educação no médio e longo prazo;
  • – O Poder Público altere o Art. 243-G, do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD), uma vez que tal artigo reza que o clube pode sofrer punição se uma determinada quantidade de torcedores(as) cometer discriminação, sem, no entanto, especificar essa quantidade – o que leva a punições diferenciadas para casos semelhantes;
  • – O Poder público, a CBF e as federações estaduais promovam a inclusão de mulheres em todos os âmbitos do
  • – A universidade intensifique a produção e difusão de pesquisas sobre a história dos grupos de torcedores(as) e atletas de futebol habitualmente invisibilizados(as) – como mulheres, homossexuais e negros(as) – e/ou que discutam as violências contra esses grupos, que tendem a ser relegadas ao silêncio;
  • – A polícia crie agrupamentos especializados em todos os estados do país e invista na capacitação de seus(as) integrantes, a fim de que possam administrar, de forma eficiente e justa, os conflitos entre torcedores(as);
  • – A polícia fortaleça a área de inteligência, uma vez que ela é central para a redução da impunidade;
  • – Os veículos jornalísticos criem códigos de ética, que possam orientar as práticas dos(as) profissionais do jornalismo esportivo, uma vez que esses(as) profissionais tendem a construir narrativas simplistas, maniqueístas e sensacionalistas, que, entre outras coisas, objetificam as mulheres (atletas e torcedoras) e estigmatizam os(as) integrantes das torcidas organizadas;
  • – Os clubes se envolvam mais diretamente em estratégias de segurança e estabeleçam um(a) responsável pela articulação com as outras instituições envolvidas nessa questão. Tal responsável deve ser o(a) primeiro(a) a responder por possíveis problemas, evitando que os clubes se eximam de algo que é da sua alçada;
  • – Os clubes, as federações estaduais e a CBF fomentem o acesso democrático ao espetáculo futebolístico, criando setores populares nos estádios e desenvolvendo políticas de precificação do ingresso que incluam as classes populares;
  • – Os clubes, as federações estaduais, a CBF e o Poder Público incentivem a festa na arquibancada, ao invés de impor diversas restrições que servem apenas para esfriar o clima nas arquibancadas e minar uma cultura popular de

Por último, para aqueles(as) que, por meio de análises fatalistas, acreditam que não é possível transformar a ordem futebolística vigente e reduzir suas diversas formas de violência, gostaríamos de lembrar as palavras de Nelson Mandela: “tudo parece impossível de ser feito até que seja feito”.

Adriano Lopes de Souza – UFMG

Alexandre Francisco Alves – Prefeitura de Betim

Carla Augusta Nogueira Lima e Santos – Unifemm

Carlos Coelho Ribeiro Filho – UFJF

Carlos D’Andrea – UFMG

Cristiane Nestor de Almeida – PBH.

Deborah Guimarães Quirino Electo Conrado – UFMG

Elcio Loureiro Cornelsen – UFMG

Fábio Henrique França Rezende – UFMG

Felipe Tavares Paes Lopes – Universidade de Sorocaba

Felipe Vinícius de Paula Abrantes – UFMG

Flávio “Frajola” Martins – Vice presidente ANATORG

Georgino Jorge de Souza Neto – UNIMONTES

Gustavo Andrada Bandeira – GEERGE/UFRGS

Gustavo Rebelo Coelho de Oliveira – UERJ

Indiamara Bárbara da Silva – UFMG

Isabella Guimarães Lima e Silva UFMG

Isabelly Morais Fernandes – Rádio Inconfidência/MG

Jéssica Montanhini de Souza – UFMG

José Augusto Toscano – Rádio Inconfidência/MG

José Garriga Zucal – IDAES/UNSAM-CONICET

Leonardo Turchi Pacheco UNIFAL-MG

Luciane de Castro – Ludopédio/Coletivo Futebol, Mídia e Democracia

Luciano Jorge de Jesus – SEE/MG e SME/Santa Luzia

Luiz Gustavo Nicácio – UFMG

Luiza Aguiar dos Anjos – IFRJ

Maurício Murad – Universidade Salgado de Oliveira (UNIVERSO)

Marina de Mattos Dantas – UFMG

Mateus Alexandre Silva – UFMG

Mauro Lúcio Maciel Júnior – UFMG

Priscila Augusta Ferreira Campos – UFOP

Raiane Menezes Rufino – UFMG

Sarah Teixeira Soutto Mayor – UFJF

Silvana Vilodre Goellner – UFRGS

Silvio Ricardo da Silva – UFMG

Thiago Carlos Costa – UFMG / Museu Brasileiro do Futebol – Mineirão

Thiago José Silva Santana – PBH

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