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Arlei Sander Damo

Danton Júnior, Pedro Vasconcelos Costa e Silva

Elitização provocou distanciamento entre seleção e torcedor popular no Brasil, diz antropólogo

A Copa América se despediu com o Brasil campeão. Ainda assim, na maior parte das cidades, o clima de torcida que esteve muito presente na Copa do Mundo de 2014 não se viu. Em Porto Alegre, por exemplo, onde torcedores argentinos e uruguaios cantaram e dançaram em frente aos hotéis, a recepção foi gelada. Praticamente não se ouviram foguetes, nem gritos: os bares estavam vazios, a avenida Goethe, tradicional ponto de comemoração, às moscas.

O que explica esse arrefecimento? O antropólogo Arlei Sander Damo, um dos maiores especialistas em cultura do futebol brasileiro, opina sobre o tema nesta entrevista ao Ludopédio e ao Puntero Izquierdo.

Para ele, a apropriação dos símbolos nacionais pelos movimentos que chegaram ao governo e a elitização dos estádios são os fatores centrais. Ao mesmo tempo, nenhum desses fatores é inédito: em 1950, o prefeito do Rio de Janeiro cobrou em discurso o título da Seleção Brasileira, enquanto em 1970 João Saldanha reclamava da interferência do presidente Emílio Médici na escalação da Seleção. Quais são as diferenças de hoje em relação ao passado? E as semelhanças? Acompanhe na entrevista abaixo.

Arlei Sander Damo, antropólogo e professor da UFRGS. Foto: Marcel Diego Tonini.

A que você atribui a relação de arrefecimento do torcedor brasileiro com nossa seleção? 

Elitização e politização. A elitização tem a ver com o futebol, um desdobramento do que já acontece em relação aos certames de clubes. Até alguns anos atrás, havia uma diferença muito pronunciada entre o público que frequentava os eventos clubísticos e os da Seleção Brasileira, sendo estes menos masculinizados e mais festivos, quase um evento social, ao gosto das classes médias e altas.

Nos jogos entre clubes, este perfil de público não se aventurava, mas com a arenização (modernização dos estádios no Brasil, acelerada com a Copa de 2014) o cenário mudou. Em outras palavras, aumentou a oferta de espetáculos futebolísticos às classes altas, equivalentes aos da Seleção, de modo que estes já não são únicos e nem raros. Com a concorrência, competições como a Copa América ou mesmo jogos isolados do time da CBF saíram perdendo.

Há um processo de elitização do futebol que está em marcha há algumas décadas, tendo se intensificado com a arenização. A elite clubística e a grande mídia têm achado isso ótimo, porque o faturamento aumentou. Estou curioso para ver o que vai ocorrer num tempo mais alongado, mas não ficaria surpreso se daqui a alguns anos os clubes tivessem de repensar suas estratégias. O “povão” foi alijado dos estádios e está cada vez mais distante do futebol, passivo diante da televisão. O desinteresse pelo time de Tite é, em parte, resultante disso.

E quanto à politização? 

A politização dos símbolos nacionais — não apenas das cores verde e amarela, mas o uso de camisas da CBF em manifestações políticas de partidos e movimentos políticos de direita e extrema-direita — fez com que muitos brasileiros se afastem dessas marcas.

O time da CBF, que no Brasil chamamos apenas de “Seleção”, é um dos símbolos laicos de brasilidade mais potentes, desde que não seja imiscuído às refregas políticas. No Brasil, os movimentos de direita não têm uma tradição de mobilização constituída e, como tal, não dispõem de uma simbologia própria e de um escasso repertório de ação coletiva. Na urgência, acabaram se apropriando dos símbolos nacionais, em que pese esta seja uma característica recorrente desses movimentos (em outros países)

Trata-se de um dos legados das Jornadas de Junho, que aconteceram justamente num período “sagrado”, no qual o time que representava o país estava disputando uma competição em território nacional — no caso, a Copa das Confederações. Desde então, há uma contaminação no plano dos simbolismos, que já se podia notar na Copa de 2018.

Isto não contribui para a popularidade da Seleção Brasileira, porque o país segue dividido politicamente. É um cenário parecido com o dos anos de 1970, em que a ditadura tentou se associar ao sucesso do tricampeonato da Copa do Mundo, embora com matizes distintas – na época, foi uma estratégia do governo militar; aqui foram os movimentos civis de direita que se apropriaram dos símbolos nacionais. 

Tite e seus jogadores têm evitado declarações públicas sobre política, mas eles não têm como impedir que movimentos como o MBL e partidos como o PSL mobilizem os símbolos nacionais em seu favor.   

O perfil elitizado do torcedor brasileiro nas arenas durante a Copa América deve ser atribuído somente aos valores dos ingressos? Ou o povo tem se afastado dos estádios por outros motivos? Quais?

Esta é uma pergunta complexa e exige algumas ponderações. As frações populares da população brasileira têm sido afastadas dos estádios, e não é de agora, tampouco um fenômeno exclusivamente nosso. Já se escreveu muito sobre os impactos dos estádios “padrão FIFA” e de como eles representam a apoteose de um modelo de espetáculo destinado a fãs – um tipo que está mais para espectador do que para torcedor – e não mais a fanáticos. Há dois vetores essenciais para se compreender este processo e nenhum deles foi inteiramente investigado: a transmissão dos jogos e a marquetização da gestão.

À diferença de outras mídias, que contribuíram para o incremento da espetacularização – refiro-me especialmente ao jornal e ao rádio –, a televisão chegou ao mundo dos esportes como uma concorrente. O que vemos acontecer atualmente com o streaming no universo da produção cinematográfica – a morte das locadoras, por exemplo – pode ser comparado com o que ocorreu no futebol há mais tempo, tendo em conta algumas diferenças importantes. Dentre elas, o fato de que com o futebol o processo foi mais gradativo, dando tempo à reação.

No Brasil, este embate entre a arquibancada e a poltrona de casa acirrou-se ao longo da década de 1980, quando o televisor chegou a mais de 50% dos lares. Vários estudos atribuem a crise do futebol de espetáculo no período ao êxodo dos jogadores mais performáticos, mas tal migração resultou justamente da reconfiguração do futebol na Europa e da venda dos jogos televisionados, dentro e fora do continente, incluindo-se o Brasil.

Os grandes clubes, os principais perdedores, acabaram contra-atacando, a partir da articulação entre o Clube dos 13 (criado em 1987) e a Rede Globo. Com a entrada em cena do pay-per-view, já na década de 2000, os clubes viraram o jogo e passaram a se beneficiar efetivamente com a venda das imagens. A etapa seguinte foi a exclusão das classes populares, um público com potencial de consumo reduzido e, como tal, indesejável às arenas.

Como os marqueteiros do futebol gostam de dizer, as novas arenas precisam competir com os lares, em termos de conforto e segurança com certos lares, bem entendido. Em linhas gerais, as condições de fruição dos jogos nos estádios melhoraram, e muito, em relação ao que tínhamos anteriormente, tendo como contrapartida um aumento no valor dos ingressos e, por extensão, alijando os torcedores das classes trabalhadoras.

Como o futebol não é pensado como um bem primordial, ao ponto de ser reivindicado como um direito, e tendo ofertas alternativas aos jogos, via televisionamento, o afastamento das classes populares dos estádios se deu de forma resignada. Não há dúvida de que os estádios foram elitizados; as câmeras denunciam isso, nem é preciso fazer pesquisa in loco. No entanto, este processo tem certos meandros que precisam ser considerados, pois o futebol segue sendo consumido por outras vias.

Há uma espécie de seletividade no consumo do futebol? 

Muitas pessoas que são fanáticas por novelas jamais foram ver uma peça no teatro e é possível que tenham ido raras vezes ao cinema. E quem vai ao teatro ou mesmo ao cinema, nos dias de hoje, é um público mais elitizado, pelo menos do ponto de vista intelectual. Na antropologia e em outros campos das ciências sociais, temos pensado o torcer do ponto de vista estético e político. Uma outra ciência social, a economia, tem pensado o mesmo objeto a partir da lógica do consumo, aplicando concretamente algumas de suas “descobertas” e, portanto, performando o torcer. Se quisermos entender melhor o torcer contemporaneamente precisamos levar em conta o que ele se tornou a partir das intervenções feitas pelo marketing, o que equivaleria a pensar o que foi pensado – e executado – pelos gestores econômicos desta modalidade de bem simbólico. Foi com a entrada gradual de profissionais vindos de outras áreas do mercado que o futebol passou a ser pensado como uma mercadoria a ser estrategicamente comercializada – basicamente: arena para classes alta e média-alta; pay-per-view para as classes médias em geral; TV aberta para as classes baixas.

O próprio estádio, com seu ambiente característico, é objeto de consumo, e não apenas o jogo. O estádio sempre foi consumido, no sentido amplo do termo, só que agora este consumo passou a ser cobrado, eis a diferença. Foi por isso que se fizeram concessões às torcidas organizadas (TOs) que, no início da implementação do “padrão FIFA”, estavam alijadas das arenas. A ausência delas, paradoxalmente, tornava os estádios algo muito distinto da ideia que se faz deles e, sendo assim, perdiam muito do seu interesse enquanto mercadoria –- espaço ou ambiente a ser consumido. As TOs retornaram, ainda que confinadas.

Arlei Damo, em entrevista para Marcel Tonini, no ano de 2009. Foto: Marcel Diego Tonini.

As classes altas, e este é seguramente o caso do Brasil, gostam de exclusividade. Não gostam de se imiscuir com o povo, tanto mais quando se trata de diversão. Os estádios eram um dos poucos lugares onde isto acontecia; agora os marqueteiros corrigiram a “anomalia”. Vimos vários jogos da Copa América com cadeiras vazias; espaços disponíveis mesmo em jogos do time da CBF.

Não vimos nenhuma promoção ou concessão, e não devemos crer que isto se deva apenas à incompetência da CONMEBOL. É uma estratégia: futebol no estádio é exclusivo para certas frações de classes, que além de não se importarem com os preços apreciam a exclusividade. Sendo assim, a Copa América pode não ser um sucesso de público, mas sua arrecadação está acima das expectativas. Por que algo teria de mudar do ponto de vista dos organizadores, se o que lhes importa é a liquidez monetária?

O torcedor brasileiro sempre teve uma relação mais distante com sua seleção do que o latino-americano de uma forma geral?

Esta é uma questão complicada, difícil de ser respondida, pois não dispomos de indicadores para a comparação. Impressões pessoalizadas, quase sempre impregnadas de preconceitos, são contraproducentes. Não se trabalha em antropologia – não mais! – com um conceito de identidade nacional totalizante, do tipo “os torcedores brasileiros são festivos”, os “argentinos devotados” e assim por diante. Pode ser que este tipo de percepção seja recorrente na mídia, mas não passa de especulação baseada em arbitrariedades.

Em todo o caso, o distanciamento – ou a proximidade – tem a ver com as emoções e, sobretudo, com a forma como elas são manifestadas. De maneira geral, os estudos das emoções sugerem que as classes altas tendem a demarcar as diferenças entre o público e o privado, confinando as emoções a este. Tomando-se a constatação como ponto de partida e agregando-se a ela o fato de que nos estádios brasileiros houve uma mudança expressiva no perfil do público, é razoável a hipótese de que os torcedores pareçam mais distantes da seleção, porque quase não se vê manifestações efusivas.

Este público que frequenta os jogos da seleção possui um repertório escasso de performances coletivas, muito diferente dos grupos habituados aos estádios. Canta-se o hino nacional, vaia-se os jogadores, aplaude-se um lance inusitado e faz-se selfie na hora do gol, basicamente – eu estava esquecendo: usa-se termos chulos para protestar, especialmente contra mulheres, como ocorreu com a Dilma em 2014. São “pessoas de bem”, não resta dúvidas: bem nutridas, bem vestidas, bem sentadas…

Em que medida a mudança de perfil desse torcedor reflete nos resultados e na mudança do futebol jogado pela seleção brasileira?

Torcer e jogar são coisas diferentes. No que concerne ao jogar, pode-se dizer que nos primórdios do século XX, quando os intercâmbios eram menos frequentes, se consolidaram formas de jogar com matizes nacionais e até regionais. Isso porque era possível que técnicas corporais fossem desenvolvidas localizadamente ou que a maneira de interpretar as regras e os estilos de arbitragem influenciassem a dinâmica dos jogos – alguns mais e outros menos tolerantes ao enfrentamento corpo a corpo, por exemplo. O incremento dos circuitos de competições – estaduais, nacionais e transnacionais – bem como a circulação de profissionais – jogadores, técnicos, preparadores físicos –, assim como de tecnologias de treinamento e de imagens de jogos promoveu a desterritorialização dos estilos de jogo. As diferenças, atualmente, se dão por outras razões, entre as quais se destaca a influência do técnico. 

De outra parte, é preciso considerar que os torcedores e a mídia produzem conexões seguidamente alheias às provas factuais, de modo que não me surpreenderia se alguém dissesse o oposto do que acabei de argumentar. Estamos no terreno da doxa*. No futebol há quem veja chifres em cabeça de cavalo – e até unicórnios – e esteja disposto a extensas arguições que, supostamente, seriam provas, quando na verdade são performances oratórias, algumas eloquentes e, como tal, convincentes. Se olharmos para os treinamentos e os jogos, essa discussão sobre estilos nacionais não faz o menor sentido; não mais. Tudo muda se o horizonte for a falação midiática e torcedora. 

*Sistema ou conjunto de juízos que uma sociedade elabora em um determinado momento histórico supondo tratar-se de uma verdade óbvia ou evidência natural, mas que para a filosofia não passa de crença ingênua, a ser superada para a obtenção do verdadeiro conhecimento.

Você acredita em um imaginário de significados compartilhados pelos gaúchos no que diz respeito ao futebol? 

Quando se pensa em algo compartilhado, o melhor é olhar de fora, neste caso, da diáspora. Então, o que cultuam os gaúchos que vivem longe do Rio Grande do Sul? O chimarrão, o churrasco, um certo gênero musical (dito gauchesco ou nativista) e a identificação com o Grêmio ou com o Inter. 

Entre os que vivem no RS, indicam as pesquisas, em torno de 90% se declaram gremistas ou colorados, o maior índice de identificação autóctone do Brasil. Ou seja: quando se pensa em gauchismo um dos marcadores é o Gre-Nal, uma rivalidade clubística inicialmente circunscrita a Porto Alegre, mais tarde expandida a todo o Estado e para além dele a partir da diáspora.

Pode-se dizer que o Gre-Nal já não pertence apenas ao universo do futebol, pois mesmo quem não joga ou nem mesmo assiste ao futebol tem de ser gremista ou colorado para ser gaúcho, como outrora houve a necessidade de optar entre chimango ou maragato.

Arlei Damo, em sua residência na cidade de Porto Alegre/RS. Foto: Marcel Diego Tonini.

Estes significados estariam ligados a um jeito de torcer e jogar o futebol diferente do resto do país?

Sendo o gauchismo muito presente no imaginário dos sul-rio-grandenses, há uma tendência de as pessoas conectarem os feitos futebolísticos a cosmologias mais amplas, sobretudo em casos de sucesso. Isso é revelador de como se produz o imaginário – de quão criativas e arbitrárias são tais produções – e talvez menos ou muito pouco sobre as técnicas corporais em si.

Desde algumas décadas, pois, não há razão para crer que Grêmio e Inter tenham algo que os diferencie de outros times brasileiros ou mesmo estrangeiros pelo fato de estarem sediados no Rio Grande do Sul. É possível, no entanto, que cronistas e torcedores pensem o contrário, porque o gremismo e o coloradismo ainda estão conectados territorialmente e, portanto, são identificações que dialogam com o gauchismo. Algumas equipes, como o Grêmio de Felipão, nos anos de 1990, se prestam melhor para este tipo de ilação, muito diferente do Grêmio de Roger (Machado) ou de Renato (Portaluppi), no tempo presente.

Por fim, se em relação ao jogar temos estas nuances complexas, quanto mais em relação ao torcer. O fato de que a Geral do Grêmio adotou repertórios dos barra-bravas (argentinos) é um evento que precisa ser contextualizado numa perspectiva mais ampla. Neste caso, houve a importação deliberada de repertórios estéticos e políticos. Me parece um caso único, de tentar marcar uma diferença, à época em relação a outros grupos organizados do clube, e não uma tendência que acompanha a história do torcer. A Coligay certamente foi única, diferente de todas as demais TOs do Brasil, mas não havia nela traços de qualquer natureza que se pudesse veicular à cosmologia gaúcha.

De que maneira o futebol dos países vizinhos, especificamente Argentina e Uruguai, contribuiu para a consolidação do futebol em Porto Alegre?

Pelo menos até os anos de 1960, quando se passou a ocupar o calendário com certames ditos oficiais, havia um trânsito de times argentinos e uruguaios por Porto Alegre, mas não creio que isso tenha sido decisivo ou deixado marcas destacadas.

Vale o mesmo em relação ao fluxo de jogadores, embora neste caso tenhamos vários jogadores sul-americanos – Figueroa no Inter, na década de 1970; De Léon, no Grêmio, na década de 1980; D’Alessandro, ainda em atividade – que marcaram a história dos clubes em conquistas importantes. Mas em termos de consolidação do futebol – isso implicaria as duas primeiras décadas do século XX – não há nada que ateste uma influência platina decisiva para o caso porto-alegrense. Em relação a outras cidades, especialmente na fronteira sul, o cenário é diferente.


Durante a Copa América, Puntero Izquierdo e Ludopédio publicam uma série de reportagens sobre a história e a atualidade da competição.