13.8

Betão

Marcel Diego Tonini, Aira Bonfim

A entrevista faz parte do projeto Memórias dos boleiros: histórias de vida de atletas e de integrantes de comissões técnicas brasileiras que atuaram no exterior. Esse projeto foi fruto de uma parceria entre LUDENS-USP, Museu do Futebol e o portal Ludopédio.

Esse projeto tem como proposta reunir as histórias de vida de jogadores de futebol e de integrantes das comissões técnicas que tenham atuado no exterior. Ao optarmos pela história de vida, teremos acesso a uma série de discursos até então pouco investigados. Isso pode ser verificado quando se recorre à história do futebol e se percebe que existe uma história que é considerada “oficial”. Essa pesquisa será uma forma de ampliar discussões sobre o futebol a partir da história de vida dos jogadores e integrantes das comissões técnicas. A história oral será o método adotado para a construção de um diálogo com o referencial teórico das Ciências Humanas, mais especificamente a produção da Antropologia, da História e da Sociologia. Por meio da história de vida, ainda será possível registrar memórias, histórias e experiências dos sujeitos mencionados, além da criação de um banco de vídeos com as entrevistas realizadas de modo a constituir um acervo para preservar a elaboração de tal memória, quer se refira de modo restrito à carreira dos mesmos, quer, de modo geral, ao futebol brasileiro.

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Betão durante a entrevista. Foto: Museu do Futebol.

Primeira parte

Betão, fale um pouco sobre sua trajetória…

Bom, primeiramente, me apresentar: meu nome é Ebert William Amâncio, nasci 11 de novembro de 1983, na Zona Norte de São Paulo, mais especificamente no Jaçanã, onde foi feita toda minha criação, morei lá durante vinte e três anos, até o casamento. Eu tive uma infância acho que bastante bem explorada, vamos dizer assim, me diverti bastante, só que isso acabou, essa diversão meio que acabou aos dez anos de idade, que foi quando eu entrei pra jogar futebol, infelizmente eu perdi um pouco da minha infância entre aspas, porque, quando você entre pra jogar futebol, você tem que se dedicar totalmente ao esporte, e meu pai sempre cobrou isso de mim, se for pra fazer tem que fazer direito, fazer bem feito, então, desde os dez anos de idade, quando eu entrei no Corinthians, lá no antigo Terrão, perdi viagens com amigos, não tinha muito tempo pra ficar brincando com os amigos, porque eu tinha que estudar, tinha que treinar e tinha que tentar conciliar as duas coisas. E foi indo, foi indo, até que eu decidi também fazer faculdade, fiz faculdade, e jogando ainda no Corinthians. Estava no Corinthians ainda, comecei a fazer faculdade de fisioterapia, consegui fazer dois anos, só que eu tive que trancar a minha matrícula por um simples motivo, chegou uma época que o treinador do Corinthians era o Parreira, em 2002, e eu tava naquela fase de semana de provas, e justo na semana de prova calhou que a gente tava fazendo uma intertemporada, vamos dizer assim, pra final do Campeonato Brasileiro contra o Santos. E eu conversei com o Parreira, o Parreira é uma pessoa excelente, acho que é um dos profissionais que eu tenho como espelho, pela maneira de tratar desde o que tá lá em baixo até o lá em cima, é uma pessoa muito simples, muito boa de lidar, tive o orgulho de trabalhar com ele; e eu falei com ele, falei “Olha, tenho semana de prova na faculdade e eu preciso tentar conciliar um tempo, um horário aí pra mim poder fazer a prova e treinar”, daí ele falou “Olha, como o grupo inteiro tá em Extrema, fazendo a pré-temporada, a intertemporada, eu não posso deixar você em São Paulo, de repente o que a pode fazer é o seguinte: você vai treinar, a noite vai pra faculdade e faz a prova, volta pra dormir no hotel, daí treina o dia inteiro, faz a prova no outro dia…” e era a semana inteira assim, e tinha dia que a gente treinava dois períodos, eu tinha que estudar, ainda, entre os períodos, tinha que, de repente, acabar o treino, voltar pra São Paulo, mais ou menos uma distância de 100 quilômetros. Depois dessa semana de provas eu falei “Ah, não dá, eu vou arriscar, eu tenho que decidir uma carreira”, eu não tava jogando ainda, tava treinando com os profissionais, já tinha jogado em 2001, só que em 2002 o elenco ficou um elenco muito forte, bem competitivo, eu acabei perdendo espaço, aí eu falei “Não, vou decidir por ser jogador de futebol”. E acabou que deu certo, tenho saudade de estudar ainda, mas, graças a Deus, a carreira de jogador foi, foi bem aproveitada, vamos dizer assim, está sendo bem aproveitada.

E, voltando um pouco ao Parreira, acho interessante falar isso também, porque muita gente não conhece os bastidores do futebol, então teve um dia que eu tava no café da manhã, ali no clube, tinha uma mesinha que o pessoal preparava ali pros jogadores, e tinha lanches, tal, sucos, café, e todo mundo parava ali antes pra tomar o café da manhã, e como eu tinha acabado de subir pro profissional, então a gente cria uma distância das pessoas que são ícones. Naquela época era um elenco recheado, tinha Luizão, tinha Marcelinho, tinha o Edílson, Vampeta, Ricardinho; e o Parreira e aquela comissão técnica, que não precisa nem ficar falando muito, era o Moraci Santana, e eu tava tomando café todo acanhado ali, e o Parreira chegou, colocou a mão no meu ombro, e eu nem olhava muito pra ele, a gente fica meio constrangido, ele colocou a mão no meu ombro, falou assim: “Tudo bem com você? Tudo bem com a sua família?”, daí eu olhei assim e eu pensei: “Puxa vida, que legal, o Parreira, preocupado”, mesmo que não tava preocupado com a minha família, mas o fato de perguntar, o fato de chegar e conversar, isso já dá um ânimo muito grande pra qualquer pessoal que tá começando no futebol. E retomando minha carreira: comecei a jogar e o meu primeiro jogo como profissional foi em 2001, aqui no Pacaembu mesmo, contra o Atlético Mineiro, eu entrei no intervalo da partida, acho que em setembro de 2001, se eu não me engano, e o Luxemburgo era o treinador, ele que me colocou no profissional, e no intervalo eu entrei, e o Atlético Mineiro tinha aquele ataque, que era bem famoso, era Marques e Guilherme, toda jogado do Atlético saía ali com os dois, e eu entrei, se não me engano, acho que tava 1×1, alguma coisa assim, e teve um lance do gol do Atlético que foi uma jogada do Marques, cruzou pro Guilherme, e o Guilherme cabeceou nas minhas costas, assim, e fez o gol, daí eu falei “Pronto, acabou minha carreira”, primeiro jogo, você já toma um gol nas suas costas, você fala “Poxa, eu nunca mais vou jogar, acabou”, mas consegui, depois, fazer mais um jogo lá em Porto Alegre, contra o Internacional, daí o Corinthians já não tinha nenhum risco de queda, e também não ia ser campeão, e o Internacional tava querendo brigar pra entrar entre os oito, era aquele regulamento que classificava oito e os oito disputavam um quadrangular. No caso a gente chegou, Luxemburgo só colocou molecada pra jogar, e o Beira-Rio tava lotado, e o Internacional tava também com um elenco muito recheado, muito forte, e os únicos jogadores medalhões que tavam jogando no nosso time, se eu não me engano, era o César Sampaio, que tinha acabado de chegar, o Dida tava jogando na ocasião, o Batata, que era o jogador mais experiente, acho que o Fernando Baiano também tava, mas, assim, era basicamente de molecada, e daí descemos ali no Beira-Rio lotado, e todo mundo falando “Ah, gurizada, vocês vão perder de 4×0, 5×0!”, e a gente, poxa, que situação, e, mesmo que não tivesse mais importância, vamos dizer assim, para o Corinthians, era uma situação que te deixava um pouco preocupado, pô, meu primeiro jogo como profissional, titular, e, enfim, chegamos lá, no Beira-Rio, ganhamos o jogo por 2×0, o Inter ficou fora, então, esse acho que foi o grande passo profissional da minha carreira, no meu primeiro jogo como titular conseguir uma vitória contra o Inter no Beira-Rio. Isso foi em 2002.

Em 2003, teve uma mudança de elenco, mas eu tive mais espaço pra jogar. Em 2003, se eu não me engano, consegui fazer 21 jogos como titular no Corinthians. Acho que foi um ano, também, que já deu uma alavancada boa. 2004 começou com o Oswaldo de Oliveira. No Corinthians, teve umas mudanças também, eu acabei perdendo espaço de novo, e aí, quando chegou o Tite, eu fiquei de titular até 2007, praticamente, que foi o ano que eu saí. E, dentro desses quatro anos, três, quatro anos, tive várias experiências, tanto com torcida que não foram experiências agradáveis, como também agradáveis, conquistas, derrotas, eu acho que tem toda uma mescla nessa minha passagem do Corinthians, como o título brasileiro, acho que foi um título que marcou bastante, pela revolução que foi feita no Corinthians, que foi aquele caso com a MSI, teve aquela junção, meio que bombástica pro futebol brasileiro, mundial, vamos dizer assim, e vieram jogadores de nível muito alto, caso do Tévez, Mascherano, o próprio Nilmar, o Carlos Alberto, então o Corinthians fez um elenco muito forte, muito bom, só que também tinha o pessoal da base, que tava com uma certa moral, que tinha feito um bom trabalho, que era eu, Coelho, Rosinei, Wendel; então teve aquele choque, assim, porque, de repente, a MSI tava com a intenção de fazer um time só com jogadores que eles trouxeram, vamos dizer assim, só que os jogadores da base tavam forte, num nível bem competitivo, não dava pra tirar, então ficou interessante, teve uma mescla também, teve uma mistura muito boa, e acabou com o nosso título de 2005 no Campeonato Brasileiro, um título questionado até mesmo por aquela questão de arbitragem, mas foi um título que a gente considera que ganhamos na bola. Se você for ver os números do campeonato, tanto de derrota que a gente teve naquele ano, acho que foi digna de um campeão.

E depois, mais pra frente ainda na história do Corinthians, teve um fato que pra mim também foi muito marcante, chocante, assim, que foi o rebaixamento, chato demais, foi no Estádio Olímpico, nós fomos rebaixados no último jogo contra o Grêmio, foi muito triste, foi muito chato o que aconteceu mesmo e, depois daquela ocasião, eu não saí de casa, a gente fica chateado com tudo o que acontece, a gente se sente incapaz, a gente se sente fraco, frágil, porque, de repente, era uma situação que não era só responsabilidade minha, mas do grupo inteiro, mas eu fui um cara que sempre chamei a responsabilidade, eu fui um cara que sempre gostei de falar, de lutar pelo grupo, então a gente começa a sentir, meio que trazer aquela coisa pra gente mesmo: “Poxa, não conseguimos livrar a equipe do rebaixamento, não conseguimos fazer aquilo que nós mesmos esperávamos”, e eu fiquei uma semana em casa. Até sair de casa foi duro, foi difícil, de repente é um misto de vergonha, poxa, é o primeiro rebaixamento do Corinthians, e você participou, é um misto de incapacidade, você não quer sair de casa, não quer olhar pra ninguém, não quer olhar pra família, porque de repente a sua família é a que mais te apoia, mas, de repente, você fica “putz, desapontei, desapontei minha família”, mas não é bem isso, é coisa que vem na cabeça e você acaba pensando assim. Eu não queria sair de casa, fiquei com a minha esposa, eu já era casado, eu fiquei com a minha esposa em casa, e a primeira vez que saí de casa foi difícil, eu queria me esconder, queria colocar chapéu, queria colocar capuz. Minha esposa falou “Poxa, não adianta você ficar assim, a vida segue, aconteceu”, mas saí, foi indo, e o que mais me impressionou depois foi a recepção das pessoas na rua porque você fica esperando sempre uma pedrada, você fica esperando sempre uma acusação, um xingamento, mas foi muito ao contrário de tudo aquilo que a minha mente tava viajando, de repente eu saía na rua, as pessoas: “Pô, valeu. Pô, você fez o seu, você fez sua parte, infelizmente, tal coisa, mas você sempre foi nosso”. Então, foi um incentivo, acho que aquilo foi me levantando, um pouco, o meu astral, minha moral, mas, mesmo assim, no fundo, você fala “Tô marcado na história por um rebaixamento”, de repente todas as coisas boas, tudo que você fez, você acha que vai ser apagado, mas a carreira seguiu.

E um fato, também, muito importante pra minha carreira, que até hoje eu sou lembrado, que é legal falar, foi o gol contra o São Paulo. Acho que marcou muito, pra mim foi muito mais especial ainda. Tinha um tabu desde 2003, se eu não me engano, que o Corinthians não ganhava do São Paulo, e esse tabu se arrastou, e eu era o único jogador em campo, do elenco, que tava desde 2003, então, toda entrevista coletiva, antes do jogo, eu já sabia as perguntas que iam feitas, infelizmente é assim, sempre quando ia ter um clássico Corinthians e São Paulo, eles me chamavam e me perguntavam: “Betão, e o tabu?” “É hoje, dessa, dessa vez vai passar, vai quebrar o tabu?” “Ah, mas como que é a cabeça, tal?”, e eram sempre as mesmas questões; e, naquele jogo, assim, eu não era um jogador de ir pra área, de cabecear, eu sempre ficava na defesa e a defesa do São Paulo era a menos vazada daquele campeonato, Rogério Ceni numa ótima fase, tudo encaminhado pro São Paulo conseguir o título, mas era 39 minutos do segundo tempo, tava 0 x 0 o jogo, eu falei “Vou pra área”, eu fui e, lembro como se fosse hoje: Gustavo Nery, pela esquerda, teve uma falta, ele bateu no segundo pau atravessado, o Fábio Ferreira jogou a bola pra área de novo, e foi interessante que todo mundo parece que ficou olhando o Fábio Ferreira e me deixou sozinho; Richarlyson tava fazendo a marcação em mim, e eu via aquela bola chegando, falei “Não é possível que eu tô tão sozinho assim”, a bola pingou, veio com todo aquele efeito, parece, no lance parece que foi fácil, mas a bola tava com muito efeito porque foi pra lá e voltou rodando, eu vi o Rogério Ceni meio que parado, olhando, pedindo impedimento pro bandeirinha, eu cabeceei, e ali, fiquei cego, ali você não vê mais nada, eu não sabia se comemorava com os amigos, eu não sabia se eu ia pra torcida, enfim, é só quem passa realmente pela situação pra sentir a emoção, parece que você sai do chão realmente, aquela torcida toda, parecia que ia cair tudo dentro do campo, porque ia ser mais um jogo, empate, o tabu ia continuar, e, enfim, e tava 40 minutos, e eu fiquei ofegante até o final da partida, não via a hora daquela partida acabar, e foi interessante, quando acabou, eu desabei no campo, eu vi todo aquele monte de repórter, correndo em cima de mim, parecia um gol de título, assim, numa final, e todo mundo com o microfone, “Fala alguma coisa”, eu falei “Não consigo falar, não consigo falar, depois eu falo…”, e fui ali, soluçando já, muito emotivo. Fui até ali o vestiário, ali até o túnel, daí o Marco Aurélio Cunha, que era gerente de futebol do São Paulo, veio e me abraçou, todo mundo achou estranho aquela situação, aí ele falou “Poxa, feliz por você, porque se tinha alguém que tinha que fazer esse gol era você, por tudo que você passou”, e depois vai começando a cair a ficha, e um monte de gente ligando, jogadores que já tinham jogado junto, que já tavam em outros clubes, ligavam “Pô, parabéns”. O dia seguinte foi aquele dia de herói, e depois você vê que como Deus faz as coisas, eu era o único jogador que tinha passado por toda aquela situação, porque é traumatizante você ficar quatro anos sem ganhar um clássico tão importante, e as pessoas te colocam como foco, é como se tivesse tirado um piano das costas, tirado uma carga muito grande. Infelizmente, depois teve o rebaixamento, mas, pessoalmente, foi uma conquista e tanto, não pelo fato de ser o São Paulo, mas foi uma conquista e tanto pelo fato do tabu, por ter feito parte da história de todo esse tabu.

Betão, você comentou da torcida organizada, da cobrança, das coisas boas, ainda mais vivendo esses dois momentos, de rebaixamento e de um tabu quebrado, conta um pouquinho dessa experiência com a torcida do Corinthians.

Então, eu tive essa experiência com a torcida do Corinthians, depois, eu vou falar mais pra frente, com a torcida do Santos, e depois, lá fora, outras experiências. Mas a torcida do Corinthians é uma torcida diferente de todas as torcidas, eu converso com outros jogadores, de outros clubes, tem jogador que joga em outro clube, depois vem jogar no Corinthians e sente isso, quantas vezes, em campo mesmo, você vê o adversário no banco de reservas olhando pra torcida do Corinthians, em vez de prestar atenção no jogo. Porque a torcida do Corinthians é diferente, ela cobra diferente, ela torce diferente, ela festeja diferente, é tudo diferente, e no Corinthians eles têm um acesso que é muito forte, tinha na época, hoje em dia eu já não sei como é que é, mas tinha um acesso de estar falando ali com os jogadores, de estar cobrando cara-a-cara, de estar conversando, em concentrações, quantas vezes eles não fizeram reuniões com a gente, principalmente em jogos contra São Paulo, contra Palmeiras. Então, tinha, no meu caso, aquele contato cara-a-cara com o torcedor, e eu me identificava um pouco porque eu já estive do outro lado, na infância eu sempre fui em estádio com minha família, no jogo do Corinthians mesmo. Minha família é 99,9% de corintianos, hoje em dia são Betão Futebol Clube, mas continuam corintianos, e corintiano, eu costumo brincar, não precisa falar que “Ah, eu sou corintiano roxo”, porque corintiano é corintiano, não é, se falou que é corintiano, já sabe o que é.

Eu falo que jogar no Corinthians, você fica na divisa da paixão e do ódio, que no mesmo momento em que você tá fazendo um grande jogo, você é ídolo, se passar dois, três jogos e você não for bem, você já é odiado, isso a gente vê constantemente no Corinthians; você vê, um exemplo, o Tévez, se eu não me engano, acho que pode-se dizer que o Tévez foi o último ídolo, no Corinthians, ele era ídolo maior, de paixão, e saiu xingado, saiu chutado; o Ronaldo, de repente, também pode-se dizer, assim, que foi um grande ídolo, mas nem tanto quanto o Tévez, mas também foi um cara que chegou totalmente ovacionado e saiu xingado. Então, essa relação com a torcida do Corinthians é assim: você tá bem, a melhor coisa que tem do mundo é jogar no Corinthians, agora, tá mau? Vai ser a pior coisa do mundo jogar no Corinthians, porque aonde você vai tem corintiano, você vai jantar, o garçom é corintiano, você vai no shopping, o manobrista é corintiano, então, todo lugar que você vai tem corintiano, então você vive, realmente, esse paralelo, vamos dizer assim, então, o jogador que joga no Corinthians tem que ter cabeça boa, tem que ter o coração bom, tem que ter um jogo de cintura muito bom, porque eu falo, não adianta você discutir com torcedor, querer bater de frente com o torcedor, e isso em qualquer lugar, porque a gente sai na rua, a gente não sabe com quem que a gente discutiu, mas o torcedor sabe que você discutiu com ele, então eu falo: dá razão pro torcedor, tenta conversar na boa, e ainda mais com a torcida do Corinthians que vive essa loucura, essa paixão, eles costumam dizer que o clube é deles. Corintiano costuma dizer que não é o clube que tem uma torcida, é a torcida que tem um clube, e isso é interessante, porque isso faz a torcida do Corinthians diferente das outras.

Depois do rebaixamento, outra situação que eu achei que a minha carreira tinha terminado, você fica marcado, você acha que vai dar uma declinada boa. E depois daquilo eu fui pro Santos, e tive uma recepção normal, apropriada, porque lá em Santos o maior rival é o Corinthians, você vê lá em dia de jogo Corinthians e Santos, porque o Santos joga com o Palmeiras é uma coisa, joga com o São Paulo é uma coisa, mas quando joga contra o Corinthians é uma decisão. Então eu cheguei lá, daí tinha a parte da torcida que me apoiava, que lá tem a Torcida Jovem, que é a maior torcida organizada, e tem a Sangue Jovem, então, o pessoal da Torcida Jovem me recepcionou bem, veio falar comigo “Ó, fica tranquilo que, que aqui a gente vai te apoiar, você veio do Corinthians” eles não gostam nem de falar do Corinthians, eles usam um termo pejorativo em relação ao Corinthians, mas ele falou assim “ah, você veio do Corinthians, mas agora veste a camisa do Santos, a gente vai te apoiar”, só que a torcida Sangue Jovem, no caso, pixou o muro “Fora Betão”, não tinha nem jogado ainda, só o fato de falar que eu fui contratado e já começaram a pixar o muro. Em dia de jogos, a Torcida Jovem gritava o meu nome, a Sangue Jovem não gritava, pulava o meu nome, então falei “Tô chegando pra mais um desafio na minha vida, tô chegando pra mais um desafio grande”, mas eu fiquei muito à vontade no Santos, foi um clube que abriu as portas pra mim no momento mais difícil da minha carreira, não esperava sair do rebaixamento e jogar num time grande logo na sequência, eu acho que isso aconteceu comigo e com o Felipe dos rebaixados, ali, o resto dos jogadores, tomaram caminhos, rumos totalmente diferentes. E tive um começo um pouco difícil no Santos, justamente por essa pressão, mas depois o pessoal da torcida do Santos me respeita muito, onde eu vou o pessoal “Pô, volta pro Santos, volta pro Santos, você veio do Corinthians, mas, poxa, quando você chegou eu falei “Não, não devia ter contratado”, mas depois foi muito bom você ter jogado, vestido a camisa do Santos”; acho que teve um fato principal no Santos que foi um jogo contra o América do México pela Libertadores, nós tínhamos perdido no México por 2 x 0, um jogo polêmico lá no México, porque teve gol do América impedido, teve gol nosso que valeu só que o juiz anulou, e a gente tinha que vencer na Vila de qualquer jeito, acho que 2 x 0 pra ir pros pênaltis, e aquele jogo foi demais, desde a recepção da torcida na rua, pra quem conhece a Vila, o caminho é estreito, passa só o ônibus, e a torcida fazendo uma festa, muito grande, muito bonito; e o Leão começou a me colocar ali de lateral-direito, e nesse jogo o Pelé tava, o Robinho tava, e foi aquela emoção toda, enfim, ganhamos de 1 x 0, saímos aplaudidos, infelizmente não conseguimos a classificação, fiz um jogo legal. E depois da partida é que veio pra mim a emoção maior, o Pelé me elogiou, falou que eu fui o melhor em campo, que eu realmente tinha vestido a alma do Santos e, pra mim, foi o ápice ali no Santos, receber um elogio do Pelé, acho que numa entrevista numa rádio, foi acho que um dos momentos mais marcantes acho que não só em Santos, na minha história, vou guardar isso pra vida toda. Quando eu tava no Corinthians eu tinha aquela vontade de sair do Brasil, e depois que eu assinei o contrato com o Santos por três anos eu falei “Vou sossegar agora, vou ficar aqui em Santos” e em seis meses de Santos chegou uma proposta…

Por que você tinha essa vontade de sair do Corinthians, no caso, de ir para fora?

Então, porque eu joguei 14 anos no Corinthians, e você acaba ficando um pouco enfadado, foram 14 anos no Corinthians, eu exercia função que não era minha, nunca nem falei pra ninguém, mas eu tinha ali muitas vezes que responder como gerente de futebol, eu tinha que responder como diretor, porque as pessoas vinham perguntar “Betão, como que é o relacionamento dos jogadores da MSI e do Terrão?”, e eu tinha que falar, “Ô Betão, é, como que é ser o melhor amigo do Tévez? Como que é isso?”, então, eram perguntas que me faziam e que não cabia a mim responder, só que eu acabava respondendo porque eu falo. Eu costumo dizer ninguém se faz líder, a pessoa já nasce com essa coisa de liderança, e eu tinha comigo, eu respondia, falava, sempre quando perdia era eu que tinha que falar, quando ganhava era quem fazia os gols; não me incomodava com isso, mas com o tempo aquilo foi pesando, sabe? Você sempre acha que as pessoas não te dão o devido valor por tudo que você faz, então eu falei “Não, preciso sair, eu quero conhecer outras culturas, eu quero conhecer outra coisa”, então eu tinha realmente esse desejo de sair, que eu também sou bastante curioso, nesses termos culturais.

E, enfim, daí quando eu fui pro Santos, eu falei “Vou sossegar agora, assinei um contrato de três anos, vou ficar tranquilo com a minha família”, daí quando deu seis meses chegou uma proposta da Ucrânia. Eu falei “Poxa vida, Ucrânia?” é difícil, porque a Ucrânia não é um país que normalmente você estuda muito na escola, não é um país que você costuma ouvir na televisão, de repente se falasse Espanha, Portugal, Itália, até uma Alemanha, você já tem uma noção; daí eu comecei a caçar contato, com alguns amigos que já tinham ido pra lá. O Marcinho Guerreiro, que tava no Santos, ele já tinha ido pra Ucrânia, não pro Dínamo, mas tinha jogado na Ucrânia, daí eu falei “Pô Marcinho, tô com uma proposta assim, assim da Ucrânia, é legal lá, como é que é?”, ele falou “Ó, tem as dificuldades mas é legal”, ele falou assim “Vou te passar o telefone de uma cara que jogou lá também, que tá lá no Dínamo, daí você conversa com ele”, era o Corrêa, que jogou no Palmeiras, hoje ele tá no Fortaleza, daí eu liguei pro Corrêa: “Corrêa, prazer, tal”, me apresentei, não conhecia ele, só de jogar contra, mas não tinha amizade, eu falei “E aí, como é que é aí?” ele falou: “Meu, pode vir, cara, assim, tem as dificuldades do idioma, da cultura, mas vem, tem um preparador físico italiano, que ele ajuda a gente aqui, dá pra entender um pouco do que ele fala, ele fala um pouco de espanhol, tem um tradutor que fala português, pô, vem”, daí eu falei “Ah!”; daí eu dei uma pesquisada na internet, que hoje em dia a gente tudo a gente vai na internet, pesquisei, que eu gosto de saber onde eu tô chegando, pesquisei moeda, pesquisei economia, pesquisei política, um pouco de tudo, clima, eu falei, cheguei com a minha esposa, eu falei “Olha, então, eu tô com uma situação…”, a gente não tinha filhos ainda, daí eu falei “A gente tá com uma situação assim, assim, assim, uma proposta, vamos?”, “Ah, vamos”.

Daí eu fui, só que fui naquela coisa, “Eu vou ficar…”, na nossa mente, a gente planeja as coisas, mas nem sempre acontece do jeito que a gente planeja, eu falei “Vou ficar lá três anos, vou tentar fazer bons campeonatos, e em três anos eu saio e depois vou pra um país melhor”, isso na minha mente. Eu assinei um contrato de cinco anos na Ucrânia, cheguei lá, era pré-temporada, e a gente sempre sai da Ucrânia e faz pré-temporada em outros países pelo clima da Ucrânia. Então vou começar a falar um pouquinho da Ucrânia em si e depois eu falo da parte do futebol.

Todo mundo, sempre quando fala da Ucrânia, fala “Nossa, que frio, lá deve ser um gelo, deve ser neve pelas paredes!”. Realmente é, mas lá tem as estações do ano muito divididas, bem separadinho, o que é verão é verão, não vai fazer frio, não é igual aqui no Brasil, que de repente é verão e você tem que sair de blusa de casa, ou é inverno e você tem sair de regata, então, lá é bem separado. Eu cheguei lá no verão ucraniano, então eu cheguei lá, tava 37 graus, 38 graus, daí eu falei “Nossa, será que aqui neva mesmo?”, eu acabei assustando “Será que tem neve mesmo?” e, quando eu cheguei você tem que fazer os exames, tudo, só que em três dias eles saem da Ucrânia, por causa do calor, que é muito calor pra eles, sai da Ucrânia e vai fazer pré-temporada em outro lugar, e normalmente essa pré-temporada no verão na Áustria, daí a gente pega o verão austríaco, que é na montanha, então é um verão mais ameno. O verão nessa montanha é 15 graus, no máximo 20 graus. Daí, eu cheguei num dia, fiz exames, depois de dois dias a gente foi pra Áustria, e lá o pessoal só fala russo, só fala russo, tinha um tradutor, daí o treinador falou assim: “Não, não quero que o tradutor vá”, eu olhei assim “Como assim?”, ele falou “Não, porque é bom pra você aprender logo o russo, pra você aprender logo o idioma”, daí eu falei “Ah, legal”, ele falou “Olha, tem um preparador de goleiros aqui que ele fala um pouco de português, ele jogou em Portugal, então ele vai te ajudar”, daí eu falei “Tá bom”, daí eu fui falar com o preparador de goleiros, ele sabia acho que cinco, seis palavras, eu falei “Então vamos lá, então vamos começar com o desafio”, cheguei na Áustria, daí o treinador, no primeiro treinamento, o treinador fez aquela roda e me apresentou, tudo em russo, e eu sem o tradutor, e eu fiquei com aquela cara de quadro pintado. Daí o preparador de goleiros traduziu: “Não, ele tá te dando boas vindas”, só que o cara tinha falado milhões de coisas, ele falou “Tá desejando boas vindas, que você seja bem vindo”, eu falei “Tá bom, obrigado”, e já jogou o colete de titular na minha mão, daí eu falei “Então é hoje!”, né? Aí chegou o goleiro, falava um pouco inglês, eu não, assim, eu não sabia falar muito inglês, aquele inglês de escola, daí ele chegou e falou quatro palavras, ele falou assim: “Aprende quatro palavrinhas por dia que você vai”, eu falei “Tá bom”, daí eu falei “Quais são as quatro palavras?”, ele falou “Direita, esquerda, frente e atrás”, então, nos treinamentos, eu fiquei, em vez de treinar direito, eu ficava com aquela coisa na cabeça, que ele tinha me falado, e eu ia muito pela pronúncia, pelo som do que ele tinha me falado, aí eu falei: “Direita, esquerda, frente, atrás; direita, esquerda, frente, atrás”, aí, tá bom, daí chegamos no final do dia, eu tava com aquelas palavrinhas na cabeça: direita, esquerda, frente e atrás; daí eu falei “Poxa, né, se eu começar, por dia, eu conseguir quatro palavras, daqui a pouquinho eu tô desenrolando”.

Daí chegou na pré-temporada, cheguei lá no hotel, a pessoa que acordava era o massagista, então ele ligava no seu quarto, falava em russo, por exemplo “Bom dia, tal hora é o café da manhã, e tal hora sai pra treinar”, e eu não entendia nada, falava “Ok”, e desligava. Daí qual era a minha estratégia? Pra mim saber se era treino, se era café da manhã, o que que era, eu abria a porta do meu quarto do hotel, ficava olhando os meninos passar, daí com a roupa que eles saíam, eu ia lá e colocava a roupa igual e ia, porque eles te davam uma mala cheia de roupa, roupa de treino, roupa de café, de concentração. Então, a minha chegada foi mais ou menos assim, o primeiro choque foi o clima, que eu achei que ia ser aquele baita inverno, e de repente tava aquele calor danado, é o clima, o choque cultural não teve ainda porque a gente saiu direto pra Áustria, depois, quando voltou pra Ucrânia, que eu pude analisar um pouco do país, porque eu cheguei com três dias, então não deu pra mim sair conhecer nada, então a gente ficou parece que, praticamente vinte dias, um mês, na Áustria, depois que eu voltei pra Ucrânia, pra Kiev, então aí que você começa a se localizar.

Parece que você chegou num país velho, um país antigo, um país meio que destruído, você fala “Poxa vida, onde que eu vim parar, né?”. O aeroporto, lá em Kiev, por exemplo, é igual aqui em São Paulo, é um pouco afastado do centro, um rapaz foi me pegar no aeroporto, você vai passando pela periferia de Kiev, daí eu começava a olhar aqueles prédios, todos destruídos, eu falei “Meu Deus do céu!”, daí eu já comecei a querer escolher o melhorzinho pra falar “É aqui que eu vou morar, né?”, comecei a olhar pra lá, pra cá, olhar pra lá, pra cá, pra cá, daí foi indo, foi indo até chegar ao centro, e o cara que me levou, no caso, ele sempre falou maravilhas de Kiev, “Não, porque a cidade é bonita, que a cidade é isso, que tem coisas boas pra fazer”, então você vai com essa imaginação, aí você chega e vê logo um país meio que abandonado.

Enfim, daí cheguei lá no clube, uma estrutura melhor, não sei hoje como estão os clubes do Brasil, mas melhor que todos, posso dizer melhor que muitos, então eles te dão toda a estrutura pra você ser um atleta, porque aqui no Brasil, de repente, se você tem estrutura, as pessoas falam que é mordomia, se o clube te dá condição de trabalho o pessoal fala “Ah, isso aí é muita regalia pro jogador!”, lá não, tanto na Ucrânia, depois na França, eles querem te deixar a vontade, te dar todo o suporte pra você não ter o que reclamar depois em campo; então eles te dão um bom CT, te dão bons campos, bons materiais de trabalho, te dão uma boa estrutura. Por exemplo, no Dínamo de Kiev, são sete campos pra treinar, sendo que tem um estádio coberto pra treino, quartos individuais, eles te tratam de uma maneira que, no Brasil, se você falar isso, assusta. Cheguei lá e daí começou um pouco dos choques culturais, porque o ucraniano é grosso na maneira de tratar, então, de repente, você vê um cara falando com uma mulher na rua, ele tá falando forte, de repente você fala “Nossa, ele vai bater na mulher”, mas de repente, você vai ver, ele tá falando “Eu te amo, eu te amo, eu te amo”, você não, eles são um pouco grosseiros, assim, na maneira de ser. Por exemplo, você vai no mercado, eles não usam “dá licença”, “por favor”, eles vão meio que empurrando, bate no seu carrinho, e isso assustou um pouco, eu não me acostumei, mas me adaptei, eu via como eles se tratavam e de repente comecei a entrar na onda também, mas é claro que sempre na medida certa.

Em relação a racismo: eu nunca sofri racismo lá, assim explícito, porque eles falam que os negros são os africanos, então eles tem um pouquinho de preconceito com o pessoal da África, pessoal do Marrocos, bom, enfim, o da África em geral. Eles falam que a gente é moreno, os negros brasileiros são morenos. Mas teve um fato curioso, uma vez eu tava num mercado, eu não culpo nem a criancinha, porque, infelizmente, na verdade a culpa é de quem ensina, são as escolas, porque, pra eles, só existe a Ucrânia, a Ucrânia é que interessa, a impressão que dá é que eles não ensinam que tem outras culturas, que tem outras etnias, que tem outros idiomas, é a impressão que dá; então, quando eu andava na rua, aquela criancinha sempre me olhava assim [expressão de espanto], acho que se eu fizesse “Bu!”, acho que criancinha saía correndo, que assustava até os adultos. Por eu ter uma condição melhor, jogador de futebol, a gente andava com um carro, assim, melhor um pouco, então as pessoas ficavam olhando você no carro e não te olhando porque é jogador, mas tipo “Poxa, como aquele negro tem um carro desses e eu tô aqui, de repente, andando meio que a pé?”, então você via que tinha uma coisa assim, mas nunca falado. Mas passou-se o tempo, eu aprendi a falar russo, hoje eu falo, de repente, uns 80% de russo, consigo falar legal, e eu tava no mercado e eu pedi licença, tava uma senhora com uma criança, daí eu falei, falei em russo, falei “Por favor, dá licença?”, daí a criancinha assustou e ficou me olhando, daí quando eu passei, ela falou assim: “Vovó, vovó, o negro fala russo!”, eu nem contabilizei, passei batido, mas você vê como que a falta de instrução, a falta de ensino, que eles pecam muito nisso na minha opinião, então as relações, as coisas culturais, as mais chocantes são essas.

Agora, em relação à cultura do futebol, também é muito diferente do Brasil. Lá, como veio daquela coisa de Segunda Guerra Mundial, que são lutadores, são batalhadores, eles levam isso pro futebol. Então, no Dínamo de Kiev, por exemplo, tem a história do Lobanovsky. Lobanovsky é uma pessoa muito influente, que já faleceu, o estádio do Dínamo leva o nome dele, foi um treinador do Dínamo de Kiev, então o pessoal, até hoje fala “Não, porque o Dínamo tem que ser da escola Lobanovsky, de jogadores guerreiros, que correm, que lutam”, então, o futebol ucraniano é mais ou menos isso. Até uns anos atrás o Dínamo era referência no futebol ucraniano, e o Shakhtar Donetsk, há uns cinco anos, meio que atropelou o Dínamo, mas o Dínamo é o time mais tradicional da Ucrânia. E o choque cultural no futebol também existe. Eu digo que é mais fácil pro zagueiro ir pra Ucrânia do que pro atacante, em termos de adaptação, porque é muita correria, muito choque, é muita trombada. O cara pode ser grosso, mas se o cara correr, der umas trombadas e ser forte, der uns carrinhos, o cara já serve, e o atacante tem que voltar pra marcar, tem que cumprir tática, e o brasileiro não tá muito acostumado a isso. Então tem esse choque cultural no campo, na maneira de lidar treinador-jogador, presidente-jogador, isso é muito diferente. Aqui a gente tem a liberdade, se o treinador falar alguma coisa, sem faltar com respeito, você tem a liberdade de expor a sua ideia, o presidente do clube vai falar, você tem a liberdade de falar a sua ideia, agora lá não, como eles vem do comunismo, onde um fala e os outros aceitam, no futebol eles também tratam meio que da mesma maneira. Muitas vezes o presidente ia falar lá, os jogadores abaixavam a cabeça, ficavam “O presidente vai vir”, o treinador falava, mas de maneira dura, o pessoal abaixava a cabeça, e a gente, os brasileiros, como tá acostumado a questionar, a gente falava, e o pessoal assustava “Poxa vida, ninguém nunca falou, como os brasileiros vêm aqui e rebatem?” e muitas vezes, no nervosismo, a gente falava pro tradutor e o tradutor tinha que passar, e isso assustava um pouco, então esse choque cultural de vestiário também tem muito, na Ucrânia, e muitas vezes tem jogador que não assimila isso.

O que eu digo: todo jogador que sai do Brasil tem que saber que vai sair pra uma cultura diferente, tem que saber que vai sair pra um idioma diferente, tem que saber que vai sair pra uma comida diferente, tem que saber que vai sair pra um lugar que as pessoas não vão bajular ele como ele é bajulado no Brasil, eu acho que isso faz com que muita gente volte. De repente aqui no Brasil o cara é bajulado, ninguém toca, ninguém encosta, e lá não, lá você vai chegar como mais um, então você vai mostrar que você merece ser bajulado lá. Muitas vezes, o jogador assusta, muito jogador brasileiro chega lá e quer que todo mundo faça um Brasil em torno dele. Mas é o que eu sempre digo: você que tá chegando numa cultura diferente, você que é o diferente, então você quem tem que se adaptar o mais rápido possível à cultura do país do lugar. Comigo foi assim, eu tive jogadores que passaram lá e que não conseguiam se enturmar, não conseguiam conversar com ninguém, porque não assimilavam isso; eu, quando cheguei, deu um certo tempo, quando deu seis meses, mais ou menos, eu já tava tentando falar russo, já tava tentando me comunicar, e deixava até mesmo o tradutor de lado pra mim tentar. Quando deu um ano eu me comunicava, conseguia falar russo, e chegou um tempo, quando a gente ficou acho que em cinco brasileiros, eu era mais ou menos que o tradutor dos brasileiros, o treinador falava pra mim e eu passava, a gente ficava até com dó do tradutor que tinha lá, que ele acabou sendo meio que deixado de lado, “Ah, deixa eu falar direto com o Betão, que o Betão fala a língua do jogador”, que o tradutor vai traduzir, de repente usa palavras que não é pro futebol. E lá no Dínamo ainda mantenho contato com alguns meninos, foi uma passagem muito interessante.

Agora indo pro lado do frio: eu cheguei a pegar -22˚, a temperatura mais baixa que eu peguei em Kiev, a gente tava fazendo pré-temporada, daí no inverno a gente sai pra outro lugar, a gente vai pra Israel, que é um inverno mais tranquilo, normalmente a gente ia pra Jerusalém, fazia a pré-temporada lá. A gente já fez na Galileia, são climas de praia, ia pra Marbella, também, que é na Espanha, que é um inverno, também, de chuva, mas 15˚, que dá pra treinar legal. Teve uma vez que eu tava voltando da pré-temporada, e quando a gente volta pra Kiev, tá de neve muitos metros, que as pessoas limpam, empurram a neve, assim, tudo pro lado, fica aquela montanha de neve na rua, eu tava com um fone de ouvido no bolso, e eu tirei a chave de casa, e o fone caiu e virou um arame farpado na hora. Peguei o fone durinho, durinho, pra ver como que é assim, o grau de frio que é na região. Aí uma vez a gente foi jogar na Bielorrússia, pela Copa da Uefa, e lá eles têm um costume de, antes, no dia do jogo, ou você faz um treino, ou você faz uma caminhada na rua, normal; e nós chegamos na cidade, tava -20˚, na Bielorrússia, a caminhada seria no dia seguinte, e o jogo seria a noite, de manhã, e a gente fez a caminhada de manhã, tava -22˚, isso é uma outra coisa que eu não me acostumei lá: tá chovendo, tá nevando, tem que fazer essa caminhada em dia do jogo, não importa, assim, coloca gorro, mas tem essa caminhada, ou é um alongamento, mas tem que ser fora do, tem que ser a céu aberto. E a gente saiu, eu falei “Meu, vai ficar todo mundo doente aqui, cara, -22˚, você vai fazer caminhada na, na neve”, e fomos, caminhamos, caminhamos, aí chegou no jogo, na hora do jogo, à noite, tava -24˚, eu falei “Não, não vai ter como jogar não”, acho que foi a temperatura mais baixa que eu joguei, daí os caras: “Não, vai” e podia usar aquela calça térmica. Hoje em dia não pode mais, mas podia usar calça térmica, podia usar um gorro, que a gente cortava a touca e fazia de gorro, eu usei todos os artifícios possíveis, eu coloquei luva, eu coloquei umas duas ou três térmicas, daí passa pomada no pé, pomada na orelha, você fica parecendo um ninja jogando, bola laranja, e o campo branco, branco, branco. “Ah, esquentou? Aqueceu? Ah, vamos, então vamos!”, passou a pomadinha. Pra que que existe intervalo? Não, até hoje, na neve, pra mim, deveria jogar os noventa minutos direto, daí você sai daquela neve, vai pro vestiário e esquenta, você não quer voltar mais, porque o pé, começa a ficar dolorido os dedos. Por pouco eu não pedi pra sair do jogo, eu ia falar “Não, não aguento”, porque meu pé tava doendo, assim, não tinha sido pancada, nada, mas acho que aquela mudança de temperatura do quente pro frio, doía, daí o rapaz veio fazer uma massagem, aí você volta pro campo de novo. Acho que essa foi a experiência mais forte que eu tive. E o interessante é que você olha pra arquibancada, o pessoal bebe vodca, naquele lado do Leste Europeu o pessoal gosta de uma vodca, então o pessoal toma aquela vodca, e você vê o pessoal de cachecol e sem camisa, na arquibancada, pulando, girando a camisa e o cachecol, assim, mas todo mundo já mais pra lá do que pra cá, então, acho que essa sim foi a experiência de inverno.

Agora, outra coisa legal que aconteceu, quando eu já achei que já sabia falar russo, foi numa pizzaria com a minha esposa. “Ah, vai? Vamos, vamos comer”, daí eu queria pedir uma pizza meio-a-meio; porque lá ninguém fala inglês, muito difícil você ver, assim, alguém falar inglês, mais os jovens, mas de uma certa idade. Então, queria pedir uma pizza meio-a-meio, daí eu cheguei num lugar, falei “Não, eu quero uma pizza meio-a-meio”, tentei falar inglês a pessoa, fez aquela cara assim, “Então, meio-a-meio, meio tal, meio…”, ela falou “Ah, entendi”, daí eu falei “Tá bom, vamos ver o que vai vir, né”, aí a minha esposa falou “Tá com cara de que não entendeu nada”, e era uma mesinha, pra duas pessoas. Aí, de repente, chegou o cara com duas pizzas, assim, na mesa, daí a minha esposa [falando baixo]“Ah, deixa pra lá, até você explicar de novo o que vai ser, deixa as duas pizzas aí”, daí todo mundo que passava olhava pra gente, olhava pra mesa, e aquela pizzas grandes, aquela vergonha, daí eu falei “Nossa, que situação vergonhosa”, e lá era gostoso andar, andar a pé, porque no verão escurece dez horas da noite, nove e meia o sol tá lá ainda, daí tudo fazia a pé, eu com a minha esposa, passeando na cidade. Daí a gente foi embora a pé, saímos do restaurante com uma pizza inteira na mão, como se fosse pra viagem. Essa também foi uma experiência bem bacana.

E em termos de culinária? Já que você falou em pizza…

Eu sou um cara que gosta de cozinhar, não sou o melhor cozinheiro, mas gosto, chamava o pessoal em casa pra cozinhar, mas não tem problema com culinária, porque tem o macarrão, macarrão todo mundo come, tinha mercados internacionais. Só que nos mercados internacionais o preço era lá em cima, por exemplo, um coco no mercado, transferindo na moeda, dava 55 reais. 55 reais um coco. Eram muito caros os produtos, então o que a gente fazia? A gente levava do Brasil, a gente levava arroz, feijão, levava tudo, carne a gente levava também, só que congelava a carne, a gente fazia todo um processo, porque lá eles não tem corte de carne igual aqui, aqui você chega no açougue, você vê lá: tem a picanha, tem a maminha, tem fraldinha, todos os cortes, certinho, lá é meio que um pedaço de carne cortado, então você nunca sabia se aquilo era pra fritar, se era pra cozinhar, que tipo de carne era, mas você não falava “Ah, tô passando fome aqui!”, tinha outras maneiras de você se alimentar.

Como é que fazia para levar essas comidas? Costumava ir parentes, amigos, outros jogadores?

Não, porque você a mala, você tem um limite de carga pra levar, são duas malas de 32kg, porque a gente viajava, o clube dava a passagem pra gente, a gente viajava naquela business, eu, minha esposa e meu filho, não precisava ficar levando roupa toda hora.

Quantas vezes você fazia essas, essas idas e vindas?

Então, lá na Ucrânia, assim, o lado legal de jogar lá é que a gente tem duas férias no ano. No Centro Europeu você só tem no meio do ano e uma semana no final. Lá nós tínhamos um mês no meio e mais um mês no final por causa do inverno, no final do ano, então a gente fazia essa ida e vinda duas vezes no ano.

Era o suficiente pra você se abastecer?

Ah, sim! Sim, abastecia, por seis meses você ficava tranquilo, levava uma bolacha, porque tem muita coisa que a gente gosta daqui que lá não tem, por exemplo, uma curiosidade, que era pipoca de farol, que a gente gosta de comer, de saquinho, que lá não tem, então, uma vez eu levei uns dez pacotes daquela pipoca pra passar um tempo, só que é legal que a gente começa a comer meio contado, você fala “Poxa, tem dois meses pra ir embora pras férias, só tem mais quatro pacotes de bolacha, então, pera aí, vamos regular”.

E aconteceu o inverso? Algum ingrediente de lá que você passou a gostar ou alguma bebida?

Assim, eu não bebo, mas tem uma coisa que é uma sopa borsch, que é uma sopa tradicional russa, mas como a Ucrânia é da ex-União Soviética, então eles também levaram esse costume, é uma sopa bacana, é uma sopa legal, que é uma sopa de beterraba com repolho, e você coloca carne de porco, não que eu vá fazer, mas foi uma surpresa, que eu gostei de me alimentar. Mas os costumes, pra quem não tá acostumado, era pesado; por exemplo, na concentração, normalmente, era macarrão e peixe, e salmão, que eles colocavam, carne era muito difícil, só que os ucranianos gostam de comer língua, língua de vaca, cozida, só que sem molho, sem nada. Aqui no Brasil, de repente, tem gente que faz com molho, na panela de pressão, lá acho que jogava a língua, só cortava em rodela e já jogava no prato pra eles e um pouquinho de purê. Eu olhava aquilo e falava “Meu Deus do céu! Isso não, não dá”. Isso era uma coisa, outro costume de comer cebola que eles tinham, e alho, ele queriam obrigar a gente, eles gostam por essa coisa comunista, eles gostavam de impor as coisas, e a gente batia o pé, “Não, a gente não quer!”. Crua, pegava a cebola, daí corta, sei lá, em quatro pedacinhos, e come aquilo como se fosse comendo uma maçã, que eles falam que no inverno é bom, pro sistema respiratório, o alho, também, uma cabecinha de alho, mastiga e vai que vai, e a gente “Não, não, não”, a gente batia o pé.

Outra coisa, em concentração, que deixava eles chateados com a gente é a conversa, porque lá você sentava pra comer, à princípio era uma mesa só, aí sentava o time todo numa mesa, só que ficava aquela divisão: ficavam os brasileiros, os ucranianos e o resto do mundo, vamos dizer assim, e às vezes alguns africanos se juntavam com os brasileiros, porque, no futebol, africano e brasileiro têm a mesma alegria, a mesma maneira de se tratar, e a gente, brasileiro, tá comendo, tá falando, tá conversando, tá rindo, e os ucranianos não, é um silêncio, e a mesa dos treinadores ficava separada, e a gente ria, falava alto, eles olhavam pra gente tipo, bravos, assim, tipo “Que que esses moleques tão falando?”. No ônibus, indo pro jogo, era um velório danado, tinha um treinador que não deixava escutar música, no vestiário parecia que a gente tava indo pra uma guerra, não pro futebol, você ficava naquele silêncio, aquela coisa toda, aquela tensão, entre aspas, porque, lá, se eles soubessem o que é ter pressão no futebol, eles tem que vir aqui pro Brasil, porque lá não tem pressão, mas o pessoal ficava naquela tensão. Então, esses são os choques culturais que você tem dentro do futebol e um pouco fora.

Outra coisa também que pode-se dizer é treinamento, é muito diferente o tipo de treinamento que se faz no Brasil e o que se faz lá. Hoje em dia, como eu falei, no Brasil, eu não sei como estão sendo feitas as coisas, mas na minha época você treinava muito intenso, treino lá parecia jogo, cada treino era muito, muito intenso, só que era um pouco mais curto. Aqui no Brasil você treina um pouco mais longo, e sem tanta intensidade. Quando eu digo intenso, eu digo com bola, treinamento com bola parecia jogo, caneleira, o pessoal ia, pegava, eles exigiam proteção, todo treino tinha que fazer a botinha, que a gente fala, passava a proteção no tornozelo. Essa competição é muito, muito acirrada. Agora, indo pro lado de vida, foi lá que eu tive meu primeiro filho, minha esposa engravidou lá, não nasceu lá, porque lá o sistema de saúde também é bastante precário, nasceu aqui no Brasil, mas ele foi fabricado lá, e hoje tenho mais uma filha também, uma filhinha de dez meses, meu filho tem quatro anos, minha filha tem dez meses, e depois dessa passagem na Ucrânia eu fui pra França…

Como citar

TONINI, Marcel Diego; BONFIM, Aira. Betão.