07.7

Alessandro Schoenmaker

Equipe Ludopédio

Neste mês, a seção Entrevistas traz uma edição especial com preparadores físicos brasileiros que atuam em clubes estrangeiros. Duas trajetórias, diferentes experiências, muitas histórias…

A primeira entrevista é com Alessandro Shoenmaker, formado em Educação Física na Unicamp e que trabalhou em alguns clubes da Holanda, Inglaterra e Alemanha.

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Boa leitura!

 

O preparador físico Alessandro Schoenmaker, atuou em alguns clubes europeus. Foto: Arquivo Pessoal.

 

 

Alessandro Shoenmaker 

 

Em holandês o seu sobrenome – Shoenmaker – quer dizer sapateiro. Você imaginava que poderia trabalhar com uma atividade que necessita fundamentalmente do uso dos pés? Você tinha o desejo de trabalhar com o futebol desde o início do seu ingresso no curso de Educação Física? Como foi esse processo?

Sempre tive o sonho de me tornar jogador de futebol. Quando percebi que não teria chance, também devido ao gosto e à prática de outros desportos, optei pela Educação Física como meio de manter-me no meio. O sobrenome é uma mera coincidência! O desejo veio de infância. E a escolha pelo curso de Educação Física foi simples. Não saberia escolher outra profissão que não a que exerço hoje.

Como você se tornou um preparador físico de equipes de futebol no exterior?

Após finalizar meu Bacharelado e minha Pós Graduação (Unicamp), e trabalhar nas categorias de base do Guarani FC, resolvi optar por uma experiência no exterior. Através do curso de Especialização da IAPF (International Association for Physical Footballtraining), tive a possibilidade de estagiar no clube FC Utrecht (em 2004), o que resultou numa oportunidade de trabalho, por onde permaneci por quatro anos, tendo trabalhado com o treinador Foeke Booy. Após este período, fui contratado pelo FC Twente, também da Holanda, onde trabalhei com os treinadores Fred Rutten e Steve McClaren por três anos. Após sete anos na Holanda, trabalhando na Eredivisie, surgiu a oportunidade de trabalhar na Bundesliga pela equipe do Vfl Wolfsburg, onde permaneci uma temporada, me transferindo no ano seguinte para a Inglaterra, onde também por um ano trabalhei na equipe do Nottingham Forest. Atualmente, esta é a minha segunda passagem pelo clube.

Alessandro Schoenmaker, aplicando treinamento no futebol europeu. Foto: Arquivo pessoal.

Cada vez mais é comum ver que um bom número de jogadores brasileiros vai para o exterior sem terem atuado por equipes brasileiras. Com você foi a mesma coisa. Como analisa esse fato na sua carreira?

Eu nunca tive a oportunidade de trabalhar com uma equipe profissional no Brasil, apenas nas categorias de base do Guarani FC. Uma experiência gratificante, que proporcionou um espaço para aplicação dos meus conhecimentos. Infelizmente, no Brasil meu trabalho não é reconhecido por este mesmo motivo.

Ser um preparador físico na Europa significa dizer que você trabalhou com jogadores de várias nacionalidades. Como estão constituídas as relações de identidade quando a equipe é constituída por atletas de várias regiões? Existe algum trabalho do clube em amenizar as diferenças culturais?

Por todos os clubes que passei na Europa, os grupos eram multiculturais. Cada clube trabalha este aspecto de uma maneira diferente. Na Europa se preza muito que o jogador se adapte o mais rápido possível à cultura do país e do clube, e o primeiro passo é o aprendizado da língua. Eu, como treinador, também passei por esse processo em todos os países que trabalhei. O respeito pelo profissional é maior quando colegas de trabalho falam a mesma língua.

Preparador físico Alessandro Schoenmaker. Foto: Arquivo Pessoal.

Quais diferenças e semelhanças que você pode apontar em relação aos clubes e países que trabalhou (Holanda, Alemanha e Inglaterra)?

As culturas são totalmente diferentes, e a mentalidade dos jogadores também. Mesmo os grupos sendo multiculturais, a predominância no grupo é de jogadores nacionais. A Holanda possui um sistema especifico de jogo e todos os meios de treinamentos são baseados em sua filosofia. Por qualquer clube que passar, ou categoria que trabalhar, poderá notar algumas semelhanças. A disciplina é um dos fatores centrais, assim como o aspecto tático também é marcante. O pensamento holandês é geométrico e estratégico. Ambos são enfocados logo cedo na formação dos jogadores. Quanto ao futebol alemão, ele está ainda muito associado à parte física, ao espírito de luta, à obrigação de ganhar e ao uso racional da força. As virtudes alemãs agora incluem uma enorme dose de criatividade. Inúmeros jovens jogadores cheios de habilidade surgiram nos últimos anos no país tricampeão mundial. A Inglaterra, por sua vez, poderíamos dizer que é um mix dos outros dois países. Uma cultura conservadora e tradicional, onde o futebol jogado é muito próximo ao alemão.

Apesar das inúmeras diferenças visíveis podemos falar que existe uma certa cultura futebolística quase universal em alguns aspectos, tanto dentro e fora de campo?

Acredito que há uma linguagem muito parecida dentro do mundo futebolístico, mas uma cultura universal não acredito. Tendo passado por quatro países diferentes e trabalhado em dois continentes, pude perceber que ao mesmo tempo em que os países se assemelham, eles se diferenciam por outros motivos. Cada país possui sua cultura e ela deve ser respeitada. Acredito que este foi o segredo da minha adaptação. Procurei primeiramente buscar quais as características principais do país e do clube em que trabalhei, e aos poucos, gradualmente, introduzi os conteúdos que para mim eram importantes, e de uma forma ou de outra integrá-los àquilo que já era de conhecimento dos jogadores.

Alessandro Schoenmaker comemora gol de sua equipe. Foto: Arquivo Pessoal.

Você sofreu algum tipo de preconceito pelo fato de ser brasileiro? Existem muitos brasileiros trabalhando nesta área na Europa?

Não encontrei na Europa brasileiros que atuem na área. Apenas no Bayern de Munique, onde o preparador físico (Marcelo) também é brasileiro e passou teve uma trajetória semelhante à minha, vindo de uma experiência nos EUA. Mas em nenhum momento pude perceber algum preconceito quanto à diferença de nacionalidade. O profissional na Europa é avaliado pelo seu conhecimento e trabalho, e não pela sua nacionalidade.

Pelos clubes que trabalhou como foram as suas relações com os técnicos? Com quem trabalhou?

Por todos os clubes em que passei minha relação com os treinadores foi muito próxima, com uns mais e outros menos. Tanto dentro como fora de campo o relacionamento deve ser estreito, assim como com outros colegas da comissão técnica. Dos treinadores com quem trabalhei, mencionaria Steve McClaren como o treinador mais próximo. Por ser um treinador ‘moderno’, ou como é chamado na Europa, Manager, e talvez por ser o mais experiente com quem trabalhei, e também com quem mais aprendi. Mas não posso deixar de mencionar meu primeiro treinador, Foeke Booy, que abriu as portas na Europa e com quem ainda tenho muito contato.


Alessandro Schoenmaker no banco de reservas em jogos oficiais. Foto: Arquivo Pessoal.

 

Os técnicos se interessavam e opinavam na parte da preparação física?

Todos os técnicos europeus passam por um processo árduo de formação, onde a parte da preparação física é focada. Uns são mais interessados e outros menos, mas não são leigos. O futebol moderno atual necessita de treinadores ‘completos’, capazes de entender outras facetas e não só a parte técnico-tática. Outros aspectos como a parte física, psicológica e nutricional são fundamentais, pois interferem também em seu trabalho.

Existe uma proposta interdisciplinar no futebol europeu? Ou seja, de integrar as ações do técnico com a proposta da preparação física, do fisiologista, do departamento médico etc.?

Sim, existe. Todas as áreas são muito próximas. O preparador físico é visto como um elo entre a Comissão Médica e Técnica. O contato é diário e intensivo. Por exemplo, no clube onde trabalho atualmente, cada manhã, toda a comissão se reúne por 45 minutos para tratar da programação, dos jogadores e outros pontos que envolvam ambos. A integração é muito importante. O time fora de campo muitas vezes é mais importante que o de dentro do campo.

Foto oficial do time para temporada com Alessandro Schoenmaker. Foto: Arquivo Pessoal.

Os técnicos comentam com seus jogadores algo em torno das conhecidas discussões realizadas aqui no Brasil sobre o Futebol-Arte e o Futebol-Força? Isso aparece no treinamento dos atletas?

Não acredito que hoje podemos utilizar os termos Futebol-Arte ou Futebol-Força. Acredito mais num Futebol-Total; onde a técnica refinada se mistura à disciplina tática e à forca física. O estereótipo utilizado para caracterizar o futebol brasileiro e o europeu deu lugar ao futebol moderno, que se torna cada vez mais físico e tático. Claro que com características distintas, influenciadas pela cultura de cada país. Acredito que estas características de cada país são levadas em conta no treinamento. Como, por exemplo, na Holanda, onde quase todas as equipes da Eredivisie jogam no sistema 4-3-3, típico da seleção nacional.

É possível identificar diferenças entre as escolas brasileira e europeias no que diz respeito à preparação física?

Tanto a escola europeia quanto a brasileira abriram as portas para as pesquisas científicas. Pesquisas que vieram não para atrapalhar, mas sim para fornecer maiores informações aos preparadores físicos e treinadores. Atualmente, dispomos de frequencimetros, GPS, video-câmeras, tanto em treino como em jogo. O cientificismo penaliza a subjetividade e desencoraja a abordagem qualitativa que enredam numa teia de erros. A ciência lida com problemas, e procura respostas para ela, entretanto elas não são definitivas. Como o futebol, a ciência está em constante evolução de ideias. A informação está ligada não à quantidade, mas à qualidade dela. Devido à complexidade do futebol, a irregularidade de comportamento de algumas variáveis também complica a sua análise. A escola europeia tem procurado ideias inovadoras de treinamento, mas também de controle de carga (e testes físicos) que respeitem a especificidade do esporte, mas também a individualidade do atleta. Clubes por qual passei trabalham por posições (units work), mas jogadores também possuem testes específicos por posições (físicos e técnicos). Por estar há muito tempo fora do Brasil, não tenho muito conhecimento de como os clubes têm trabalhado e utilizado estas informações.

Alessandro Schoenmaker aplica treinamento físico para atletas. Foto: Arquivo Pessoal.


Como estão estruturadas as categorias de bases dos clubes que trabalhou?

As categorias de base pelos clubes que passei são muito bem estruturadas. Na Holanda, por exemplo, procura-se trabalhar nas categorias de base como na equipe profissional. Utilizando-se dos mesmos métodos e exercícios de treinamento, como também jogando no mesmo sistema de jogo. Alguns clubes trabalham para, num futuro próximo, ter sua equipe profissional formada por 50% de atletas da base do clube. Acompanhamento escolar, psicológico e nutricional, assim como treinamento de mídia, são normais na base.

Os jogadores criados no próprio clube têm espaço na equipe principal ou grande parte deles são contratados de outros clubes?

Como acima mencionado, os clubes têm procurado cada vez mais utilizar-se de jogadores das categorias de base, e também diminuir custos. No clube que atualmente trabalho, temos cinco jogadores que foram formados na base entre 17-21 anos e que diariamente participam de todas as atividades da equipe profissional, mas que jogam pelas suas categorias. A intenção é diminuir ou facilitar o processo de adaptação do jogador jovem quando chega à equipe profissional.

Alessandro Schoenmaker, comemora conquista de título. Foto: Arquivo Pessoal.


Quais são os seus planos para o futuro? Você pretende em algum momento tentar a carreira de técnico?

Como todo profissional, tracei um plano de carreira, entretanto me preocupo com o trabalho do meu dia a dia, e com o clube com qual trabalho, pois esta é a minha realidade, o restante é resultado e reconhecimento do trabalho. Acabo de retornar à equipe do Fc Twente, e no momento quero contribuir com a performance da equipe e apagar a temporada passada. Quanto a seguir a carreira de técnico, nunca me passou pela cabeça.

Você pretende, em algum momento de sua carreira, trazer a experiência adquirida na Europa para o Brasil?

A vontade de trabalhar no Brasil permanece assim, como o sonho de trabalhar na Seleção Brasileira. Com a experiência de quase nove anos na Europa, e tendo trabalhando em três grandes campeonatos europeus, acredito que posso acrescentar e dividir meu conhecimento com colegas da área. Entretanto, a oportunidade ate hoje não apareceu.