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Bernardo Borges Buarque de Hollanda (parte 2)

Equipe Ludopédio

Bernardo Buarque de Hollanda é bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela UFRJ. É mestre (2003) e doutor (2008) em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), com bolsa-sanduíche na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS-Paris), em 2006. Faz pós-doutorado na Maison des Sciences de l’Homme (Paris-2009), com bolsa do Conseil National de la Recherche Scientifique (CNRS), onde desenvolve pesquisa comparativa entre torcidas organizadas no Brasil e na França. É autor do livro “O descobrimento do futebol: modernismo, regionalismo e paixão esportiva em José Lins do Rego” (Rio de Janeiro: Edições Biblioteca Nacional, 2004, 328p.). É editor da Revista Esporte & Sociedade. Tem experiência nas áreas de História, Antropologia e Sociologia. Seus principais temas de pesquisa são: história literária e modernismo; cultura brasileira – crítica e interpretação; cultura popular e identidade nacional; pensamento social e intelectuais no Brasil; história social do futebol e torcidas organizadas.

Segunda parte

No doutorado, você voltou-se para as Torcidas Organizadas e as relações destas com outros atores do universo futebolístico e com os meios de comunicação. Sobre esse tema, a mídia gosta de criar rótulos, tal como “nas torcidas organizadas só tem bandido”. A partir dessa ideia como você articulou uma visão midiática com os dados obtidos na sua pesquisa de campo?

Não é preciso ser cientista para saber que o estigma atua como um reforço de uma imagem preexistente. É uma discussão que ultrapassa a dimensão futebolística, está dentro do tópico maior “violência urbana” e a maneira pela qual ela recebe tratamento dos mass media em nosso cotidiano, tão bem fisgado por Bourdieu em “Sobre a televisão”. Ora, nada mais heterogêneo social, geográfica e economicamente do que a base que compõe as torcidas organizadas. É uma identidade juvenil contemporânea transversal, há um pouco de tudo nos grupos: gente de esquerda e de direita, da zona sul e da zona norte, do morro e do asfalto.

Em minha tese, procurei mostrar como um mesmo veículo de comunicação estimulou o surgimento de grupos denominados “Torcidas Jovens”, patrocinou-os e os propagou como algo positivo e, depois, em outro contexto, veio a condená-los como o reverso dos princípios esportivos. A ideia foi perceber as contradições discursivas dos meios de comunicação. E nisto a perspectiva histórica, naquilo que chamamos de diacronia, contribui e muito para elucidar. Assim o mesmo grupo social que hoje é condenado pela incitação à violência, foi, poucas décadas atrás, decantado como a quintessência da família e da moral nos estádios – a palavra “organizada” vinha desse pressuposto de contenção à desordem das multidões.    

A dissolução da ASTORJ (Associação das Torcidas Organizadas do Rio de Janeiro) na década de 1980 pode ser lida somente pela chave da rivalidade e da violência, ou outros fatores devem ser incorporados à explicação destes dois momentos? Em outras palavras, pode-se afirmar que as torcidas, por meio da ASTORJ, é que não conseguirem se inserir e estabelecer dentro da configuração de poder que rege o universo esportivo brasileiro?

Na verdade, a Astorj, fundada em 1981, existiu oficialmente até meados da década de 1990. Chegou a ter, por uns cinco anos mais ou menos, algum tipo de influência e repercussão. Mas não passou de um projeto, com iniciativas individuais e isoladas por parte de alguns representantes de torcidas organizadas que, independente da rivalidade clubística, conseguiam manter níveis de camaradagem e de relação pessoal, articulando interesses comuns. Foram o esboço de um “sindicato do futebol”, tentando ser um instrumento de pressão e reivindicação dentro do campo esportivo. Tentaram imitar também o exemplo das Escolas de Samba. Mas no carnaval, ao contrário do jogo, o confronto e a concorrência são menos diretos e frontais. Se houve, ainda que tênue, essa aliança entre líderes de torcidas, dentro de um contexto histórico muito preciso, no início dos anos 80, com o redespertar da participação política e da mobilização civil na sociedade brasileira, eles não tinham uma base de apoio que os sustentasse. A garotada que integrava as torcidas sentia mais atração pela busca da briga do que pela circunscrição de uma pauta de interesses comuns. 

Bernardo Borges Buarque de Hollanda

Bernardo Borges Buarque de Hollanda, pesquisa sobre a história social do futebol.

Bernardo Borges Buarque de Hollanda

Doutorado de Bernardo Borges Buarque de Hollanda, aborda a violência urbana das Torcidas Organizadas.

A violência urbana relacionada às torcidas organizadas deve ser compreendida somente a partir da chave da segurança pública ou policial? Até que ponto podemos encará-la enquanto uma forma de expressão e de performances individuais e coletivas para ganhar visibilidade entre os demais atores do universo futebolístico?

Trata-se de um ponto muito complexo, não há receita. Com certeza, discutir as torcidas organizadas apenas sob as lentes criminais não contribui para atenuar o problema. É como querer resolver o problema dos presídios com a construção de mais prisões. O diálogo entre torcidas e demais atores sociais do esporte é estratégico e fundamental. Mas, é claro, há um nível concreto e direto de “segurança pública” incontornável, em que a polícia tem de atuar. Mas, antes de atuar, a instituição tem de pensar como fazê-lo, não se trata apenas de contingente nem de número, mas de estratégia de ação.

Em relação à performance e à visibilidade dos atos de violência, vários autores, no Brasil e na Europa, referem-se a ela. Na medida em que as torcidas organizadas recrutam em sua imensa maioria adolescentes e jovens, onde a dimensão imagética e o apelo visual são fontes importantes de afirmação identitária, é bem compreensível que a violência seduza como “espetáculo”, digno de heroicização e criador de modelos de bravura no interior de um grupo.       

Como está o andamento do seu projeto atual, um estudo comparativo entre torcidas organizadas no Brasil e na França, mais especificamente as dos clubes Paris Saint-Germain e Fluminense F.C.? Algum motivo específico o levou a delimitar como campo de pesquisa esses dois clubes?

A observação do comportamento das torcidas na França foi feita, de início, em 2006, quando fiz meu estágio de doutoramento em Paris. Fiquei muito impressionado com alguns jogos a que assisti no Parc des Princes e no Stade de France. Em especial, as partidas do Paris Saint-Germain, pois naquele momento um grave conflito entre suas torcidas organizadas irrompia nas tribunas e nos arredores dos estádios. Ela me fez lembrar confrontos abertos entre torcidas de um mesmo clube no Brasil, cada vez mais freqüentes nos últimos anos.

De maneira inversamente proporcional ao que sabemos sobre a Champion’s Ligue, no Brasil sabe-se pouquíssimo sobre as torcidas organizadas na Europa. A vaga palavra “hooligan” ainda ecoa com força no imaginário, enevoando tudo. Minha ideia era então minha curiosidade: como se estruturam as associações de torcidas na França? Quais são seus valores? Como se relacionam com outras torcidas da Europa? O que sabem das torcidas brasileiras? Permutam-se símbolos, cânticos e palavras de ordem em escala intercontinental? Como isto é operacionalizado?

A ideia de fazer um trabalho antropológico levou-me à escolha de um clube no Rio que não fosse o Flamengo, procedimento elementar da disciplina. O Fluminense foi um clube precursor no surgimento de novos grupos de torcida que procuram ser a antítese do discurso e da prática das torcidas organizadas, sobretudo as etiquetadas “Jovens”. O Movimento Popular Legião Tricolor é essa surpresa que tomou conta das arquibancadas dos últimos campeonatos brasileiros. Por isto, a opção pelo Fluminense. Por força das circunstâncias, na França, além do Paris Saint-Germain, pude viajar e acompanhar também as torcidas organizadas do Bordeaux, que se sagrou campeão na temporada 2008-2009. Os resultados da pesquisa serão apresentados em breve.      

Nos últimos vinte anos, a dimensão torcedora (organizada ou informal) foi um dos recortes que mais atraiu a atenção de pesquisadores de diversas áreas das ciências humanas. Para você, quais foram as principais questões levantadas e enfrentadas por estes pesquisadores? Como estes estudos, realizados em diferentes partes do país, dialogam entre si e inclusive com o seu trabalho?

A Antropologia Social foi a pioneira nos estudos de rituais e sociabilidades juvenis na metrópole, onde se inscrevem as torcidas organizadas. O trabalho de Toledo é o primeiro a sistematizar essas associações sob um prisma antropológico. No levantamento que fiz para a tese de doutoramento, identifiquei trabalhos em Psicologia Social, Serviço Social e Comunicação, entre outros domínios. Minha tentativa foi apreender o objeto com base na História e na Historiografia. Não foi fácil. A diversificação regional dos estudos empíricos sobre torcidas é algo sobremaneira importante! É necessário ver, comparativamente, como o modelo gestado no eixo Rio – São Paulo se propagou e conheceu diferenças em cada região. É preciso observar como o fenômeno se manifesta em Goiás, no Nordeste e em Santa Catarina, assim como acompanhar as influências que vem da fronteira gaúcha, com as torcidas argentinas e seu modelo de “barras”.

Acho que a principal questão levantada na Academia é ainda saber como lidar e responder à questão da violência, sem se deixar envolver pelo discurso embalado pelos meios de comunicação e pelo senso-comum. Ou seja, deve-se enfrentar a questão e, ao mesmo tempo, ser capaz de colocar outras questões, que contornem esse horizonte de perguntas previsíveis e moralizantes a que estamos acostumados quando falamos de torcidas organizadas.